domingo, 30 de Setembro de 2007

Lavagem outono/inverno



Encerrada a época dos incêndios, com modéstia e muita despesa, está oficialmente inaugurada a época das inundações. A abrir as hostilidades, o habitual rancor dos autarcas perante a magnitude das forças da natureza, sempre inesperada e destruidora face à irresponsabilidade, à incúria e à ganância. Faltam meios, lamentam-se as criaturas perante as câmaras e os microfones, compostos e aprumados nas vistosas fatiotas de função, que a lama, o entulho, os detritos, os equipamentos e viaturas inutilizados tornam mais insultuosas e berrantes.

sábado, 29 de Setembro de 2007

Estendal outonal



Dias de lentidão, dias de chuva,

dias de espelhos quebrados e de agulhas perdidas,

dias de pálpebras cerradas ao horizonte dos mares

de horas sempre iguais, dias de cativeiro.

(...)

Paul Éluard (trad. António Ramos Rosa)

sexta-feira, 28 de Setembro de 2007


Artes de lavar



Parece mal, nestes tempos higienicamentente correctos, que se celebrem as vindimas?

quinta-feira, 27 de Setembro de 2007

Para lavar



Multilateralismo efectivo - proclamou José Sócrates Pinto de Sousa, nas Nações Unidas. De que diabo está a falar o homem? De algum passo de dança, de motricidade humana ou de simples subserviência?
E eu a perder tempo com bipedias e verticalidades do princípio de tudo. A seguir desembarcam os criacionistas, não? Claro que nem precisam, qualquer dia. Basta ir continuando a cortar os programas, sem um propósito e sem uma ideia. Não admira que já pouco sentido façam, e que evidenciem bem os vinte anos que contam. São um conjunto medíocre de remendos e enxertos que a regedora da 5 de outubro impõe ao país, com pompa, circunstância e muitos efeitos especiais.

Estendal no Porto


Roupa estendida, Armindo Lopes

(...)
De janela em janela o dia é plural.
O mar atravessa-se entre os postes.
Uma toalha crespa
dá-me a palavra lavada e seca.
(...)
António Ramos Rosa

terça-feira, 25 de Setembro de 2007

A lavar




Chegam ensonados e com fome. As noites em frente aos écrãs e a correria estremunhada das manhãs empurram-nos para um despertar colectivo frente à turma, de estômago vazio. Os braços resvalam na mesa, a cabeça acompanha-os. As mãos entorpecidas custam a agarrar a esferográfica, os olhos embaciados não decifram as palavras que teimam em saltar do livro para o quadro. O aperto da fome afina-lhes os sentidos ao toque do intervalo e disparam, imparáveis, em direcção ao bar onde se engalfinham aos magotes. Conquistado bolo e refrigerante à força de empurrões e gritos, regressam aos amigos e colegas, saciados e alerta. Começa o dia.

segunda-feira, 24 de Setembro de 2007

Lavagem promocional





A propósito da qualidade de ar nas escolas, denunciada pela Deco, e contestada no costumeiro registo boçal a que nos habituou a tropa fandanga de maria de lurdes rodrigues, tenho a dizer que numa semana já destrocei (agora sim, sem cedilhas herdadas) três leques, para surpresa e respeito de trinta adolescentes afogueados. E nem sequer tem estado muito calor.


Quanto ao amianto dos alpendres, as fendas na velha estrutura deram lugar a crateras que se esboroam, dispersando no ar partículas comprovadamente cancerígenas. Nada que aflija a ministra da educação, que nega as evidências. A poeira acumulada sobre os pedidos de obras de recuperação nas escolas também não incomoda a senhora ministra. E porque haveria de incomodar?

domingo, 23 de Setembro de 2007


Estendal de equinócio

Autumn laundry, C.J. Rupp


Se aceitarmos, por um momento, que o princípio masculino é solar e o feminino lunar, então hoje é quando ambos partilham igualmente o dia.

