quarta-feira, 31 de Janeiro de 2007

Lavagem republicana com protagonistas





Estendal republicano


s/nome, Armindo Lopes


Foi no Porto, de forma corajosa e voluntariosa que a República mostrou à monarquia o princípio do fim. Da generosidade e determinação dos revoltosos do 31 de Janeiro somos hoje os herdeiros. Viva a República!

terça-feira, 30 de Janeiro de 2007

Lavagem a várias mãos


Como o gmail tem andado baratinado é só para lembrar aos amigos da Outra Banda que temos uma lavagem marcada para sexta feira, ao lusco fusco. Ainda não tínhamos definido lavadouro mas sugiro à beira rio, do Lado de Cá!

segunda-feira, 29 de Janeiro de 2007


Lavagem a frio



Também se morre de frio em Portugal. Mas não é de hipotermia (a não ser no coração e é uma hipotermia de todo o ano), é de miséria. Miséria de falta de condições de habitabilidade. Miséria de abandono de menores e doentes. Miséria de um país de choque tecnológico e modernidades várias em que as tecnologias do calor são ainda neolíticas.

Em Portugal morre-se de frio como se morre de miséria e abandono. Como se morre de calor. Só.

domingo, 28 de Janeiro de 2007


Estendal de inverno


My laundry line, Simplex67

sábado, 27 de Janeiro de 2007

Estendal mareado


A veces tengo sueños como mares:
me golpean sus olas, me hacen daño,
dejan un gusto a sal bajo mi lengua,
enredan mis cabellos y me ahogan.
Y, cuando llego al fondo, me repugnan
los seres que lo habitan y lo ensucian,
seres escurridizos y viscosos,
sin párpados y sin extremidades,
sin lenguaje, sin lágrimas, sin ruido.
A veces tengo sueños como mares
y, cuando me despierto de uno de ellos,
sé que he sobrevivido a otro naufragio.


Amalia Bautista

sexta-feira, 26 de Janeiro de 2007

Concursos escolares



Anteontem foi o anúncio do concurso para o melhor professor. Ontem foi o concurso contra a discriminação. O Ministério da Educação, depois de vilipendiar e injuriar os professores portugueses, lança um concurso para escolher anualmente o melhor. Depois de cancelar verbas para projectos e recusar financiamento aos programas que divulgou com estardalhaço (vidé Matemática) promove concurso para premiar projectos que combatam a discriminação nas escolas. Escolas onde os mais carenciados e desprotegidos nem asseguradas têm as visitas de estudo que não podem pagar.
Não sei o que se seguirá. Mas imagino que um concurso televisivo não esteja fora dos planos deste trio brilhante que desmantela afanosamente a escola pública.

quinta-feira, 25 de Janeiro de 2007

Estendal recolhido



Lavadeiras, Hungria, s/d

A.H. de Oliveira Marques entrou na História ontem, de vez. No noticiário da televisão do Estado a notícia, sintética e envergonhada apesar do comentário de Fernando Rosas, foi remetida quase para o final, a seguir a mais uma tontice da ministra de educação. Na SIC, também quase no final, também colada à ministra da educação, mereceu, porém, melhor tratamento embora não tenha tido a dignidade da reportagem concedida a uma jovem militar integrada no contingente a caminho do Afeganistão.
A.H. de Oliveira Marques marcou a historiografia portuguesa do século XX. Foi, além disso, um homem de carácter e coragem numa época em que estes eram escassos e se pagavam duramente. Fez escola, não se limitando à torre de marfim académica que tantos tem devorado. A sua História de Portugal e os seus textos historiográficos deveriam constituir a espinha dorsal de um programa de História de Portugal que a República deveria ensinar nas escolas públicas.
Alguns académicos consideram-na datada. Não é verdade. Os alunos continuam a preferi-la à obra dirigida por José Mattoso, de difícil manuseio e consulta.
Para mim, A. H. foi o primeiro exemplo do trabalho do historiador e embora não tenha sido meu professor, trabalhei com um dos seus discípulos. Vaidoso e de trato difícil, disputas académicas de longa data, afastaram-no nos últimos tempos do departamento de História da Nova, que ajudara a fundar. A História e a Historiografia, que tanto lhe devem, deveriam honrá-lo na pessoa dos que lhe seguiram os passos. O país e a sua inteligentsia deveriam honrar-lhe também o perfil e a postura de homem, intelectual e cidadão. Nós, voltando a (re)ler as suas obras...

