Estendal clássico
Contam-nos os antigos gregos que na época arcaica, antes do período micénico, os Cretenses dominavam o Mediterrâneo oriental. Atenas pagava um tributo de catorze rapazes e raparigas, de nove em nove anos, ao rei Minos, uma designação cerimonial dada ao monarca, que vivia em Knossos, capital da ilha e do império marítimo que controlava. Os jovens destinavam-se a alimentar o Minotauro, monstro que vivia no Labirinto, o palácio real constituído por centenas de divisões, cerimoniais, administrativas e familiares. O príncipe real ateniense, Teseu, resolveu pôr fim ao sangrento tributo e, viajando com os jovens condenados, conseguiu obter o segredo que lhe permitiu matar o Minotauro - um fio de seda desenrolado - depois de seduzir e abandonar a princesa Ariadne, filha do rei Minos. No regresso, porém, esqueceu-se do sinal combinado para transmitir a vitória: velas brancas em lugar das negras sob as quais viajara. O Rei de Creta, à aproximação do barco em luto, não suportou a ideia de perder o filho e pôs fim à vida.
Não sei porque é que me lembrei do Teseu hoje. Talvez a falta do mar. De certeza estes trabalhos de papeladas e textos, sempre os mesmos, em infinitas variações, ano após ano, por pura teimosia administrativa. A trabalheira que foi decifrar o mais recente discurso oficial, arrumado em circuitos complexos, ornamentado com fórmulas em que a criatividade da distribuição é assassinada pela absoluta inutilidade da coisa. Isto sob um calor sufocante, em que a temporária climatização apenas permitiu a continuidade do funcionamento neurológico básico.