segunda-feira, 30 de Abril de 2007


Estendal masculino

Drying Pants, Keith Levit


Invoco o teu nome uma e outra vez, numa cantilena mental que gostaria te explodisse em estrelas cintilantes na mente. Assim como um feitiço, um encantamento, uma teia de bons propósitos e pensamentos menos virtuosos, fantásticos e reais como uma nebulosa cósmica.
Chamo-te, sem te ver nem sentir, apenas porque existem comprimentos de onda que escapam ao controle dos homens e das máquinas que eles inventam. E sei que me ouves ou não sentiria este calor que me inunda a face e desce em espirais até ao peito. Um roçar pressentido de lábios, uma projecção astral de beijo.
E repito, uma e outra vez, agora baixinho, o teu nome, o teu nome, o teu nome.


sábado, 28 de Abril de 2007


Lavar no Darfur



Children from Gana Zawya, Eva-Lotta Janssen

O nosso silêncio mata também.



Estendais pensantes preferidos

Escadas do Codeçal, Porto- José Paulo Andrade



Entre tantas lavagens, claro que há alguns estendais onde me perco. Pelos neurónios anarquistas e pela banda sonora da minha vida; pela poesia e pela voz; pelo surrealismo e simplicidade; pelo profissionalismo; pela militância; pelo olhar; pelas causas.

sexta-feira, 27 de Abril de 2007

Estendal de promessas


Promessas, promessas, promessas


quinta-feira, 26 de Abril de 2007

Estendal basco




Guernica, arrasada pela aviação alemã há 70 anos.

IN MEMORIAM

quarta-feira, 25 de Abril de 2007

Lavagem republicana



Largo de Camões, Lisboa


Hoje, empurrada pela preguiça e por um desalento brando, resolvi ir almoçar à Baixa. Apetecia-me ver gente, na rua. À chegada ao Chiado, o Largo de Camões estava coberto de relva. Telefono à João, que mora mais abaixo, para vir ter connosco. Espalhados pelo recinto, chapéus de sol verdes, cadeiras e almofadões coloridos. Junto à estátua mesas enfeitadas com bandeiras dos Palops e recipientes variados sugeriam uma sessão de comes. Uma tenda guardava um molho de cravos vermelhos. Pensei que era para comprar mas não, eram oferecidos. Já com o meu na botoeira, avanço por entre namorados, jovens casais, crianças, assim meio freaks mas mais estilizados. Alguns turistas, meio surpresos, mas à vontade. No ar, a voz do Zeca Afonso. Distingo, entre os presentes, velhotes do bairro e curiosos. Toda a gente parecia muito bem disposta. Às tantas, surge um pequeno desfile, tipo marcha popular, que dá uma volta à praça a cantar e que se dissolve depois na pequena multidão. No topo, aproxima-se um grupo coral alentejano de Castro Verde que canta três ou quatro canções. Na última, "Grândola, Vila Morena", claro, já toda a gente cantava. Entre a assistência, dois responsáveis engravatados e circunspectos do município. A Rita liga. "Onde é que vocês estão?". "Na festa do 25 de Abril, no Camões. Está cheio de relva e de gente descalça".
E é assim que se calhar vai perdurar a memória deste dia. Não pelo que o anteceu ou que se lhe seguiu, mas por ter sido aquele dia único e irrepetível, em que um povo sai à rua para mudar, ou ver mudar, o seu destino. Um dia colectivo, como a História produz poucos numa vida. E parece-me que sim, que importa fixá-lo na memória e estar com outros para quem ele foi uma celebração. Não certamente com cerimónias oficiais quase fúnebres, mas como uma festa cívica, celebrada descalça e sobre uma relva improvável e efémera, a ouvir um homem que mobilizou e honrou uma geração que viveu tempos tão difíceis.

Lavagem em 1945


Lavagem em 1974

terça-feira, 24 de Abril de 2007


Lavagem anarquista





Em 24 de abril de 1974 os anarquistas eram uns seres anacrónicos e intimidantes, sobreviventes do princípio do século. Mais misteriosos que os democratas e que os comunistas. Mais perigosos que todos juntos. Vestiam-se de negro e usavam boinas bascas. Herdeiros do anarco-sindicalismo, acolhiam-se na fumarada industrial do Barreiro e em torno do jornal "A Batalha". Cáusticos, sarcásticos, anti-clericais e ... velhos. Tinham os seus gurus russos, cujos escritos lia às escondidas, fascinada, divertida e com um bocadinho de medo. Lembro-me de querer imenso acreditar num futuro de anarquia. Os primeiros rapazes anarquistas que conheci eram jovens operários. Nos meus quinze anos, a revolução far-se-ia com rapazes, não com velhos. Com pessoas, não com partidos. Hoje, se calhar, já não sou anarquista. Mas os meus heróis de então também já não são operários. Serei anarca, certamente, embora a constipação já tenha escolhido o preferido!