quarta-feira, 24 de Janeiro de 2007

A última lavagem

A última lavagem, tal como a última palavra, deve ser um beijo. Sobretudo se não foi a primeira.

terça-feira, 23 de Janeiro de 2007

Doze passos para uma lavagem inadiável (pilhados ao Público)




(obrigada, Aldina, pela foto!)




Doze razões, por Vital Moreira, que também são minhas.

"Sou a favor da despenalização do aborto, nas condições e limites propostos no referendo, ou seja, desde que realizado por decisão da mulher, em estabelecimento de saúde, nas primeiras dez semanas de gravidez. Eis uma recapitulação das minhas razões.


1.ª - O que está em causa no referendo é decidir se o aborto nessas condições deve deixar de ser crime, como é hoje, sujeito a uma pena de prisão até 3 anos (art. 140.º do Código Penal). Por isso, é francamente enganador chamar ao referendo o "referendo do aborto" ou "sobre o aborto", como muita gente diz. De facto, não se trata de saber a posição de cada um sobre o aborto (suponho que ninguém aplaude o aborto), mas sim de decidir se a mulher que não se conforma com uma gravidez indesejada, e resolve interrompê-la, deve ou não ser perseguida e julgada e punida com pena de prisão.

2.ª - Não há outro meio de deixar de punir o aborto senão despenalizando-o. Enquanto o Código Penal o considerar crime (salvas as excepções actualmente já existentes), ninguém que pratique um aborto está livre da humilhação de um julgamento e de punição penal. Quem diz que não quer ver as mulheres punidas, mas recusa a despenalização, entra numa insanável contradição. Não faz sentido manter o aborto como crime e simultaneamente defender que ele não seja punido.

3.ª - A actual lei penal só considera lícito o aborto em casos assaz excepcionais (perigo grave para vida ou saúde da mulher, doença grave ou malformação do nascituro, violação). Ao contrário do que correntemente se diz, a nossa lei não é igual à espanhola, que é bastante mais aberta do que a nossa e tem permitido uma interpretação assaz liberal, através da cláusula do "perigo para a saúde psíquica" da mulher. Por isso, a única saída entre nós é a expressa despenalização na primeira fase da gravidez, alterando o Código Penal, como sucede na generalidade dos países europeus.

4.ª - A despenalização sob condição de realização em estabelecimento de saúde autorizado (por isso não se trata de uma "liberalização", como acusam os opositores) é o único meio de pôr fim à chaga humana e social do aborto clandestino. Esta é a mais importante e decisiva razão para a defesa da despenalização. Nem a ameaça de repressão penal se mostra eficaz no combate ao aborto, nem a sua legalização faz aumentar substancialmente a sua frequência. A única coisa que se altera é que o aborto passa a ser realizado de forma segura e sem as sequelas dos abortos clandestinos mal-sucedidos. Por isso, se pode dizer que a legalização do aborto é uma questão de saúde pública.

5.ª - Se se devem combater os factores que motivam gravidezes indesejadas, é humanamente muito cruel tentar impô-las sob ameaça de julgamento e prisão. É certo que hoje há mais condições para evitar uma gravidez imprevista (contraceptivos, planeamento familiar, etc.). Mas a sociologia é o que é, mostrando como essas situações continuam a ocorrer, em todas as classes e condições sociais, mas especialmente nas classes mais desfavorecidas, entre os mais pobres e menos cultos, que acabam por ser as principais vítimas da proibição penal e do aborto clandestino (até porque não têm meios para recorrer a uma clínica no estrangeiro...).

