quarta-feira, 28 de Março de 2007

Lavagens a sul





Lá, onde o mar ainda namora a areia e o vento ignora as asneiras dos homens.
Lavagem indispensável

Launderette and cigarettes, Voltcontrol

If you cannot run, then crawl

If you can leave, then leave it all

Save What You Can, Calenture, The Triffids

terça-feira, 27 de Março de 2007

Estendal luminoso II


s/n (Porto), Armindo Lopes



Estendal sórdido


A janela pública sobre o mundo, depois de décadas de subserviência ao poder, abre-se agora sobre a podridão do passado, branqueando-o. Escuso de participar na nojeira. Mesmo tendo em conta que por lá passam os gatos fedorentos, imaginativos, sarcásticos e iconoclastas, para mim basta de RTP na lavandaria.

segunda-feira, 26 de Março de 2007

Estendal luminoso



A nossa vida desdobra-se entre luz e sombra. Diria que a sombra nos ensina o caminho para a luz e esta nos devolve, uma e outra vez, à escuridão. Para Carl Sagan, astrónomo e humanista, somos pó de estrelas. Pó de estrelas alimentado no seio da terra, incandescente e breve.

domingo, 25 de Março de 2007

Lavagem verbal



Diremos outras vezes
Que uma esbelta palavra se levanta
E canta
O perfeito silêncio que a inventa.
Outras vezes diremos
Que uma palavra tenta
Ser apenas
O acto
Que a desvenda.

José Carlos Ary dos Santos

sábado, 24 de Março de 2007

Competências de lavagem





Afinal, a experiência e a idade (neurónios activos também ajudam) contribuem para avaliar a roupa suja e definir programas, metodologias, instrumentos e temporização de lavagem. Mesmo quando a vida lá fora insiste em nos desmoralizar. A experiência e a idade fazem-nos melhores para nós próprios. Por isso, quando a sujidade da roupa muda, temos que mudar também as lavagens. Embora cada vez mais recursos humanos e menos gente, continuamos pessoas, com afectos e antipatias, sonhos e pesadelos, energia e cansaços, alegrias e tristeza, vontade. A vontade é a mais frágil, a mais difícil das coisas que nos fazem gente. Quando te entregas por inteiro à vontade, podes até destruir outros. Quando lhe voltas as costa, estás-te a destruir a ti mesmo. E, em vez do namoro ideal, o que nos atrai são quase sempre paixões extremas.

sexta-feira, 23 de Março de 2007


Estendal em contraluz

Épingle à linge et lucarne, Alain Boccard




La nuit n'est jamais complète.
Il y a toujours, puisque je le dis,
Puisque je l'affirme,
Au bout du chagrin
Une fenêtre ouverte,
Une fenêtre éclairée,
Il y a toujours un rêve qui veille,
Désir à combler, faim à satisfaire,
Un coeur généreux,
Une main tendue, une main ouverte,
Des yeux attentifs,
Une vie, la vie à se partager.

Paul Éluard


quinta-feira, 22 de Março de 2007

Lavagem universitária




O assalto que José Sócrates de Sousa tem vindo a fazer ao ensino público, acolitado por aquele trio inenarrável (Rodrigues, Lemos & Pedreira), cujo desempenho oscila entre a ópera bufa e o mais sarnento western spagheti, está a virar-se contra o próprio. Embora o mal já esteja feito (e não me refiro à mais recente e vergonhosa "reforma" do ensino especial, uma autêntica infâmia), seria uma ironia verdadeiramente digna deste destino luso que o princípio da queda deste primeiro ministro fosse a descoberta da fraude das suas habilitações académicas! Como dizem os ingleses, "what goes around comes around", que a feliz tradução do google apresenta como "o que circunda vem ao redor", que sempre é mais poético e francamente menos vingativo do que "cá se fazem, cá se pagam".

quarta-feira, 21 de Março de 2007


Estendal poético primaveril


s/nome, Armindo Lopes


Todo o tempo é de poesia
Desde a névoa da manhã

à névoa do outro dia.
Desde a quentura do ventre
à frigidez da agonia
Todo o tempo é de poesia
Entre bombas que deflagram.
Corolas que se desdobram.
Corpos que em sangue soçobram.

Vidas qu’a amar se consagram.
Sob a cúpula sombria
das mãos que pedem vingança.
Sob o arco da aliança
da celeste alegoria.