A lavar, com José Afonso



Traz Outro Amigo Também

Amigo maior que o pensamento

Por essa estrada amigo vem

Por essa estrada amigo vem

Não percas tempo que o vento

É meu amigo também

Não percas tempo que o vento

É meu amigo também

Em terras

Em todas as fronteiras

Seja bem-vindo quem vier por bem

Se alguém houver que não queira

Trá-lo contigo também

Aqueles

Aqueles que ficaram

(Em toda a parte todo o mundo tem)

Em sonhos me visitaram

Traz outro amigo também

segunda-feira, 23 de Abril de 2007


Estendal totalitário
Irão na Catalunha?

Barcelona



Irão inicia plano para a luta contra o véu incorrecto e outras infracções ao código de vestuário
Público on-line 23.04.2007
As forças de segurança iranianas lançaram uma nova operação contra as mulheres que não cumprem os códigos de vestuário: este tipo de campanhas é habitual no Verão, quando a polícia encontra um número crescente de mulheres que testam as regras, mostrando parte do cabelo em véus mais leves ou usando roupa mais justa ou curta.De acordo com a lei islâmica iraniana, em vigor desde a Revolução Islâmica de 1979, as mulheres devem cobrir o cabelo e usar roupas longas e largas, que disfarcem as suas formas. "A polícia começou sábado a confrontar as mulheres que apareçam em público de forma inapropriada", dis-se Mehdi Ahmadi, porta-voz da força policial de Teerão, citado pela agência semioficial Fars.Muitas jovens, particularmente em zonas urbanas, ignoram o tradicional chador negro (que só deixa a cara e as mãos a descoberto), trocando-o por calças justas e curtas, casacos curtos e lenços coloridos que deixam ver muito cabelo. Nos subúrbios pobres e nas zonas rurais o código de vestuário islâmico é menos desafiado. Os jornais publicavam ontem na primeira página fotografias de mulheres-polícias de chador interpelando jovens da capital vestidas com roupas justas de cores vivas. Em Teerão, onde vivem sete milhões de pessoas, estas regras não são fáceis de fazer cumprir. Entre as primeiras mulheres apanhadas em falta, algumas protestaram e foram levadas para um centro de correcção, divulgou a Fars. Segundo a agência, 15 mulheres passaram pelo centro, tendo sido autorizadas a partir depois de vestirem novas roupas levadas pelos pais e assinarem uma garantia de que modificarão o seu comportamento. Mais de 1300 já foram paradas e avisadas nas ruas da capital, segundo Mehdi Ahmadi. O destino das mulheres que a polícia decide estarem "mal veladas" depende dos agentes em causa - podem ser libertadas com caução ou levadas para uma esquadra, explicou o diário Kargozaran. Durante os oito anos de presidência de Mohammad Khatami, eleito em 1997 e 2001 com um programa de reformas sociais e políticas, a obrigatoriedade de cumprimento destes códigos foi algo aligeirada, mas mesmo então verificavam-se operações esporádicas e muitas mulheres foram presas. Desde a chegada à presidência de Mahmoud Ahmadinejad, que ganhou as eleições de 2005 prometendo um regresso aos valores da revolução, a linha mais radical do regime tem pressionado para um controlo apertado do "comportamento imoral"."A situação actual é vergonhosa", disse ao jornal Etemad Mohammad Taghi Rahbar, da comissão cultural do Parlamento. "Um homem que veja estas manequins na rua não prestará mais atenção à sua mulher em casa, destruindo o fundamento da família", acrescentou.

domingo, 22 de Abril de 2007


A lavar com Ary dos Santos

Andrey Varushev

O ORGULHO


Por vezes, no poema

desperdiçamos tudo

e fica apenas

uma terrível faca de silêncio.

um muro

uma sebe de sede que defende

a fome de ódio puro.

sábado, 21 de Abril de 2007

Lavagem em branco



Ropa tendida, Mercedes Cabrera

A roupa branca aceita tudo. Aceita envolver o corpo, fazer uma cama, acolher um repasto e abandonar-se ao vento. Mas precisa da cor, das vozes, dos movimentos. Ao contrário do preto, que isola mas protege, o branco é vulnerável e aberto à vida. O branco transporta-nos nas tontices, o negro ajuda-nos a recuperar delas. O branco é uma promessa, o negro sabedoria. Por isso é que os dias crescem agora, a caminho do verão. Para podermos continuar a lavar a lavar, a estender roupa e com ela a nossa história. Ao sol. Ao vento.

sexta-feira, 20 de Abril de 2007

Estendal no nimas


Steal Me

O sal da língua

Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.