6.ª - A despenalização do aborto até às 10 semanas é uma solução moderada e, mesmo, comparativamente "recuada", visto que em muitos países se vai até às 12 semanas. Por um lado, trata-se de um período suficiente para que a mulher se dê conta da sua gravidez e possa reflectir sobre a sua interrupção em caso de gravidez indesejada. Por outro lado, no período indicado o desenvolvimento do feto é ainda muito incipiente, faltando designadamente o sistema nervoso e o cérebro, pelo que não faz sentido falar num ser humano, muito menos numa pessoa. Como escrevia há poucos dias um conhecido sacerdote católico e professor universitário de filosofia: "A gestação é um processo contínuo até ao nascimento. Há, no entanto, alguns "marco" que não devem ser ignorados. (...) Antes da décima semana, não havendo ainda actividade neuronal, não é claro que o processo de constituição de um novo ser humano esteja concluído."

7.ª - Só a despenalização e a "desclandestinização" do aborto é que permitem decisões mais ponderadas e reflectidas, incluindo mediante aconselhamento médico e psicológico. Embora o referendo não verse sobre os procedimentos do aborto legal, nada impede e tudo aconselha que a lei venha a prever uma consulta prévia e um período de dilação da execução do aborto, como existe em alguns países. Aliás, o anúncio de tal propósito poderia ajudar o triunfo da despenalização no referendo, superando as hesitações daqueles que acham demasiado "liberal" o aborto realizado somente por decisão desacompanhada da mulher.

8.ª - A despenalização do aborto nos termos propostos não viola o direito à vida garantido na Constituição, como voltou a decidir o Tribunal Constitucional, na fiscalização preventiva do referendo. No conflito entre a protecção da vida intra-uterina e a liberdade da mulher, aquela nem sempre deve prevalecer. O feto (ainda) não é uma pessoa, muito menos às dez semanas, e só as pessoas são titulares de direitos fundamentais e, embora a vida intra-uterina mereça protecção, inclusive penal, ela pode ter de ceder perante outros valores constitucionais, nomeadamente a liberdade, a autodeterminação, o bem-estar e o desenvolvimento da personalidade da mulher. Mas a punição do aborto continua a ser a regra e a despenalização, a excepção.

9.ª - A decisão sobre a legalização ou não do aborto não pode obedecer a uma norma moral partilhada só por uma parte da sociedade. Ninguém pode impor a sua moral aos outros. É evidente que quem achar, por razões religiosas ou outras, que o aborto é um "pecado mortal" ou a violação intolerável de uma vida, não deve praticá-lo. Pode até empregar todo o proselitismo do mundo para dissuadir os outros de o praticarem. Mas não tem o direito de instrumentalizar o Estado e o direito penal para impor aos outros as suas convicções e condená-los à prisão, caso as não sigam. A despenalização do aborto não obriga ninguém a actuar contra as suas convicções; a punição penal, sim.

10.ª - A despenalização é a solução a um tempo mais liberal e mais humanista para a questão do aborto. Liberal - porque respeita a liberdade da mulher quanto à sua maternidade. Humanista - porque é o único antídoto contra as situações de miséria e de humilhação que o aborto clandestino gera. Quando vemos tantos autoproclamados liberais nas hostes do "não", isso é a prova de que o seu liberalismo se limita à esfera dos negócios e da economia, parando à porta da liberdade pessoal. Quando vemos tanta gente invocar o "direito à vida" do embrião ou do feto para combater a despenalização, ficamos a saber que para eles vale mais impor gravidezes indesejadas (e futuros filhos não queridos) do que a defesa da liberdade, da autonomia e da felicidade das pessoas. Se algo deve ser desejado, devem ser os filhos!