sábado, 22 de Setembro de 2007


Lavar ontem

Jonhson Laundromat, Catharine Balco


Há dias em que ouves tanta asneira, assistes a tanta velhacaria e mediocridade, que é preciso um pouco de poesia. Não resolve, é certo. Mas devolve o sentido à vida.

sexta-feira, 21 de Setembro de 2007

Estendal de sexta feira




Harmonioso vulto que em mim se dilui.
Tu és o poema
e és a origem donde ele flui.
Intuito de ter. Intuito de amor
não compreendido.
Fica assim amor. Fica assim intuito.
Prometido.


Natália Correia




quinta-feira, 20 de Setembro de 2007

Lavagens masculinas



Até hoje tive a sorte de ter trabalhado apenas com dois pulhas. O primeiro, teve a hombridade de se afirmar animal logo no primeiro dia. O segundo travestiu-se de gente durante um ano. Com o primeiro pude, pelo menos, lavar a roupa suja, com o segundo a perfídia e a covardia ainda fedem sem lavagem. Ainda assim, pude seguir em frente sem arrastar o fedor comigo. O problema, evidentemente, não está na roupa suja. Está em quem chafurda nela.

quarta-feira, 19 de Setembro de 2007


Estendal de rentrée

Laundry line, Scott Prior

Os homens forçaram o Verão a roubar ao Outono a rentrée. Este ano parece que o Verão não esteve pelos ajustes!

terça-feira, 18 de Setembro de 2007


Estendal estético

Washerwoman, Heather Mainord


A criatura não tem culpa da encadernação que lhe coube na sina. Mas num mundo de plásticas de massas e de culto generalizado pelas convenções saudáveis, ser ministra da educação implica alguma contemporaneidade! Já que não temos outro remédio senão cumprir-lhe os delírios legislativos e tropeçar nas acintosas prestações públicas, ao menos algum retorno estético.

segunda-feira, 17 de Setembro de 2007

Lavagem da nova estação



Nil desperandum

domingo, 16 de Setembro de 2007


Estendal escolar




Parece que velha rentrée de Outubro regressou este ano. Nuvens, chuviscos, vento fresco... e o sol sem se deixar dominar completamente pelos elementos. Tudo o mais mudou. Ou quase tudo. Os gestos, as emoções, os protagonistas são os mesmos. Só as vozes e os corações são diferentes.

sábado, 15 de Setembro de 2007

Estendal inesperado




Acordo com o teu nome nos

meus lábios - amargo beijo


esse que o tempo dá sem

aviso a quem não esquece.


Maria do Rosário Pedreira

sexta-feira, 14 de Setembro de 2007

Lavagem com pene


Aqui há uns anos, professora que se prezasse detinha uma boa colecção de transparências. Não daquelas que põem as hormonas aos saltos, mas dos acetados, filhos da retroprojectora (só o nome é um nojo). Agora não. Professora com estilo tem pene. Assim mesmo, sem cedências anglófonas e com ressaibos freudianos. Pene que pode ser comprida ou mini, colorida ou escura e acompanhada de variadas formas de suspensão. Às vezes provoca umas crises de nervos, quando é retirada sem se desligar, ou quando a porta não a reconhece. Mas é um frisson. Não se fala noutra coisa! O mulherio exibe e compara entre si o aspecto e potência respectivas. A pene é a salvação da lavoura docente. Esta é a grande conquista do Choque Tecnológico! Os portáteis (mais um trambolho) não acredito... mas as penes, sim, conquistaram os corações femininos nas escolas.