Eugénio de Andrade


quinta-feira, 19 de Abril de 2007

Estendal inesperado

Laundry, Lars Arned

Quando são economistas do Banco de Portugal a perorar sobre a eficácia (obrigada, António) do ensino e classificações de exames, tudo é possível, tudo é verdade, tudo é válido. A imprensa, essa, imprime. Tempos perigosos, estes.

terça-feira, 17 de Abril de 2007

Lavado por Maria do Rosário Pedreira

Escolheram ser outras pessoas. E, quando dizem mar,
têm olhos subitamente azuis e fazem gestos
que lembram o balanço das ondas junto ao porto.

Gritam todas as noites o que não ousariam murmurar
pela manhã na intimidade do quarto - porque na sua boca
remexem duas línguas e uma delas só a reconhecem
do espelho onde já viram desfilar todos os rostos.

Deixam-se coroar por um halo de luz branca
que os persegue e já os atraiçoou de outras vezes.
E comportam-se como pequenos deuses efémeros, sujeitos
às conspirações de uns poucos homens que podem,
com a mesma mão, oferecer-lhes a taça e o veneno -
dobram-se para merecer o seu aplauso ou a sua compaixão.

Depois o pano cai. Vão para casa. E são outras pessoas.

segunda-feira, 16 de Abril de 2007

Lavagem primaveril, apesar de tudo


Dad's laundry in the sunshine, Sara Lovering


o vês o sol, mas adivinhas-lhe o calor e a luz que tornam inesperado e vibrante o azul do céu , reconfortantes e majestosos os verdes do arvoredo, humana e envolvente a camisa pendurada. Até as nuvens parecem desfazer-se alegremente, neste momento primaveril. Por isso te digo, é teu este espaço no ciclo da vida e das estações. É teu. E não estás só. Viva o sol!


domingo, 15 de Abril de 2007


Lavando com António Rebordão Navarro, em Goa



Reservo-me o domingo para a busca
receosa e teimosa da alegria.
Meu coração devia ser alegre
como um pássaro novo,
meu coração devia ser alegre como o vinho ou o fogo
No entanto, onde está a alegria?
onde estão as sementes da alegria?
onde vive a alegria?
No entanto,
pergunto às coisas e às gentes
de domingo onde está a alegria.
Mesmo que a não encontre
destino-lhe o domingo,
este e outros domingos,
este sol e outros ventos,
este mar e outras ruas,
estas mãos e estes olhos.
Assim acho razão para não estar triste.

sábado, 14 de Abril de 2007


Lavagem preocupada


Man doing laundry, India, Basia Kruszewska


Rapaz



Não sei como é possível falar desse
rapaz pelo interior
de cuja pele o sol surge antes de o fazer no céu.


Luis Miguel Nava


sexta-feira, 13 de Abril de 2007

Lavagem radical



Era junto ao fogo que eu te queria, inteiro e a latejar. Uma bebida meio acabada no tapete, a roupa em chamas na lareira, um cigarro enrolado à mão pousado cuidadosamente no cinzeiro.
Era junto ao fogo, mas já não é, que a primavera arrastou as flores e as nuvens da janela para a sala e eu brinco com as cinzas e os vestígios de uma noite gelada e incendiária, sem memória.

quinta-feira, 12 de Abril de 2007

Roupa suja III


quarta-feira, 11 de Abril de 2007

Roupa suja II


terça-feira, 10 de Abril de 2007

Roupa suja



Dirty Laundry, Angelica Paez

segunda-feira, 9 de Abril de 2007

Lavagem completa




Soneto Presente



Não me digam mais nada se não morro

aqui neste lugar dentro de mim

a terra de onde venho é onde moro

o lugar de que sou é estar aqui.


Não me digam mais nada senão falo

e eu não posso dizer eu estou de pé

De pé como um poeta ou um cavalo

de pé como quem deve estar quem é.


Aqui ninguém me diz quando me vendo

a não ser os que eu amo os que eu entendo

os que podem ser tanto como eu.


Aqui ninguém me põe a pata em cima

porque é de baixo que me vem acima

a força do lugar que for o meu.


José Carlos Ary dos Santos

domingo, 8 de Abril de 2007

Lavagem de género



sábado, 7 de Abril de 2007

Estendal de vento II



Pyracantha


Quase tudo o que sei de ventos e bolinas devo-o ao Lima. Quando me aceitou, depois de uma tripulação desfeita pelo azar, só nos conhecíamos dos almoços no rio, em saídas colectivas. O Lima não andava, como eu, no liceu e tinha outras vidas sobre as quais nunca soube nada. Saímos durante uns três anos, sempre que o tempo e o frenesim daqueles idos de Abril o permitiam. Raramente falávamos e quando o fazíamos era sobre barcos, ventos, rotas, correntes. O Lima parecia que tinha nascido no mar. E eu fui, noutra vida, marinheiro.

sexta-feira, 6 de Abril de 2007

Estendal ao vento I





Nunca se esquece. O correr da água junto à amura. O bater da vela e a súbita estalada do vento. O barco que te aceita, o ar às golfadas que te arrebata a voz e te propõe uma entrega exigente e silenciosa que só pode ser amor.