11.ª - Na questão da despenalização do aborto é verdadeiramente obsceno utilizar o argumento dos custos financeiros para o SNS. Primeiro, o referendo não inclui essa questão, deixando para a lei decidir sobre o financiamento dos abortos "legais". Segundo, mesmo que uma parte deles venham a ser praticados no SNS, o seu custo não deve comparar desfavoravelmente com os actuais custos da perseguição penal dos abortos, bem como das sequelas dos abortos mal sucedidos.

12.ª - A despenalização do aborto, nos termos moderados em que é proposta, será um sinal de modernização jurídica e cultural do país, colocando-nos a par dos países mais liberais e mais desenvolvidos, na Europa e fora dela (Estados Unidos incluídos). A punição penal do aborto situa-nos ao lado de um pequeno número de países mais conservadores e mais influenciados pela religião (como a Irlanda e a Polónia).


Mas por que motivo um Estado laico deve pautar o seu Código Penal por normas religiosas?"


segunda-feira, 22 de Janeiro de 2007

Lavagens de inverno


Skaters and washerwomen in a frozen landscape, Anton Doll
Há alturas, no Inverno, em que o tempo parece parar e ficar suspenso. Depois do temporal, antes da bruma levantar, quando as gentes desenham no ar coreografias poéticas e falam em sussurros para não quebrar a magia dessa hora. E não é preciso ler-se poesia todos os dias nem visitar exposições mediáticas para sentir a grandeza do momento, uma grandeza que nos faz pequeninos mas imensos, prisioneiros da terra mas livres, livres como só o amor das coisas vivas nos permite.

domingo, 21 de Janeiro de 2007

Lavagem alentejana




Arraiolos nevão de 2006, Matraca


Sem neve nem frio, o Alentejo é um retempero para a cabeça e para o coração. E não sei se o que toca mais é o azul nítido do céu, o sol condescendente, os comeres e os beberes ou o silêncio absoluto à noite, apenas estremecido por milhares de estrelas!

sábado, 20 de Janeiro de 2007


Lavagens semelhantes



Aqui o real, definido pelo enquadramento e pelas gentes.


Laundry Day, Marjorie Day

Aqui a mesma realidade, tocada pela poesia da cor e do traço.

sexta-feira, 19 de Janeiro de 2007

Estendais do Porto


Escadas do Codeçal, José Paulo Andrade



BALADA DAS MULHERES NO RIO

à memória de Jorge de Sena


As mulheres lavam no rio

o lixo quotidiano

e, às vezes, salta um peixe

da roupa ou um oceano.

onde elas flutuam

como nenúfares cinzentos,

onde são só vegetal

vivência sem desespero,

onde são manhãs ou noites

ou nenhum tempo sequer,

onde são serenas coisas

ou nada se se quiser.

António Rebordão Navarro



quinta-feira, 18 de Janeiro de 2007

Estendal de gerações


Los niños

Creo que en el Madrid de la posguerra,
cuando mis padres eran niños flacos,
hacía mucho frío en el invierno
y mucho más calor en el verano
de lo que soportamos hoy. Ahora,
como se ha suavizado nuestro clima,
nos licenciamos y tenemos coche,
alcanzamos las metas previsibles,
ganamos un buen sueldo y, sobre todo,
nuestros hijos son hijos deseados,
pensados, programados, protegidos.
A pesar de ventajas tan palpables,
me parece que son menos felices;
creo que comen más y ríen menos
que aquellos niños flacos de posguerra.

