
Lá, onde o mar ainda namora a areia e o vento ignora as asneiras dos homens.
If you cannot run, then crawl
If you can leave, then leave it all
Save What You Can, Calenture, The Triffids

A nossa vida desdobra-se entre luz e sombra. Diria que a sombra nos ensina o caminho para a luz e esta nos devolve, uma e outra vez, à escuridão. Para Carl Sagan, astrónomo e humanista, somos pó de estrelas. Pó de estrelas alimentado no seio da terra, incandescente e breve.

Diremos outras vezes
Que uma esbelta palavra se levanta
E canta
O perfeito silêncio que a inventa.
Outras vezes diremos
Que uma palavra tenta
Ser apenas
O acto
Que a desvenda.
José Carlos Ary dos Santos

Afinal, a experiência e a idade (neurónios activos também ajudam) contribuem para avaliar a roupa suja e definir programas, metodologias, instrumentos e temporização de lavagem. Mesmo quando a vida lá fora insiste em nos desmoralizar. A experiência e a idade fazem-nos melhores para nós próprios. Por isso, quando a sujidade da roupa muda, temos que mudar também as lavagens. Embora cada vez mais recursos humanos e menos gente, continuamos pessoas, com afectos e antipatias, sonhos e pesadelos, energia e cansaços, alegrias e tristeza, vontade. A vontade é a mais frágil, a mais difícil das coisas que nos fazem gente. Quando te entregas por inteiro à vontade, podes até destruir outros. Quando lhe voltas as costa, estás-te a destruir a ti mesmo. E, em vez do namoro ideal, o que nos atrai são quase sempre paixões extremas.
Épingle à linge et lucarne, Alain Boccard

O assalto que José Sócrates de Sousa tem vindo a fazer ao ensino público, acolitado por aquele trio inenarrável (Rodrigues, Lemos & Pedreira), cujo desempenho oscila entre a ópera bufa e o mais sarnento western spagheti, está a virar-se contra o próprio. Embora o mal já esteja feito (e não me refiro à mais recente e vergonhosa "reforma" do ensino especial, uma autêntica infâmia), seria uma ironia verdadeiramente digna deste destino luso que o princípio da queda deste primeiro ministro fosse a descoberta da fraude das suas habilitações académicas! Como dizem os ingleses, "what goes around comes around", que a feliz tradução do google apresenta como "o que circunda vem ao redor", que sempre é mais poético e francamente menos vingativo do que "cá se fazem, cá se pagam".
s/nome, Armindo Lopes

Spring Wash, Ruth Peterson Shorer
CORO DA PRIMAVERA
Cobre-te canalha
Na mortalha
Hoje o rei vai nu
Os velhos tiranos
De há mil anos
Morrem como tu
Abre uma trincheira
Companheira
Deita-te no chão
Sempre à tua frente
Viste gente
Doutra condição
Ergue-te ó Sol de Verão
Somos nós os teus cantores
Da matinal canção
Ouvem-se já os rumores
Ouvem-se já os clamores
Ouvem-se já os tambores
Livra-te do medo
Que bem cedo
Há-de o Sol queimar
E tu camarada
Põe-te em guarda
Que te vão matar
Venham lavradeiras
Mondadeiras
Deste campo em flor
Venham enlaçadas
De mãos dadas
Semear o amor
Venha a maré cheia
Duma ideia
P'ra nos empurrar
Só um pensamento
No momento
P'ra nos despertar
Eia mais um braço
E outro braço
Nos conduz irmão
Sempre a nossa fome
Nos consome
Dá-me a tua mão
José Afonso


Lavandières, Hubert Robert

Não tenhas medo do amor. Pousa a tua mão
devagar sobre o peito da terra e sente respirar
no seu seio os nomes das coisas que ali estão a
crescer: o linho e genciana; as ervilhas-de-cheiro
e as campainhas azuis; a menta perfumada para
as infusões do verão e a teia de raízes de um
pequeno loureiro que se organiza como uma rede
de veias na confusão de um corpo. A vida nunca
foi só Inverno, nunca foi só bruma e desamparo.
Se bem que chova ainda, não te importes: pousa a
tua mão devagar sobre o teu peito e ouve o clamor
da tempestade que faz ruir os muros: explode no
teu coração um amor-perfeito, será doce o seu
pólen na corola de um beijo, não tenhas medo,
hão-de pedir-to quando chegar a primavera.