Lavagem nacional
(pirateada ao eric blair)


Neste país de pernas para o ar, um primeiro ministro anda pelo país a vender computadores. Faz-se acompanhar por outros ministros, incluindo a ministra das escolas, e vários figurantes, enquanto o principal partido da oposição se suicida lentamente, com razoável alarido. A época é de regresso às aulas e as vedetas políticas fazem a romaria pelas escolas, dizendo umas inanidades e tentando lançar a agenda política à boleia do estagiário de serviço. Pelo meio, mais uma tragédia familiar, mais um escândalo no futebol. O pior são os actores. São todos pequeninos, cinzentos, azedos e cheios de si. E feios. Cada vez mais feios.

quarta-feira, 12 de Setembro de 2007

Lavagem escolar



Estão quase todos mais cansados e desanimados. E muito, muito mais pessimistas. Mas, como em tudo o que tem a ver com gente que vive de pé, por detrás do desalento, um sorriso, um gracejo, a vontade de soltar o desânimo em gargalhadas.

A lavar com Eugénio de Andrade



Só o desejo é matinal.

terça-feira, 11 de Setembro de 2007

Estendal misto

Os homens voltaram à escola. Senão como professores, pelo menos como pais. A escola tem sido, nos últimos anos, um espaço predominantemente feminino. Os homens fazem falta, como devia ser evidente. E a verdade é que muitos estavam lá, enchendo a sala, ao lado das mães, os filhos lá fora, enxotados pela papelada e com a sala a ser ocupada por outra sessão a seguir.
Vinham cansados do trabalho, outros iam trabalhar ainda e na sala fazia demasiado calor para tanta gente. Mas foi assim que inaugurámos mais uma volta no ciclo das estações.

segunda-feira, 10 de Setembro de 2007

Lavagem extraordinária


Preferia não ter tantas surpresas extraordinárias por dia, como ultimamente... Sobretudo porque pretendem ser a solução para surpresas extraordinárias! Para já contentava-me com a extraordinária minúcia quantificativa dos formulários administrativos e espantosa taxa reprodutiva ou a sinuosidade e variedade dos procedimentos a executar.

Uma coisa é certa. O nosso moderado génio burocrático, ameaçado pelas reformas administrativas, pelo simplex e pelo choque tecnológico, reemerge em todo o seu esplendor modernizado e salvífico, numa qualquer escolinha perto de si.

domingo, 9 de Setembro de 2007

Estendal de fim de férias



Fim de semana cinzento, com o verão a despedir-se... O mar cor de prata, envolvente e plácido, a pedir que não parta. A nortada, afastada pelo sueste. A praia, escavada pelas ondas, está pontilhada de gente abandonada na areia, desamparada pelo sol ausente, que irrompe de vez em quando numa baforada de calor.
Este verão apareceram os camaleões. Um, que ainda está no jardim do vizinho, outro no bar do fim da praia. Infelizmente, parece que o que os portugueses precisam são os projectos imobiliários que o primeiro ministro anunciou, ufano, para a Ria de Alvor!
Não resta muito tempo aos camaleões. Nem à bicharada das dunas. Vamos ver quanto tempo resiste a praia. Os homens, esses já desistiram.

quinta-feira, 6 de Setembro de 2007

Estendal clássico


Contam-nos os antigos gregos que na época arcaica, antes do período micénico, os Cretenses dominavam o Mediterrâneo oriental. Atenas pagava um tributo de catorze rapazes e raparigas, de nove em nove anos, ao rei Minos, uma designação cerimonial dada ao monarca, que vivia em Knossos, capital da ilha e do império marítimo que controlava. Os jovens destinavam-se a alimentar o Minotauro, monstro que vivia no Labirinto, o palácio real constituído por centenas de divisões, cerimoniais, administrativas e familiares. O príncipe real ateniense, Teseu, resolveu pôr fim ao sangrento tributo e, viajando com os jovens condenados, conseguiu obter o segredo que lhe permitiu matar o Minotauro - um fio de seda desenrolado - depois de seduzir e abandonar a princesa Ariadne, filha do rei Minos. No regresso, porém, esqueceu-se do sinal combinado para transmitir a vitória: velas brancas em lugar das negras sob as quais viajara. O Rei de Creta, à aproximação do barco em luto, não suportou a ideia de perder o filho e pôs fim à vida.