Amalia Bautista

quarta-feira, 17 de Janeiro de 2007


Lavagens em sofrimento



Algures, campo de refugiados



Afeganistão





Darfur




Iraque

terça-feira, 16 de Janeiro de 2007


Estendal de enganos




LEMBRAVA-SE DELE


Lembrava-se dele e, por amor, ainda que pensasse
em serpente, diria apenas arabesco; e esconderia
na saia a mordedura quente, a ferida, a marca
de todos os enganos, faria quase tudo

por amor: daria o sono e o sangue, a casa e a alegria,
e guardaria calados fantasmas do medo, que são
os donos das maiores verdades. Já de outra vez mentira

e por amor haveria de sentar-se à mesa dele
e negar que o amava, porque amá-lo era um engano
ainda maior do que mentir-lhe. E, por amor, punha-se

a desenhar o tempo como uma linha tonta, sempre
a cair da folha, a prolongar o desencontro.
E fazia estrelas, ainda que pensasse em cruzes;
arabescos, ainda que só se lembrasse de serpentes.



Maria do Rosário Pedreira

segunda-feira, 15 de Janeiro de 2007

Lavagens rascas



Os alunos fizeram o seu plano de exames. Nas diversas disciplinas uns escolheram a primeira chamada, outros a segunda. Fizeram as inscrições. Estudaram, prepararam-se, organizaram a sua vida. As famílias apoiaram, acompanharam, adaptaram tarefas e lazer. O costume.
Aos problemas - recorrentes - detectados nos exames, respondeu desta feita o secretário de estado Valter Lemos (um ex-professor que nunca o foi) com um regime excepcional e ilegal que beneficiou os alunos que haviam optado pela primeira chamada. Surdo aos protestos e cego à ilegitimidade da sua intervenção, viu-a sancionada legalmente com o apoio da ministra e do primeiro ministro.
Alguns alunos recorreram aos tribunais, que lhes deram razão. Tarde e a más horas. Mas com direito a novo exame.
Aos mesmos tribunais recorreram também professores a quem o ministério se recusa a pagar aulas de substituição como horas extraordinárias. Também viram a pretensão deferida e justiça feita.
No ministério da educação, onde cada vez menos se ministra educação e se consolida perigosamente o ministério das ilegalidades e dos favores, impera o silêncio e o desinteresse.
São rascas e revoltantes os estendais da 24 de julho e da 5 de outubro. E proclamam aos quatro ventos a arbitrariedade, a injustiça, a incompetência e a impunidade.

domingo, 14 de Janeiro de 2007


Estendal demente

Convocatória do tribunal para comparecer a julgamento em outubro de 2007 como testemunha do ministério público. Os factos remontam a 2002 e a agressões e violência de uma vizinha demente no local de trabalho. Para quem leu na adolescência, com fervor, Laing, Cooper, Foucault e Jung, o processo, que envolveu autoridades policiais, delegado de saúde e uma organização não governamental, acabou por ser um ajuste de contas com o passado. A verdade, porém, é que depois deste tempo todo, a infeliz acabou por ser compulsivamente obrigada a fazer tratamento, melhorou, piorou, enlouqueceu de vez e deixou de ser vizinha porque, depois de um processo inquietante e atribulado, acabou por ser expulsa da casa em que vivia.
Mas o que me deprime, ainda e sempre, para além da inoperância da segurança social e da saúde pública, é a farsa da justiça. Que emerge, subitamente, quando todas as possibilidades que o Estado e a sociedade tinham de a ajudar e evitar os prejuízos que causou ao longo deste tempo, a ela e aos outros cidadãos, foram ignoradas e quando ela própria, em parte incerta ou morta, e os prejuízos que causou há muito foram resolvidos. Pelos cidadãos, a despeito da lei e dos serviços públicos. Nós, pelo contrário, lá estaremos na primeira audiência e certamente na segunda, um mês depois, para a qual já estamos convocados caso a primeira venha a ser adiada.
No tribunal, situado no centro de Lisboa, lá nos encontraremos para tentar recordar o sucedido. Provavelmente almoçaremos antes, para garantir a pontualidade numa cidade onde os transportes continuam caóticos e imprevisíveis e reconstituir a memória dos acontecimentos de há cinco anos (os subsequentes aguardam ainda o longo braço da justiça). Passaremos a tarde no tribunal, à espera da audiência, que será adiada pela mais que provável ausência da acusada. Ao fim da tarde, cansados e descrentes, mesmo a tempo de apanhar os engarrafamentos da saída de Lisboa, daremos por terminada a jornada.
Um mês depois, já não haverá almoço e alguns chegarão atrasados e enervados. Não sei se o processo ficará 'resolvido' ou não. Mas, nessa altura já ninguém quererá saber. Alguns decidirão moderar os ímpetos cívicos, outros ficarão um pouco mais desmoralizados. Outros ainda farão um esforço para reagir filosoficamente. Apenas o Estado ficará satisfeito. As custas serão pagas, o processo ficará encerrado. Um software qualquer somará mais um algarismo nas realizações da repartição, talvez as chefias se congratulem.

