Lavagem republicana

Largo de Camões, Lisboa
Hoje, empurrada pela preguiça e por um desalento brando, resolvi ir almoçar à Baixa. Apetecia-me ver gente, na rua. À chegada ao Chiado, o Largo de Camões estava coberto de relva. Telefono à João, que mora mais abaixo, para vir ter connosco. Espalhados pelo recinto, chapéus de sol verdes, cadeiras e almofadões coloridos. Junto à estátua mesas enfeitadas com bandeiras dos Palops e recipientes variados sugeriam uma sessão de comes. Uma tenda guardava um molho de cravos vermelhos. Pensei que era para comprar mas não, eram oferecidos. Já com o meu na botoeira, avanço por entre namorados, jovens casais, crianças, assim meio freaks mas mais estilizados. Alguns turistas, meio surpresos, mas à vontade. No ar, a voz do Zeca Afonso. Distingo, entre os presentes, velhotes do bairro e curiosos. Toda a gente parecia muito bem disposta. Às tantas, surge um pequeno desfile, tipo marcha popular, que dá uma volta à praça a cantar e que se dissolve depois na pequena multidão. No topo, aproxima-se um grupo coral alentejano de Castro Verde que canta três ou quatro canções. Na última, "Grândola, Vila Morena", claro, já toda a gente cantava. Entre a assistência, dois responsáveis engravatados e circunspectos do município. A Rita liga. "Onde é que vocês estão?". "Na festa do 25 de Abril, no Camões. Está cheio de relva e de gente descalça".
E é assim que se calhar vai perdurar a memória deste dia. Não pelo que o anteceu ou que se lhe seguiu, mas por ter sido aquele dia único e irrepetível, em que um povo sai à rua para mudar, ou ver mudar, o seu destino. Um dia colectivo, como a História produz poucos numa vida. E parece-me que sim, que importa fixá-lo na memória e estar com outros para quem ele foi uma celebração. Não certamente com cerimónias oficiais quase fúnebres, mas como uma festa cívica, celebrada descalça e sobre uma relva improvável e efémera, a ouvir um homem que mobilizou e honrou uma geração que viveu tempos tão difíceis.