Todo o tempo é de poesia.

Desde a arrumação ao caos
à confusão da harmonia.

António Gedeão


Lavagem de equinócio





Spring Wash, Ruth Peterson Shorer

CORO DA PRIMAVERA

Cobre-te canalha

Na mortalha

Hoje o rei vai nu

Os velhos tiranos

De há mil anos

Morrem como tu

Abre uma trincheira

Companheira

Deita-te no chão

Sempre à tua frente

Viste gente

Doutra condição

Ergue-te ó Sol de Verão

Somos nós os teus cantores

Da matinal canção

Ouvem-se já os rumores

Ouvem-se já os clamores

Ouvem-se já os tambores

Livra-te do medo

Que bem cedo

Há-de o Sol queimar

E tu camarada

Põe-te em guarda

Que te vão matar

Venham lavradeiras

Mondadeiras

Deste campo em flor

Venham enlaçadas

De mãos dadas

Semear o amor

Venha a maré cheia

Duma ideia

P'ra nos empurrar

Só um pensamento

No momento

P'ra nos despertar

Eia mais um braço

E outro braço

Nos conduz irmão

Sempre a nossa fome

Nos consome

Dá-me a tua mão

José Afonso

terça-feira, 20 de Março de 2007


Estendal juvenil

Há versos que guardamos na memória (coração?) durante anos e anos, apenas porque no momento em que pela primeira vez os ouvimos, nos trespassaram de tal forma que nos ficaram no corpo como tatuagens. Deste poema de Fernando Assis Pacheco guardo indelevelmente a imagem da espera matinal e da solidão. Ei-lo, por inteiro, com uma foto enviada pela Aldina Duarte. Graças a ambos.




Muitas vezes te esperei, perdi a conta,

longas manhãs te esperei tremendo
no patamar dos olhos. Que me importa
que batam à porta, façam chegar
jornais, ou cartas, de amizade um pouco
- tanto pó sobre os móveis tua ausência.
Se não és tu, que me pode importar?
Alguém bate, insiste através da madeira,
que me importa que batam à porta,
a solidão é uma espinha
insidiosamente alojada na garganta.
Um pássaro morto no jardim com neve.
Nada me importa; mas tu enfim me importas.
Importa, por exemplo, no sedoso
cabelo poisar estes lábios aflitos.
Por exemplo: destruir o silêncio.
Abrir certas eclusas, chover em certos campos.
Importa saber da importância
que há na simplicidade final do amor.
Comunicar esse amor. Fertilizá-lo.
"Que me importa que batam à porta..."
Sair de trás da própria porta, buscar
no amor a reconciliação com o mundo.
Longas manhãs te esperei, perdi a conta.
Ainda bem que esperei longas manhã
se lhes perdi a conta, pois é como se
no dia em que eu abrir a porta
do teu amor tudo seja novo,
um homem uma mulher juntos pelas formosas

inexplicáveis circunstâncias da vida.
Que me importa, agora que me importas,
que batam, se não és tu, à porta.

segunda-feira, 19 de Março de 2007

Dia de lavagem


Clothesline in New York, Esther Kirshenbaum


Tardávamos diante das palavras, como se os olhos
fossem cegar sobre as páginas que não acabávamos
de ler só para fazer durar o engano, o livro, o tempo
de todas as leituras. Guardávamos silêncio

à cabeceira. E cruzávamos de noite os dedos
à procura da luz que emanasse de um seio, da onda
do cabelo sobre a orelha, dos ombros, da cintura,
do começo dos lábios. Normalmente, achávamos apenas
a sombra da roupa na curva dos joelhos, a penumbra
entre os nossos corpos quietos e deitados.

É na linha das mãos que os deuses escrevem
os mais belos romances. Nas nossas, porém, somente
elaboraram um divertimento, um esboço, um rascunho,
nem sequer literatura.

