
Em vésperas de assumirmos a presidência da união europeia (o que quer que uma e outra signifiquem) escusámos de ter em funções um governo em desintegração, devorado pela gangrena e pelos vermes e exalando um odor fétido, que o calor do verão vai tornar ainda mais insuportável. Um primeiro ministro entorpecido pelo botox, pela arrogância e intoxicado pela delação e pela lisonja; um ministro dos negócios estrangeiros que parece sempre estar noutro país, um ministro da saúde abancado entre a sacristia e a mortuária; um ministro das obras públicas, fugido a uma junta médica psiquiátrica; um ministro da administração interna que não sabe como sê-lo; um ministro do ambiente que é uma assombração; um ministro da defesa em permanente overdose de ar e coisa nenhuma; uma ministra da educação, que destila má-fé, má-criação, mau gosto e chafurda nisso amparada pela incompetência, pela mediocridade e pela subserviência mais reles; uma ministra da cultura aflita e perdida; um ministro dos assuntos parlamentares com assomos de prepotência inquisitorial, em suma, uma tropa fandanga de baixo coturno, nada recomendável, e que foi o que o secretário geral do partido socialista, obtida uma maioria absoluta no parlamento, conseguiu espremer para governar a república.
sábado, 30 de Junho de 2007
sexta-feira, 29 de Junho de 2007

quinta-feira, 28 de Junho de 2007
A lavar com herberto helder
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.
Fora existe o mundo.
Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
— a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.
E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.
— Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
— E o poema faz-se contra o tempo e a carne.
quarta-feira, 27 de Junho de 2007
Estendal quase de verão

Eugénio de Andrade
terça-feira, 26 de Junho de 2007

Blanchisseuse, Gavarini
Para se voltar, só de coração nas mãos. A partida é sempre um abandono, um adeus envergonhado, um empurrão nos afectos, nas diferenças, no tempo. Por isso, quando se regressa, o coração tem que ser o primeiro a chegar. Depois as mãos, a voz, o corpo todo. Por isso, puxei o coração do peito e guardo-o na concha das mãos, junto ao estômago, para que seja a primeira coisa que vejam à chegada.
segunda-feira, 25 de Junho de 2007
s/n, Alfredo Munos de Oliveira, via Aldina Duarte
Quando o granito guardava o pão e o futuro dos homens e, ao som do vento, protegia primeiro o linho e a lã, depois o algodão, que os abrigava das inclemências do tempo e dos rigores da natureza.
domingo, 24 de Junho de 2007

(...) Da consciência - perdoem-me - mas desconfio. Ela está tão ocidentalmente conformada que, não raro, se confunde com a culpa, o remorso, a expiação ou, então, com a vaidade, o orgulho, a prepotência. Através do desejo, podemos buscar o inesperado e encontrá-lo. Parece-me ser a única forma autêntica de libertação. Mas que, nestas filosofâncias, fique bem claro que, quando penso em desejo, não estou a pensar em termos exclusivamente sexuais. O desejo é mais do que o apetite. É como o amor: uma forma de sexualidade alargada. Não há comportamento humano que lhe escape.
Esperar o inesperado in Uma coisa em forma de assim
sábado, 23 de Junho de 2007
Lavadouro no Luberon, França
sexta-feira, 22 de Junho de 2007

(a todos nós que nascemos sob as estrelas além do Tejo e crescemos entre o sol abrasador e o frio da braseira, com as vozes doridas mas arrebatadoras dos homens e o calor divertido das mulheres)

quinta-feira, 21 de Junho de 2007
Harvest Moon, John Lidell
Harvest Moon
quarta-feira, 20 de Junho de 2007
s/n. Mico
Todos nós temos uma distância de segurança, feita de espaço, palavras, tempo. Às vezes as nossas distâncias colidem e anulam-se. É quando o outro deixa de ser o outro e passa a ser alguém como nós. Porque riu connosco em uníssono, porque disse em voz alta o que murmuramos baixinho, porque deu corpo às fantasias ou desejos que nem sabíamos que tínhamos, porque de alguma maneira conhecia o caminho para o nosso coração. Chamar-lhe-ia amor mas é, no fundo, ausência de distância, que é, afinal, a condição de sermos gente.
terça-feira, 19 de Junho de 2007
Lavagem lectiva