Não sei porque é que me lembrei do Teseu hoje. Talvez a falta do mar. De certeza estes trabalhos de papeladas e textos, sempre os mesmos, em infinitas variações, ano após ano, por pura teimosia administrativa. A trabalheira que foi decifrar o mais recente discurso oficial, arrumado em circuitos complexos, ornamentado com fórmulas em que a criatividade da distribuição é assassinada pela absoluta inutilidade da coisa. Isto sob um calor sufocante, em que a temporária climatização apenas permitiu a continuidade do funcionamento neurológico básico.

quarta-feira, 5 de Setembro de 2007


Estendal mágico


A questão, evidentemente, não está no papel mas sim nas fórmulas que ele contém, as quais, para que a sua magia própria funcione, exigem que sejam declinadas pelo menos dez vezes (como as cadeias de cartas ou emails) em outros tantos formatos. Hoje, por exemplo, vi a luz quando senti a Força a emergir da tabela antes horizontal, para a poderosa e mesmíssima tabela agora vertical, iluminada por mais duas ou três expressões cabalísticas. Afinal a douta e zelosa especialista em ciências da educação estava certa. Não basta descrever calendarizações de actividades curriculares, critérios de avaliação ou competências. É preciso convertê-las em arranjos florais de colunas e linhas e rodeá-las de um brilho discursivo de pechisbeque para que o purgatório sofrido (em que se arrastam gentias como eu) se transforme num paraíso em que finalmente possamos comunicar em verso (ou mesmo em rap) para converter os incréus às nuances esotéricas de "aprender a aprender".

terça-feira, 4 de Setembro de 2007

Estendal de papel

Blanchisseuses d'Antibes, Jean Louis Meissonier

Parece que a inspecção visitou a casa no ano passado. Aparentemente não a incomodou a absoluta decrepitude dos edifícios (persistências de arquitecturas para outras latitudes e gentes), a deterioração dos espaços exteriores (onde uma escorregadela ou tropeção candidatam qualquer adolescente à cirurgia plástica), o turno duplo com uma contínua e insalubre ocupação e lotação das salas (onde alternam, com os seus odores peculiares, o calor mais equatorial e o frio mais árctico), o aproveitamento de todos os centímetros quadrados, desde os sanitários às arrecadações de produtos de limpeza, para espaços de aprendizagem e trabalho, permitindo não só a divulgação embaraçada das vidas privadas e percursos escolares como também um desafio acrescido à imaginação e abstração. Não. O que incomodou a criatura foi a ausência das trinta e cinco declinações possíveis de uma planificação que por si só é já uma epopeia ao absoluto desajustamento de programas com vinte anos, esfrangalhados por sucessivas reformas e revisões que não só reduziram os tempos lectivos como impõem uma nova e escatológica terminologia. É certo que propiciam inumeráveis êxtases epistemológicos que nenhuma literatura sustenta... mas que a nomenclatura da cinco de outubro aplaude, certamente. Tal como o hospital da série "Yes Minister" funcionava lindamente apenas com os serviços administrativos, também as escolas o poderão fazer apenas com papel, resmas, montanhas de papel.... e impressoras, a debitar directamente da vinte e quatro de julho.


segunda-feira, 3 de Setembro de 2007

De novo a lavar



domingo, 2 de Setembro de 2007

Lavandaria arrumada




Acumulou-se muita roupa para lavar: no Darfur, no Kosovo, na Grécia, no Iraque, na presidência da União Europeia, na 5 de Outubro, nas editoras escolares, no banco da Obra, na noite do Porto...

sábado, 1 de Setembro de 2007

A lavar com Gastão Cruz




Um sentido de declínio

um sentido de setembro

um vinho distribuído

uma aventura nos membros


Distribuição do desejo

nos músculos e por isso

uma vontade de ter

o corpo distribuído.