sábado, 13 de Janeiro de 2007

Lavagem anacrónica



A campanha pelo referendo para a descriminalização do aborto será a derrota (espero) do anteontem contra o ontem. Há muito que a interrupção da gravidez deveria estar descriminalizada. A persistência deste anacronismo e deste atraso é mais um insulto que nos envergonha e humilha como nação, povo, sei lá. A direita, beata e provinciana, empolga as sacristias e lança mão dos argumentos mais revoltantes, como Rui Tavares escreve hoje, no Público. Espero que a esquerda não descambe nos excessos de mau gosto da gritaria do corpo.

Enfim. Tomara que a campanha não devore aquilo que é a necessidade imperiosa de sermos de hoje, e não de ontem ou de anteontem, e de sermos civilizados. Europeus. Portugueses, finalmente.

sexta-feira, 12 de Janeiro de 2007

Roupa encardida à portuguesa



O senhor director-geral da Inovação e Desenvolvimento Curricular, do Ministério da Educação, acha que os programas de Português têm uma forte componente de textos de literatura e que tal facto contribuíu para o aumento da iliteracia. Afirma, taxativo, que a TLEBS (ainda a TLEBS) pode ajudar a combater o insucesso. Apesar das deficiências que lhe são reconhecidas, apesar de ter sido suspensa (mas continuar em vigor).

O senhor director-geral da Inovação e Desenvolvimento Curricular, do Ministério da Educação, não só, aparentemente, não vive em Portugal, como ignora a inovação e desenvolvimento curricular que a sua direcção geral tem promovido por esse país ao longo dos últimos anos. Mais. Duvido que tenha sequer feito a sua escolaridade em Portugal. Textos de literatura no ensino do Português (a sério) foi há mais de vinte anos.

Um sinal, tardio e patético, do absoluto descalabro da política de ensino da língua e literatura materna neste Portugal de 2007, são as reservas ao processo de implementação da TLEBS (a bondade da medida, como de costume, é genericamente abençoada) colocadas pelo Presidente da Associação de Professores de Português. A posição vale pelo que vale (pouquíssimo) mas denota a já indisfarçável mediocridade e irresponsabilidade da situação.

Falemos pois de literatura. Falemos de Maria do Carmo Vieira, a lutadora infatigável pela devolução e recuperação da literatura no ensino do Português. Falemos dela e dos textos e combates que continua a promover. Falemos dela porque falar deste louco só se for num obituário.

quinta-feira, 11 de Janeiro de 2007

Estendal de medo
a propósito da recente celebração litúrgica católica, promovida pelo director-geral dos Impostos, Paulo Macedo, para a qual foram convidados os funcionários públicos sob a sua tutela. Continuamos afinal na mesma penumbra beata e salazarenta que o Alexandre O'Neill tão bem descreveu.


Instalação - Berlim 2000, Reinhard Krauser


Perfilados de medo, agradecemos

o medo que nos salva da loucura.

Decisão e coragem valem menos

e a vida sem viver é mais segura.

Aventureiros já sem aventura,

perfilados de medo combatemos

irónicos fantasmas à procura

do que não fomos, do que não seremos.