segunda-feira, 18 de Junho de 2007

domingo, 17 de Junho de 2007

ao joão bentes

sábado, 16 de Junho de 2007

Raindrops on clothesline, Grand Illusion
sexta-feira, 15 de Junho de 2007

Nada!
Horas e horas neste ponto morto
Onde caíu agora a minha vida...
Nem um desejo, ao menos!
Só instintos pequenos:
Apetite de cama e de comida!
Nem sequer ler um livro
Ou conversar comigo, discutir...
Nada!
Neutro, morno, a dormir
Com a carne acordada.
Miguel Torga
quinta-feira, 14 de Junho de 2007
Clothesline, Old Jace Seacrow
quarta-feira, 13 de Junho de 2007

Miúda, ainda saltei a fogueira nas noites de santo antónio, são joão, são pedro. Ainda senti o frescor da noite temperado pelo calor do fogo e pelos desafios. Antecipação do verão inaugurado pelo solstício, antecipação das férias grandes. Na cidade, estas memórias antigas persistiam lado a lado com os arraiais urbanos, as marchas e os manjericos, e os desfiles que o Estado Novo cristalizou e a democracia abrasileirou. Trazidas por uma população que abandonava o interior, estas tradições evocavam, de forma derradeira, os vínculos entre os homens e a natureza numa cidade cujas raízes no mundo rural ainda eram reconhecidas.
terça-feira, 12 de Junho de 2007
porque em vinte e cinco anos de carreira, só os últimos sete anos é que contam

segunda-feira, 11 de Junho de 2007

Lavadouro em St Fermin des Prés
Estive sempre sentado nesta pedra
escutando, por assim dizer, o silêncio.
Ou no lago cair um fiozinho de água.
O lago é o tanque daquela idade
em que não tinha o coração
magoado. (Porque o amor, perdoa dizê-lo,
dói tanto! Todo o amor. Até o nosso,
tão feito de privação.) Estou onde
sempre estive: à beira de ser água.
Envelhecendo no rumor da bica
por onde corre apenas o silêncio.
domingo, 10 de Junho de 2007
Miúdos do Porto, Armindo Lopes
Já chegou o dez de junho
sábado, 9 de Junho de 2007

Marcello Mastroiani e Sophia Loren - Una giornata particolare
sexta-feira, 8 de Junho de 2007

direita sexy?

esquerda erótica?
quinta-feira, 7 de Junho de 2007

quarta-feira, 6 de Junho de 2007
à João, em pinturas no seu refúgio do Cabo

Mais do que cansada
Porque te não procura doçura
Doçura extrema do nada?
...é a minha obediência, sem limites,
A uma eternidade de existências,
De ser?
Já nem mesmo sei chorar
Com aquelas lágrimas
Que dos nossos olhos saem
Tão por de leve salgadas!
Só no íntimo de mim
Há uma queixa tão seguida, tão velada...
Como a voz do muito amor.
Maria Valupi, Desprevenidas Paisagens, 1959
terça-feira, 5 de Junho de 2007


segunda-feira, 4 de Junho de 2007
Estendal breve

domingo, 3 de Junho de 2007

Gosto de chegar ao mar através de flores e searas ondulantes. Gosto de erguer a cabeça da terra e ser inundada pelo azul do mar. Gosto da surpresa da água fria a dizer-me ainda não. Gosto do quebrar das ondas na areia, das cristas de espuma despenteadas pela nortada. Gosto de mim, com os pés enterrados na água, e dos homens que passam, indolentes e atordoados pelo grito das gaivotas que os perseguem desde Lagos. Gosto do troar sincopado das ondas que enfeitiça o sol, suspenso a meio do céu, e do vento que empurra para o mar. Gosto da tarde que se resolve, ao longe, sobre as falésias da ponta da piedade e desliza, preguiçosa, em direcção ao oceano. E gosto da noite que descobre todas as estrelas do sul para dizer que eu sou eu também.



