sábado, 30 de Junho de 2007

Lavagens internacionais



Em vésperas de assumirmos a presidência da união europeia (o que quer que uma e outra signifiquem) escusámos de ter em funções um governo em desintegração, devorado pela gangrena e pelos vermes e exalando um odor fétido, que o calor do verão vai tornar ainda mais insuportável. Um primeiro ministro entorpecido pelo botox, pela arrogância e intoxicado pela delação e pela lisonja; um ministro dos negócios estrangeiros que parece sempre estar noutro país, um ministro da saúde abancado entre a sacristia e a mortuária; um ministro das obras públicas, fugido a uma junta médica psiquiátrica; um ministro da administração interna que não sabe como sê-lo; um ministro do ambiente que é uma assombração; um ministro da defesa em permanente overdose de ar e coisa nenhuma; uma ministra da educação, que destila má-fé, má-criação, mau gosto e chafurda nisso amparada pela incompetência, pela mediocridade e pela subserviência mais reles; uma ministra da cultura aflita e perdida; um ministro dos assuntos parlamentares com assomos de prepotência inquisitorial, em suma, uma tropa fandanga de baixo coturno, nada recomendável, e que foi o que o secretário geral do partido socialista, obtida uma maioria absoluta no parlamento, conseguiu espremer para governar a república.

sexta-feira, 29 de Junho de 2007

Estendal básico



Prefiro a escravidão à tortura. A escravidão tem o horizonte da liberdade, a tortura a parede da dor e do esquecimento. Nestes tempos de rapacidade e submissão, sabemos que o horizonte existe mas não o conseguimos ver. As pessoas deixam de ser gente e são reduzidas a recursos. O serviço público é espezinhado às secretárias, diariamente, e em portos de honra, entre croquetes e metáforas cínicas. Face a tudo o que perderam (e que ganharam, os que ganharam), todos querem qualquer coisa. A hostilidade tornou-se mortal e a indiferença deu lugar ao calculismo. A cortesia é medida cuidadosamente e as poucas conversas em torno de futebol já só versam sobre as férias. A tolerância ressuma desprezo e o entusiasmo está turvado. O convívio, quando existe, é sarcástico e desanimado. Como é que chegámos aqui?

quinta-feira, 28 de Junho de 2007

A lavar com herberto helder


Sobre o Poema

Um poema cresce inseguramente

na confusão da carne,

sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,

talvez como sangue

ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo.

Fora, a esplêndida violência

ou os bagos de uva de onde nascem

as raízes minúsculas do sol.

Fora, os corpos genuínos e inalteráveis

do nosso amor,

os rios, a grande paz exterior das coisas,

as folhas dormindo o silêncio,

as sementes à beira do vento,

— a hora teatral da posse.

E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.

Insustentável, único,

invade as órbitas, a face amorfa das paredes,

a miséria dos minutos,

a força sustida das coisas,

a redonda e livre harmonia do mundo.

— Em baixo o instrumento perplexo ignora

a espinha do mistério.

— E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

quarta-feira, 27 de Junho de 2007

Estendal quase de verão




Tenho o nome de uma flor

quando me chamas.

Quando me tocas,

nem eu sei

se sou água, rapariga,

ou algum pomar que atravessei.


Eugénio de Andrade


terça-feira, 26 de Junho de 2007

Estendal memorabilia



enquanto o anarca constipado bebia, estava eu a ler, no guardian monthly deste mês, o artigo sobre a onda de s.francisco, a geração beat, o flower power, de kerouac aos grateful dead, enfim, a minha infância e os ecos longínquos de uma vida para além dos estertores da ditadura.