Clothesline, Ellen Haffan
Existe um troço na Marginal, entre Oeiras e Paço de Arcos, que o betão ainda não devorou. Apenas rasgado pela estrada, um pequeno vale desce, selvagem, até à arriba, sobre a barra do Tejo. Pinheiros marítimos, cedros, eucaliptos e arbustos variados envolvem um matagal de ervas e flores que as chuvadas do Inverno fizeram explodir numa paleta arrebatadora de verdes. Do lado do mar, os pinheiros, esbofeteados pelo vento, não escondem o lençol de ouro líquido que o sol da manhã derrama sobre as águas pontilhadas por dezenas de pequenas embarcações. Ao longe, um velho cargueiro avança esforçadamente em direcção a Lisboa, perdida entre as brumas que a ponte tenta sacudir.
Aqui, nem as nuvens, nem o sol, nem a chuva transformam em pesadelo este momento perfeito. E se não é a vontade dos homens que protege este recanto, que seja o esquecimento.

Entre os teus lábios
é que a loucura acode,
desce à garganta,
invade a água.
No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.
Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.
Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.
Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha.
Eugénio de Andrade


Girls at clothesline, 1957, Nicholas Fimuk

Desde segunda feira que se arrastam pela Marginal fora, ao princípio da manhã, automóveis, autocarros, camiões na direcção da capital. Hoje, no Público, uma possível explicação. Eliminados, pelo menos, dez comboios diários, sobretudo às horas de ponta. A CP, Refer, ou lá o que é, decidiu há um par de anos reduzir a frequência dos comboios na linha de Cascais, contribuindo alegremente para o aumento do tráfego rodoviário. Agora, mais um contributo precioso, não só para o abandono da ferrovia como para a emissão de gases, efeito de estufa, alterações climáticas e repercussões ambientais e sanitárias que o recurso ao transporte viário supõe. O governo e o parlamento encantaram-se com o tema das mudanças climáticas e promoveram conferências polidas e circunspectas, medidas avulsas e mais mediáticas que concretas. Ao mesmo tempo prossegue a agonia, o desinvestimento, o desmantelamento da ferrovia.
Pouca terra, pouca terra, pouca terra, pouca terra, pouca terra, pouca terra...

(enviada pela Aldina, post a meias, graças)
Quando a roupa se estende na rua e é branca. Branca de cama, de mesa, interior. Lavagens de saponária em alguidares, tanques. Roupa batida, esfregada, torcida. E depois um imenso, colectivo estendal público, onde não cabem nem modas nem tendências. E assim, entre os corpos que se cruzam e os estendais que se partilham, ainda se ergue um quotidiano comum. Uma proximidade batida pelo sol e pelo vento e com cheiro a sabão amarelo ou azul e branco - o cheiro da roupa lavada da infância, antes do sabão em pó, dos amaciadores e das máquinas de lavar programadas.
Ainda existirão os imensos estendais de Gaia, nas margens do Douro?

Fui À Beira do Mar
Fui À Beira do Mar
Fui à beira do mar
Ver o que lá havia
Ouvi uma voz cantar
Que ao longe me dizia
Ó cantador alegre
Que é da tua alegria
Tens tanto para andar
E a noite está tão fria
Desde então a lavrar
No meu peito a Alegria
Ouço alguém a bradar
Aproveita que é dia
Sentei-me a descansar
Enquanto amanhecia
Entre o céu e o mar
Uma proa rompia
Varanasi, Claude Renault


congeminações enquanto o tambor roda e o vento sopra no estendal...