Perfilados de medo, sem mais voz,

o coração nos dentes oprimido,

os loucos, os fantasmas somos nós.

Rebanho pelo medo perseguido,

já vivemos tão juntos e tão sós

que da vida perdemos o sentido...

Alexandre O'Neill

quarta-feira, 10 de Janeiro de 2007

Um ano a lavar, obrigada!



Achei que pedir emprestado o nome a um 'polvo espumante que hace brillar como un espejo' publicitado por uma loira oxigenada a resvalar para o duvidoso, era todo um programa para um blogue. Claro que só depois percebi (a pitosguice somada à distracção/falta de atenção?) que se tratava de detergente lava tudo, com tendência para sanitários. Confesso que fiquei meio desmoralizada, logo para começar.

Foi um equívoco semelhante que marcou a minha estreia na Rede, nos chats. Para além de escolher um nick de uma conhecida cantora pimba, cuja existência lamentavelmente ignorava, ainda por cima pespeguei-lhe, nunca percebi como, um bigode farfalhudo à Zapata, que nunca consegui tirar. Ninguém me levou a sério. O mais decente que me diziam era "Porra, Romana vai tirar o bigode de uma vez!"


Segue-se que, quando mudei o visual à San para os anos quarenta, a lavandaria lá se organizou e passou à condição de coisa minha, para cumprir a praga sarcástica da minha herdeira mais velha, discípula militante e convicta da Anne Taintor.


Obrigada pela vossa roupa, pelas visitas e pelas lavagens.





terça-feira, 9 de Janeiro de 2007



Lavagem de Dezembro em Janeiro


Jour de lessive, Camille Pissarro





Somos como árvores
só quando o desejo é morto.
Só então nos lembramos
que dezembro traz em si a primavera.
Só então, belos e despidos,
ficamos longamente à sua espera.

Eugénio de Andrade

segunda-feira, 8 de Janeiro de 2007


Lavagens coincidentes

Blanchiseuses, Edgar Degas

A namorada de Xangai, que agora namora em Londres, deixou na sexta-feira um sorriso do Eugénio de Andrade, que eu também escolhi para me lavar a alma no mesmo dia. As coincidências são, por natureza, inexplicáveis. Mas reforçam cumplicidades e permitem-nos divagar sobre o outro lado da lua. O lado onde mora a poesia, o sentido oculto das coisas, o sentimento de pertença a uma tradição ou cultura (que não praticamos ou cultivamos, necessariamente) e também o contorno sombrio dos nossos gestos, a leviandade de algumas palavras, em suma, o momento único e irrepetível da descoberta de um sorriso especial.
Eu gosto de coincidências e coisas inexplicáveis. São piscadelas de olho, beliscadelas dos deuses para não nos perdermos no real e no concreto.



domingo, 7 de Janeiro de 2007


Lavagem a dois tempos



Posso pedir, em vão, a luz de mil estrelas,
apenas obtenho este desenho pardo
que a lâmpada de vinte e cinco velas
estende no meu quarto.

Posso pedir, em vão, a melodia, a cor
e uma satisfação imediata e firme:
(a lúbrica face do despertador
é que me prende e oprime)

E peço, em vão, uma palavra exacta,
uma fórmula sonora que resuma
este desespero de não esperar nada,
esta esperança real em coisa alguma.

E nada consigo, por muito que peça!
E tamanha ambição de nada vale!
Que eu fui deusa e tive uma amnésia,
Esqueci quem era e acordei mortal.



Ao som do 'Still got the blues' do Gary Moore (na caixa de música do anarca constipado), o poema da Fernanda Botelho no estendal poético da Aldina Duarte.

sábado, 6 de Janeiro de 2007

Lavagem semi-automática





WASHER



De vez em quando a roupa enfia-se-me toda para o coração, fazendo dele a máquina e do sangue o detergente, e a pele vai atrás dela, às vezes precedida ainda pelo próprio tempo.