Lavagem quase de volta

Blanchisseuse, Gavarini

Para se voltar, só de coração nas mãos. A partida é sempre um abandono, um adeus envergonhado, um empurrão nos afectos, nas diferenças, no tempo. Por isso, quando se regressa, o coração tem que ser o primeiro a chegar. Depois as mãos, a voz, o corpo todo. Por isso, puxei o coração do peito e guardo-o na concha das mãos, junto ao estômago, para que seja a primeira coisa que vejam à chegada.

segunda-feira, 25 de Junho de 2007

Estendal telúrico

s/n, Alfredo Munos de Oliveira, via Aldina Duarte

Quando o granito guardava o pão e o futuro dos homens e, ao som do vento, protegia primeiro o linho e a lã, depois o algodão, que os abrigava das inclemências do tempo e dos rigores da natureza.


domingo, 24 de Junho de 2007

A lavar com Alexandre O'Neill


(...) Da consciência - perdoem-me - mas desconfio. Ela está tão ocidentalmente conformada que, não raro, se confunde com a culpa, o remorso, a expiação ou, então, com a vaidade, o orgulho, a prepotência. Através do desejo, podemos buscar o inesperado e encontrá-lo. Parece-me ser a única forma autêntica de libertação. Mas que, nestas filosofâncias, fique bem claro que, quando penso em desejo, não estou a pensar em termos exclusivamente sexuais. O desejo é mais do que o apetite. É como o amor: uma forma de sexualidade alargada. Não há comportamento humano que lhe escape.



Esperar o inesperado in Uma coisa em forma de assim

sábado, 23 de Junho de 2007

Lavagem suspensa


Lavadouro no Luberon, França


Sol, calor, vento, uma pasmaceira que mal esconde o ruído desagradável da semana. Estou como o nelks: não me apetece.

sexta-feira, 22 de Junho de 2007

Lavagem circular




A rotunda de S. Domingos de Rana, à saída da autoestrada, foi uma obra difícil, cuja construção conheceu percalços vários, que sofri meses a fio, na louca esperança de um dia vir a resolver aquele momento kafkiano viário. Já nem refiro o acesso ou saída da Abóbada, nem os sucessivos arranjos escultóricos e hortículas, recentemente renovados com artístico efeito arbustífero. A dita rotunda tem duas faixas, o que só por si é todo um programa de aplicação prática de sofisticadas técnicas de condução e urbanidade (e não, nem de leve vou lavar uma anedota que corre por aí, atribuída ao Vaticano). Ora, na demanda laboral diária da capital do império, costumo optar pela lentidão da marginal, com um olho posto na máquina da frente e outro no horizonte de azuis, atitude que um dia me há-de sair cara e estragar a manhã a uma data de gente. Antes furiosa com os frequentes acidentes, hoje estou solidária com esse bom povo, sequioso de azuis no horizonte e confrontado com uma amálgama de chapa (ultimamente tem havido menos acidentes, vá-se lá saber porquê; talvez indiferença aos horizontes?).
De regresso a casa, não resisto à rapidez da autoestrada e, confortada pelo cumprimento do dever, desejosa de me esticar noutros afazeres menos elevados mas bem mais gratificantes, sou dada a ceder passagem a quem entra na rotunda e que, por uma vez, me dá a cara em vez de se encostar numa iminência de metal sem rosto. Nos últimos tempos, tenho sido forçada a abandonar as veleidades cívicas em prol da técnica de condução de defesa. Quando reduzo a velocidade e aceno ao outro condutor, a iluminada que me segue (e sim, têm sido sempre mulheres, acredito que numa conjugação estatística invulgar), aproveita para me ultrapassar, cortar a passagem ao outro e encostar-se à viatura que já está a sair da rotunda. Eu sei que nós, mulheres, temos múltiplas condições de afazeres poupados aos homens, mas também reconheço que a coisa já me comoveu mais. A questão que me atormenta agora é: saio do carro e parto-lhe a cara (as temperaturas amenas garantem a janela aberta) ou avanço tresloucada ( a carroça já está velhota e é um incentivo a finalmente arranjar um híbrido) e atiro-me a ela, aproveitando, enquanto esperamos pela polícia, para fazer uma arenga inflamada em prol da civilização ?
Estendal alentejano
(a todos nós que nascemos sob as estrelas além do Tejo e crescemos entre o sol abrasador e o frio da braseira, com as vozes doridas mas arrebatadoras dos homens e o calor divertido das mulheres)




Canção para o Alentejo


Alentejo, Alentejo,

vastidão de Portugal

futuro, continental!