Maria do Rosário Pedreira

domingo, 18 de Março de 2007


Estendal de mérito


Lavandières, Hubert Robert



O mérito tem sido a bandeira do governo de Sócrates para a reforma da função pública. Entre os mais recentes episódios que atestam a boa fé e o carácter dos ministros da República nesta cruzada, a demissão do director do Teatro Nacional de S. Carlos e a espoliação dos recursos do Museu Nacional de Arte Antiga. Neste último, a directora, que o conseguiu libertar do torpor centenário sem perder o brilho viu triplicar, em dois anos, o número de visitantes. Recorrendo a mecenas e promovendo actividades e eventos a par de uma cuidada política de exposições temporárias, levou ao MNAA um público novo, mais novo e dinâmico. Mas os louvores do responsável pelo Instituto Português dos Museus vão para a entidade bancária, mecenas do MNAA.

sábado, 17 de Março de 2007

Estendal mesopotâmico




Tudo se disse já sobre a guerra do Iraque: o embuste grosseiro, a criminosa malfeitoria, a barbárie destrutiva, a indignidade e a tortura, a ocupação. E os mortos. E as milhares de vítimas inocentes. Apesar da habituação (banalidade?) do horror que nos entra pela casa dentro, quase diariamente, como é possível ignorar uma média tenebrosa de cinquenta mortos todos os dias? Como é possível não sentir o sofrimento e a dor, infligidos continuadamente a estas gentes?

sexta-feira, 16 de Março de 2007

Estendal antecipatório


Pegs on Sky, Jean Genie

Não tenhas medo do amor. Pousa a tua mão
devagar sobre o peito da terra e sente respirar
no seu seio os nomes das coisas que ali estão a
crescer: o linho e genciana; as ervilhas-de-cheiro
e as campainhas azuis; a menta perfumada para
as infusões do verão e a teia de raízes de um
pequeno loureiro que se organiza como uma rede
de veias na confusão de um corpo. A vida nunca
foi só Inverno, nunca foi só bruma e desamparo.
Se bem que chova ainda, não te importes: pousa a
tua mão devagar sobre o teu peito e ouve o clamor
da tempestade que faz ruir os muros: explode no
teu coração um amor-perfeito, será doce o seu
pólen na corola de um beijo, não tenhas medo,
hão-de pedir-to quando chegar a primavera.


Maria do Rosário Pedreira

quinta-feira, 15 de Março de 2007

Lavagem à portuguesa


Parker' Cove, Ben Hanson


Uns estendem para outros recolherem. Com sorrisos e palmadas nas costas e, às vezes, com elaborados discursos sobre a venalidade de terceiros... (mas com a orgásmica satisfação de ter levado a melhor). Os observadores da contemporaneidade lusa costumam chamar a esta personagem tão tipicamente indígena, "Chico Esperto". Não estou de acordo. Freud e Reich dar-lhe-iam certamente a designação apropriada, tivessem tido a fortuna de conhecer o fenómeno. À falta destas referências científicas resta-nos observá-lo nas estradas, praias (em massa), mas também no trabalho, na política, na noite.

quarta-feira, 14 de Março de 2007

Estendal de sangue






Continua o horror no Darfur. Apesar de, pela primeira vez, o Tribunal Criminal Internacional ter formalmente incriminado Ahmed Mohammed Haroun, ex vice-ministro do Interior do Sudão e actual (não, não é piada) Ministro de Estado para os Assuntos Humanitários e " Ali Kosheib", aliás, Ali Mohammed Ali, líder das milícias Janjaweed, por crimes de guerra e crimes contra a Humanidade.

terça-feira, 13 de Março de 2007

Estendal esquecido



Clothesline, Ellen Haffan

Existe um troço na Marginal, entre Oeiras e Paço de Arcos, que o betão ainda não devorou. Apenas rasgado pela estrada, um pequeno vale desce, selvagem, até à arriba, sobre a barra do Tejo. Pinheiros marítimos, cedros, eucaliptos e arbustos variados envolvem um matagal de ervas e flores que as chuvadas do Inverno fizeram explodir numa paleta arrebatadora de verdes. Do lado do mar, os pinheiros, esbofeteados pelo vento, não escondem o lençol de ouro líquido que o sol da manhã derrama sobre as águas pontilhadas por dezenas de pequenas embarcações. Ao longe, um velho cargueiro avança esforçadamente em direcção a Lisboa, perdida entre as brumas que a ponte tenta sacudir.

Aqui, nem as nuvens, nem o sol, nem a chuva transformam em pesadelo este momento perfeito. E se não é a vontade dos homens que protege este recanto, que seja o esquecimento.

segunda-feira, 12 de Março de 2007

Pré-lavagem primaveril



Entre os teus lábios
é que a loucura acode,
desce à garganta,
invade a água.