São séculos e séculos que nele nessas alturas revolteiam: vêem-se-me os ossos ir ganhando aos poucos um sentido que só quando o tempo por eles passa como uma corrente eléctrica os anima.


Luis Miguel Nava




sexta-feira, 5 de Janeiro de 2007

Estendal fascinado


O sorriso

Creio que foi o sorriso,

o sorriso foi quem abriu a porta.

Era um sorriso com muita luz lá dentro,

apetecia entrar nele, tirar a roupa,

ficar nu dentro daquele sorriso.

Correr, navegar, morrer naquele sorriso.

Eugénio de Andrade



quinta-feira, 4 de Janeiro de 2007


Lavagem completa





O mundo completo



Estes gestos de vento,

estas palavras duras como a noite,

estes silêncios falsos,

estes olhares de raiva a apertarem as mãos,

estas sombras de ódio a morderem os lábios,

estes corpos marcados pelas unhas!. . .

Esta ternura inventando desejos na distância,

esta lembrança a projectar caminhos,

este cansaço a retratar as horas!...

Amamo-nos. Sem lírios

sobre os braços,

sem riachos na voz,

sem miragens nos olhos.

Amamo-nos no arame farpado,

no fumo dos cigarros,

na luz dos candeeiros públicos.

O nosso amor anda pela rua

misturado ao buzinar dos carros,

ao relento e à chuva.

O nosso amor é que brilha na noite

quando as estrelas morrem no céu dos aviões.


António Rebordão Navarro
Estendal rodoviário



Hoje de manhã ia morrendo na Marginal, perto do Estádio Nacional. O desvio para a auto-estrada estava engarrafado e reduzi o andamento, logo a meio da subida. De repente uma travagem ruidosa, uma fumarada cinzenta, o desfazer da borracha derretida, uma pirueta para a esquerda, entre o ângulo morto e a minha janela, um carro que desliza e volteia e consegue falhar dois outros veículos que circulavam nessa faixa.Num segundo breve de horror, os nossos olhares cruzam-se. Podia ser um espertalhão, boçal e alarve, de viatura artilhada e escape aberto. Mas não. De todo. Que mundo cão. Morrer por morrer, antes nos braços um do outro do que espatifados entre as ferragens de dois automóveis.

quarta-feira, 3 de Janeiro de 2007

Estendal interior

Lavandières, Edgar Degas



Talvez uma das lavadeiras do Degas esteja a ler o almanaque com as previsões para o ano que começa. Talvez a outra esteja a ler uma nota de despedimento. Seja como for, mesmo que 2007 se apresente em termos pessoais, com algum potencial, é impossível ignorar as dificuldades que desde já promete: aumento de preços, aumento de tarifas, desemprego, desmantelamento dos serviços públicos essenciais (educação, saúde). Mas prometo esforçar-me por acreditar, se não em seis, pelo menos em três impossíveis antes do pequeno almoço, cada dia, como no outro lado do espelho do Lewis Carroll.

terça-feira, 2 de Janeiro de 2007


Lavagem emprestada a uma coisa em forma de assim





you are welcome to elsinore
Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício
Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição
Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita
Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar
Mário Cesariny de Vasconcelos

segunda-feira, 1 de Janeiro de 2007


Lavagem de ano novo


Lavandiéres à Étretat, Felix Vaillotton

Sempre cara me foi esta erma altura

Com esta sebe que por toda a parte

Do último horizonte a visão exclui.

Sentado aqui, e olhando, intermináveis

Espaços para além, e sobre-humanos

Silêncios, e profunda quietude,

Eu no pensar evoco; onde por pouco

O coração não treme.

E como o vento

Ouço gemer nas ervas, eu àquele

Infinito silêncio esta voz

Vou comparando: e sobrevem-me o eterno,

E as idades já mortas, e a presente

E viva, e seu ruído… Assim, por esta

Imensidade a minha ideia desce:

E o naufragar me é doce neste mar.

Giacomo Leopardi