Terra lavrada, que vejo

a ser mar mas sem ter sal.

Ondas de trigo maduro

onde mais ninguém se afoga:

danças alegres da roga

que vindima no meu Doiro

e vem colher o pão loiro

da inteira fraternidade

que falta a esta metade

de coração largo e moiro.


Miguel Torga

quinta-feira, 21 de Junho de 2007

Lavagem de solstício


Harvest Moon, John Lidell


Harvest Moon


Come a little bit closer

Hear what I have to say

Just like children sleepin'

We could dream this night away.

But there's a full moon risin'

Lets go dancin' in the light

We know where the music's playin'

Lets go out and feel the night.

Because I'm still in love with you

I want to see you dance again

Because I'm still in love with you

On this harvest moon.

When we were strangers

I watched you from afar

When we were lovers

I loved you with all my heart.



Neil Young


quarta-feira, 20 de Junho de 2007


Lavagem à distância
(graças à Aldina pela foto... e pela proximidade)

s/n. Mico

Todos nós temos uma distância de segurança, feita de espaço, palavras, tempo. Às vezes as nossas distâncias colidem e anulam-se. É quando o outro deixa de ser o outro e passa a ser alguém como nós. Porque riu connosco em uníssono, porque disse em voz alta o que murmuramos baixinho, porque deu corpo às fantasias ou desejos que nem sabíamos que tínhamos, porque de alguma maneira conhecia o caminho para o nosso coração. Chamar-lhe-ia amor mas é, no fundo, ausência de distância, que é, afinal, a condição de sermos gente.

terça-feira, 19 de Junho de 2007


Lavagem lectiva



Última semana de aulas. Exames. Sombras de um verão que persiste em se esconder. Num país de aldrabices enganamos os miúdos com provas imbecis, exames medíocres e um desprezo institucional por aquele que é o maior compromisso da República: proporcionar aos seus filhos uma escolaridade consistente e de qualidade para que sejam cidadãos livres e pessoas inteiras.
A padralhada e o mundo empresarial (de vão de escada ou de aeroporto) agradecem.

segunda-feira, 18 de Junho de 2007

A lavar com herberto helder






É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a

entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel relâmpago das

frutas. O incêndio atrás das noites corta

pelo meio

o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras

um pouco loucas

engolfadas, entre as mãos sumptuosas.

A doçura mata.

A luz salta às golfadas.

A terra é alta.

Tu és o nó de sangue que me sufoca.

Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões

da madeira fria. És uma faca cravada na minha

vida secreta. E como estrelas

duplas

consanguíneas, luzimos de um para o outro

nas trevas.


domingo, 17 de Junho de 2007

Lavagem no tempo II
ao luís amaro




Não, nem o tempo, embora longo, nem a irremediável ausência, apagaram as linhas do rosto, a cor do olhar, o ritmo das mãos. E se a música ardente se esfumou, permanecem os lugares no corpo, um rasto de calor, uma tremura escondida. O tempo sobrepõe, fixa, e confere uma tonalidade pungente e íntima ao eco dos risos e dos sussurros.

Lavagem no tempo
ao joão bentes





Memória


Perdi as linhas do teu rosto

e a cor do teu olhar

na confusão do tempo.

E a música do teu corpo não existe,

desfez-se ao vento...

No tumulto dos dias

a tua lembrança ardente

apagou-se... e agora,

se te quero evocar

- a ti que vivias tão cerca da minha alma -

ergo do chão, somente,

esta flor de cinza

que a imperceptível aragem

desfaz e leva...