No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.

Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.

Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.

Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha.

Eugénio de Andrade




domingo, 11 de Março de 2007


Estendal alentejano



Brotas, março 2007

sábado, 10 de Março de 2007


Lavagem capitalista à portuguesa



Hoje, no Expresso, pelo Miguel Sousa Tavares

sexta-feira, 9 de Março de 2007

Lavagem infantil





Que posso escrever sobre esta imagem, da qual ignoro o autor e o contexto, senão tentar devolver o olhar desta rapariguinha?

quinta-feira, 8 de Março de 2007

Estendal feminino
para a rita e a nuria

Girls at clothesline, 1957, Nicholas Fimuk



As raparigas amam muito. Riem

atrás das mãos uma manhã inteira

para esconder o vermelho dos

beijos que alguém lhes roubou e

um nome que vão deixar escapar

entre as primeiras palavras que

disserem. Vestem de avesso os


aventais de chita e fazem o leite

sobrar do fervedor e o caldo ser

mais salgado que o mar. Mas


é bonito vê-las caminhar descalças

ao longo do corredor, como se

pedissem um par para dançar. As


raparigas amam tanto. Sentam-se

em roda de segredos uma tarde

inteira e esquecem no tanque os

colarinhos sujos das camisas, e os

cueiros, e uma barra de sabão a

derreter-se como o seu coração.


Mas é bonito vê-las beijar a boca

ao espelho no quarto das traseiras;

e também a outra boca no retrato

que a seguir escondem amordaçado

na algibeira, não lhes cobice alguém

o que não tem. As raparigas amam


de mais. Deixam-se ficar sem dizer

nada uma noite inteira, bordando

no linho dos enxovais letras secretas

ao calor do fogão. E picam os dedos


distraídos nas agulhas que usaram

para descobrir o sexo de cada filho

que terão num jogo que jogaram

entre elas à tardinha. Mas é bonito


vê-las ao serão, quando o vento as

chama atrevido da cozinha e dão

um pulo seco na cadeira, e largam o


bordado e a lareira, e correm até à

porta a colher beijos que lhes deixam

risos nos lábios tão vermelhos como

as mais doces cerejas deste verão.


maria do rosário pedreira
Lavagem internacional da mulher


quarta-feira, 7 de Março de 2007

Lavando com pouca terra, pouca terra...



Desde segunda feira que se arrastam pela Marginal fora, ao princípio da manhã, automóveis, autocarros, camiões na direcção da capital. Hoje, no Público, uma possível explicação. Eliminados, pelo menos, dez comboios diários, sobretudo às horas de ponta. A CP, Refer, ou lá o que é, decidiu há um par de anos reduzir a frequência dos comboios na linha de Cascais, contribuindo alegremente para o aumento do tráfego rodoviário. Agora, mais um contributo precioso, não só para o abandono da ferrovia como para a emissão de gases, efeito de estufa, alterações climáticas e repercussões ambientais e sanitárias que o recurso ao transporte viário supõe. O governo e o parlamento encantaram-se com o tema das mudanças climáticas e promoveram conferências polidas e circunspectas, medidas avulsas e mais mediáticas que concretas. Ao mesmo tempo prossegue a agonia, o desinvestimento, o desmantelamento da ferrovia.

Pouca terra, pouca terra, pouca terra, pouca terra, pouca terra, pouca terra...

terça-feira, 6 de Março de 2007

Estendais colectivos


(enviada pela Aldina, post a meias, graças)

Quando a roupa se estende na rua e é branca. Branca de cama, de mesa, interior. Lavagens de saponária em alguidares, tanques. Roupa batida, esfregada, torcida. E depois um imenso, colectivo estendal público, onde não cabem nem modas nem tendências. E assim, entre os corpos que se cruzam e os estendais que se partilham, ainda se ergue um quotidiano comum. Uma proximidade batida pelo sol e pelo vento e com cheiro a sabão amarelo ou azul e branco - o cheiro da roupa lavada da infância, antes do sabão em pó, dos amaciadores e das máquinas de lavar programadas.