Luís Amaro, Diário Íntimo

sábado, 16 de Junho de 2007

Estendal invernoso



O inverno esgueirou-se do ministério da educação, onde tinha assentado arraiais, e invadiu meio país com esta bruma fria que se derrama miudinha sobre as pessoas. A escuridão kafkiana das repartições a norte persiste, e declina-se em episódios cada vez mais absurdos. Durante anos, os desmandos das sumidades da 24 de julho, rubricados pelos comissários da 5 de outubro, alimentaram os delírios mais paranóicos que a ignorância e a irresponsabilidade consentiam.A mera enumeração dos titulares do ministério poderia definir o elenco de um filme de terror, não fosse o caso de não passarem de figurantes de uma produção pretensiosa em permanente crise de realização. A verdade é que a qualidade dos figurantes desceu a níveis inimagináveis de decoro e civilidade. Triste condição a nossa, espectadores desta miséria.

Estendal à chuva

Raindrops on clothesline, Grand Illusion



Raindrops keep fallin' on my head
Raindrops keep fallin' on my head
And just like the guy whose feet are too big for his bed
Nothin' seems to fit
Those raindrops are fallin' on my head, they keep fallin'
So I just did me some talkin' to the sun
And I said I didn't like the way he got things done
Sleepin' on the job
Those raindrops are fallin' on my head, they keep fallin'
But there's one thing I know
The blues they send to meet me won't defeat me
It won't be long till happiness steps up to greet me
Raindrops keep fallin' on my head
But that doesn't mean my eyes will soon be turnin' red
Cryin's not for me'
Cause I'm never gonna stop the rain by complainin'
Because I'm free
Nothin's worryin' me
It won't be long till happiness steps up to greet me
Raindrops keep fallin' on my head
But that doesn't mean my eyes will soon be turnin' red
Cryin's not for me
'Cause I'm never gonna stop the rain by complainin'
Because I'm free
Nothin's worryin' me
B.J. Thomas

sexta-feira, 15 de Junho de 2007


Lavagens mansas



Calmaria



Nada!


Horas e horas neste ponto morto
Onde caíu agora a minha vida...
Nem um desejo, ao menos!
Só instintos pequenos:

Apetite de cama e de comida!
Nem sequer ler um livro
Ou conversar comigo, discutir...

Nada!

Neutro, morno, a dormir

Com a carne acordada.


Miguel Torga

quinta-feira, 14 de Junho de 2007


Lavagem com chuva

Clothesline, Old Jace Seacrow

É em dias como este, em que as nuvens correm sob um céu de chumbo e o mundo não é a cores nem a preto e branco, que expomos a nossa extraordinária brevidade. Poeira de estrelas, sobressalto evolucionista, equívoco dos deuses ou pequenos grandes poemas de água e vento, somos tudo e não chegamos a ser nada. Construtores de impérios e de catástrofes, abrigamo-nos da chuva como os animais. E, como eles, estremecemos com a luz e tememos a escuridão.

quarta-feira, 13 de Junho de 2007

Estendal nocturno com luzes



Miúda, ainda saltei a fogueira nas noites de santo antónio, são joão, são pedro. Ainda senti o frescor da noite temperado pelo calor do fogo e pelos desafios. Antecipação do verão inaugurado pelo solstício, antecipação das férias grandes. Na cidade, estas memórias antigas persistiam lado a lado com os arraiais urbanos, as marchas e os manjericos, e os desfiles que o Estado Novo cristalizou e a democracia abrasileirou. Trazidas por uma população que abandonava o interior, estas tradições evocavam, de forma derradeira, os vínculos entre os homens e a natureza numa cidade cujas raízes no mundo rural ainda eram reconhecidas.



terça-feira, 12 de Junho de 2007

Estendal titular
porque em vinte e cinco anos de carreira, só os últimos sete anos é que contam







Sete Fadas me Fadaram


Sete fadas me fadaram

Sete irmãos m'arrenegaram

Sete vacas me morreram

Outras sete me mataram
Sete setes desvendei

Sete laranjinhas de oiro

Sete piados de agoiro

Sete coisas que eu cá sei
Sete cabras mancas

Sete bruxas velhas

Sete salamandras

Sete cega-regas
Sete foles

Sete feridas

Sete espadas

Sete dores

Sete mortes

Sete vidas

Sete amores

Sete estrelas me ocultaram

Sete luas, sete sóis

Sete sonhos me negaram

Aqui d'el rei é demais



António Quadros /José Afonso

segunda-feira, 11 de Junho de 2007

A lavar com Eugénio de Andrade
in memoriam



Lavadouro em St Fermin des Prés



Estive sempre sentado nesta pedra
escutando, por assim dizer, o silêncio.
Ou no lago cair um fiozinho de água.
O lago é o tanque daquela idade
em que não tinha o coração
magoado. (Porque o amor, perdoa dizê-lo,
dói tanto! Todo o amor. Até o nosso,
tão feito de privação.) Estou onde
sempre estive: à beira de ser água.
Envelhecendo no rumor da bica
por onde corre apenas o silêncio.




domingo, 10 de Junho de 2007


Estendal Portugal


Miúdos do Porto, Armindo Lopes



Valsinha das Medalhas

Já chegou o dez de junho
O dia da minha raça
Tocam cornetas na rua
Brilham medalhas na praça
Rolam já as merendas
Na toalha da parada
Para depois das comendas
E ordens de torre-e-espada

Na tribuna do galarim
Entre veludo e cetim
Toca a banda da marinha
E o povo canta e valsinha
Povo: Encosta o teu peito ao meu
Sente comoção e chora
Ergue um olhar para o céu
Que a gente não se vai embora
Povo: Quem és tu donde vens
Conta-nos lá os teus feitos
Que eu nunca vi pátria assim
Pequena e com tantos peitos

Já chegou o dez de junho
Há cerimónia na praça
Há colchas nos varandins
É a guarda que passa
Desfilam entre grinaldas
Velhos heróis de alfinete
Trazem debaixo das fraldas
Mais índias de gabinete

Na tribuna do galarim
Entre veludo e cetim
Toca a banda da marinha
E o povo canta e valsinha


Carlos Tê/Rui Veloso

sábado, 9 de Junho de 2007

A lavar com herberto helder


Marcello Mastroiani e Sophia Loren - Una giornata particolare


AOS AMIGOS


Amo devagar os amigos que são tristes

com cinco dedos de cada lado.

Os amigos que enlouquecem e estão sentados,

fechando os olhos,

com os livros atrás a arder para toda a eternidade.

Não os chamo,

e eles voltam-se profundamente dentro do fogo.

- Temos um talento doloroso e obscuro.

Construímos um lugar de silêncio.

De paixão.

sexta-feira, 8 de Junho de 2007

Lavagens libidinosas


direita sexy?





esquerda erótica?



Confesso que, numa das recentes trapalhadas do CDS/PP, fiquei assaz preocupada com o anúncio do partido sexy, para uma direita sexy. Sobretudo porque me tinham passado debaixo dos olhos as congeminações do Arnaldo Jabor, que concluía, "Actualmente, sexo é de direita. Nos anos 60, era o contrário. Sexo era revolucionário e o amor era careta". (Eram os tempos do Reich e do Vaneigen, claro).


Ora a direita, depois de anos (séculos?) a zelar pela preservação da carne (defumada, em sal, no gelo, no vácuo), parecia descobrir os caminhos da libido e proclamava-o de camisa aberta e peito feito. A esquerda, porém, continuava confinada (e não muito festiva), ao caviar. Que diabo (sic), parecia que os papéis estavam trocados! Felizmente as coisas parecem ter mudado. Ou, pelo contrário, repôs-se algum equilíbrio: surgiu, finalmente reconhecida, a esquerda erótica. Agora sim, podemos voltar tranquilamente às nossas lavagens. Sexualidade e erotismo... já não era sem tempo!

quinta-feira, 7 de Junho de 2007

Lavagem a cinco vozes


Os Vozes da Rádio são muito bons. Não há volta a dar-lhe. São também, vá-se lá saber porquê, um segredo bem guardado. No Maxime fizeram uma mão cheia de gente feliz, determinada a cantar e a brincar tão bem como eles. Por isso, enquanto não cantam de novo por perto, é ouvir "Sete e pico, oito e coisa, nove e tal" onde repuxam o catálogo de António Mafra, em boa companhia. Ao mesmo tempo, uma espreitadela à agenda musical e gastronómica dos rapazes, com algumas canções on-line.

quarta-feira, 6 de Junho de 2007

Estendal solitário
à João, em pinturas no seu refúgio do Cabo





Mais do que batida
Mais do que cansada
Porque te não procura doçura
Doçura extrema do nada?