Ainda existirão os imensos estendais de Gaia, nas margens do Douro?

segunda-feira, 5 de Março de 2007

Lavando com o Zeca



Fui À Beira do Mar

Fui À Beira do Mar

Fui à beira do mar

Ver o que lá havia

Ouvi uma voz cantar

Que ao longe me dizia

Ó cantador alegre

Que é da tua alegria

Tens tanto para andar

E a noite está tão fria

Desde então a lavrar

No meu peito a Alegria

Ouço alguém a bradar

Aproveita que é dia

Sentei-me a descansar

Enquanto amanhecia

Entre o céu e o mar

Uma proa rompia

domingo, 4 de Março de 2007

Lavagens masculinas

Varanasi, Claude Renault



Não sei se estas também são lavagens sagradas, no Ganges, em Benares. Sei que o sol está prestes a nascer e os peregrinos afluem às escadarias para as abluções redentoras. Nos ghats levantam-se as piras ou preparam-se as cerimónias fúnebres. O calor levanta sobre o rio e as suas margens uma neblina que se elevará e encobrirá o céu. As águas sagradas continuarão pardacentas, arrastando penas, delitos, flores, velas. Depois chegarão os turistas, em grandes manadas ou pequenos grupos. Alguns percorrerão as margens em barcos apinhados, outros deixar-se-ão ficar em terra, envolvidos numa estranha atmosfera de silêncio e despojamento. Ali, como em nenhum outro lugar, o mundo é velho de milhares de anos e os homens cometas de alucinados percursos. Esta dimensão cósmica entranha-se-nos entre a alma e os ossos e nunca mais nos deixará. Apesar da violência das centenas de flashes das máquinas fotográficas. Lavar em Benares não é apenas o ritual purificador que congrega hindus, é sentir a nossa dimensão cósmica e fundamentalmente humana para além das crenças, ambições, desesperos. O nosso pequenino e imenso lugar na velhíssima ordem das coisas.
Benares, onde se vem morrer em paz, onde se interrompe o infindável ciclo das reencarnações , vem de um outro tempo, de uma outra civilização que se desmorona lentamente como os templos das margens do Ganges, sob o efeito irreversível do tempo e do plástico. O plástico berrante que substituíu o tilintar do vidro, brilhante e colorido, nos braços das mulheres.

sábado, 3 de Março de 2007

Estendal urbano

s/nome, Reinaldo Cruz (graças, Aldina!)


Elas não sabem de lavandarias ou máquinas de secar, nem de engomadorias porta a porta. Lavam a roupa à segunda feira e estendem-na quando o tempo o permite. Ao sol arrebatador do nascer do dia, no verão, em sobressalto entre aguaceiros, no inverno. Na primavera lavam colchas, almofadas, cobertores, tapetes, ecos das grandes limpezas de antigamente. No outono tiram a roupa de inverno e arejam-na ao vento, para a resgatar à naftalina.
Entre a igreja e o hospital há muito que o costume e o desgosto as vestiu de negro. Alguma raiva. E resignação. Mas não é por isso que deixam de sair à rua quando lhes fecham hospitais, escolas e linhas de autocarro. Ainda estão vivas. Ainda não desistiram. Não renegaram a memória.

sexta-feira, 2 de Março de 2007

Lavagem masculina



O lugar não é de goivos - o goivo não cheira

a sangue - nosso lugar era outro

cerca do mar, sobre o mar,

mas não temos passaporte.


Aqui estamos todavia, fumando de mãos nos bolsos,

frequentando cinemas, ouvindo discursos tontos,

urinando junto aos muros.

Aqui estamos chateados.


Aqui deixamos um beijo, aqui deixamos um verso,

aqui ganhamos a barba, as rugas, cabelo branco,

aqui deram-nos a pólvora para acender os fogões,

aqui jogamos a vida.


As ruas têm ciladas, os cafés têm ouvidos,

de uma guerra uma outra nasce,

temos um sonho, uma flor,

aqui estamos resistindo.


António Rebordão Navarro

quinta-feira, 1 de Março de 2007

Estendal azul com Né Ladeiras






Em Coimbra serei tua


Três luzes acesas

Serão o meu sinal

Quando me cantares

A serenata dos teus desejos

Guitarras tremendo baixinho

À noite naquele choupal


Em Coimbra serei tua

Em Coimbra serei tua


Num barco sózinho

Desceremos o Mondego

Quando me cantares

A serenata dos teus desejos

Guitarras tremendo baixinho

À noite naquele choupal


Em Coimbra serei tua

Em Coimbra serei tua