...é a minha obediência, sem limites,
A uma eternidade de existências,
De ser?

Já nem mesmo sei chorar
Com aquelas lágrimas
Que dos nossos olhos saem
Tão por de leve salgadas!

Só no íntimo de mim
Há uma queixa tão seguida, tão velada...
Como a voz do muito amor.



Maria Valupi, Desprevenidas Paisagens, 1959

terça-feira, 5 de Junho de 2007

A lavar ?




O Darfur é muito longe. Continuam a morrer milhares de mulheres, homens e crianças enquanto os senhores da guerra impõem a barbárie e o terror. Não sei se uma força de intervenção estrangeira porá fim a esta hecatombe. Acredito, porém, que muitas vidas e sofrimento serão poupados. Por isso, mesmo sem grandes ilusões quanto à validade ou adequação dos objectivos desta petição, assinei. É melhor que ficar aqui, quieta e de coração partido.
Estendal simples





O simplex em todo o seu esplendor! O concurso de candidatura a professor titular, aberto pelo ministério da educação, não permite reclamações. Pela pena de maria de lurdes rodrigues, o Estado faz tábua rasa de uma das traves mestras do contrato social que o víncula aos cidadãos: o direito que estes têm de contestar decisões que entendem ilegítimas. Não é que seja a primeira vez. Suspeito que, na provedoria de justiça, o ministério da educação continua a ser o organismo (público e privado) que mais atropela os direitos dos cidadãos.


Não falemos, aliás, das enormidades legislativas produzidas a bom ritmo na cinco de outubro, porque parece que ninguém quer falar disso. E é preciso falar a sério para perceber o delírio pedagógico que continua a soprar, agora em surdina, dos lados da vinte e quatro de julho: mais um acertozinho curricular para o próximo ano lectivo! A área de TIC deixa, ao que parece (e sem saudades) o secundário e instala-se no terceiro ciclo, a somar à disciplina de TIC no 9º ano. Como não aumenta a carga horária, o que é que irá desaparecer? Deixem-me dar um palpite cínico: talvez aquelas duas almas que desde janeiro, uma vez por semana, andaram a conceber objectivos (ai, perdão, competências) e conteúdos para uma disciplina de Artes Plásticas a alternar semestralmente com Educação Tecnológica (obrigatória). Aliás, esta área, com duas disciplinas semestrais num ano lectivo que se desenvolve em três períodos, é uma ode lancinante às sumidades da educação que continuam acantonadas na cinco de outubro: palavrosa e fútil.


segunda-feira, 4 de Junho de 2007

Estendal breve





BREVE DESILUSÃO




Esta pequena hora,


Sem o teu vulto, sem a tua espera,


Foi uma hora triste;


Foi como quando se acorda em primavera


Já quando a primavera não existe.





Miguel Torga



domingo, 3 de Junho de 2007

Estendal a sul




Gosto de chegar ao mar através de flores e searas ondulantes. Gosto de erguer a cabeça da terra e ser inundada pelo azul do mar. Gosto da surpresa da água fria a dizer-me ainda não. Gosto do quebrar das ondas na areia, das cristas de espuma despenteadas pela nortada. Gosto de mim, com os pés enterrados na água, e dos homens que passam, indolentes e atordoados pelo grito das gaivotas que os perseguem desde Lagos. Gosto do troar sincopado das ondas que enfeitiça o sol, suspenso a meio do céu, e do vento que empurra para o mar. Gosto da tarde que se resolve, ao longe, sobre as falésias da ponta da piedade e desliza, preguiçosa, em direcção ao oceano. E gosto da noite que descobre todas as estrelas do sul para dizer que eu sou eu também.

sexta-feira, 1 de Junho de 2007

Lavagens infantis











Estendais infantis
(graças à Aldina Duarte)




s/n, João Viegas