quinta-feira, 30 de Novembro de 2006


Lavagens quotidianas

Mulher kalash, Paquistão/Afeganistão

La vida responsable

Conducir sin tener un accidente
comprar desodorante y macarrones
y cortarles las uñas a mis hijas.
Madrugar otra vez, tener cuidado
de no decir inconveniencias, luego
esmerarme en la prosa de unos folios
que me importan exactamente un bledo
y darme colorete en las mejillas.
Recordar la consulta del pediatra,
contestar el correo, tender ropa,
declarar los ingresos, leer libros
y hacer unas llamadas por teléfono.
Me gustaria permitirme el lujo
de tener todo el tempo que quisiera
para hacer un montón de cosas raras,
y, sobre todo, inútiles y bobas.
Por ejemplo, quererte con locura.

Amalia Bautista

quarta-feira, 29 de Novembro de 2006

Estendal sofrido


Estendal, La Soufriére, Guadalupe

Guadalupe é uma das ilhas do Caribe. Na realidade é constituída por duas ilhas siamesas, quase totalmente separadas por um estreito braço de mar, o Rio Salgado. Habitada pelos índios arawaks, expulsos pelos caraíbas, foi colonizada pelos espanhóis em finais do século XV. Estes fizeram da ilha porto de escala para abastecimento e entre epidemias, álcool e abusos dizimaram a população indígena. No século XVII os franceses instalam-se na ilha e com a produção de açúcar trazem a escravatura. Ainda hoje sob administração francesa, a população vive principalmente da agricultura e do turismo de elite.

A montanha mais alta de Guadalupe - La Soufriére - um vulcão activo desde 1995 depois de séculos de inactividade .

É sobre ela esta lavagem. A Sofredora. Porque a Terra também sofre. Lama, cinzas, lava, a terra purga infecções e males de forma violenta. Porque os antigos e primordiais acordos entre a natureza e os homens foram rompidos.

terça-feira, 28 de Novembro de 2006


Estendal existencial

Clothesline, Jen Gray

Todo o tempo é de poesia
Desde a névoa da manhã
à névoa do outro dia.
Desde a quentura do ventre
à frigidez da agonia
Todo o tempo é de poesia
Entre bombas que deflagram.
Corolas que se desdobram.
Corpos que em sangue soçobram.
Vidas qu'a amar se consagram.
Sob a cúpula sombria
das mãos que pedem vingança.
Sob o arco da aliança
da celeste alegoria.
Todo o tempo é de poesia.
Desde a arrumação do caos
à confusão da harmonia.
António Gedeão

segunda-feira, 27 de Novembro de 2006

Estendal surrealista sem mário cesariny

Tennis anyone, Lois Dodd




exercício espiritual


É preciso dizer rosa em vez de dizer ideia

é preciso dizer azul em vez de dizer pantera

é preciso dizer febre em vez de dizer inocência

é preciso dizer o mundo em vez de dizer um homem

É preciso dizer candelabro em vez de dizer arcano

é preciso dizer Para Sempre em vez de dizer Agora

é preciso dizer O Dia em vez de dizer Um Ano

é preciso dizer Maria em vez de dizer aurora


domingo, 26 de Novembro de 2006

Estendal alentejano sem chaparros


sábado, 25 de Novembro de 2006


Lavagem retomada (à Aldina Duarte)

Laundry day, Cindi Riccardelli


Nenhum homem é invisível
Nenhum homem é mais esquecido por si mesmo
Nenhuma sombra é transparente

Vejo homens onde apenas existo eu
As minhas preocupações são estilhaçadas por risos ligeiros
Oiço palavras muito doces cruzarem a minha voz séria
Os meus olhos sustentam uma rede de olhares puros

Atravessamos mares e montanhas difíceis
Árvores loucas opõem-se à minha mão jurada
Animais errantes oferecem-me a vida em migalhas
Pouco importa a minha imagem pois multiplicou-se
Pouco importa a natureza e os seus espelhos velados
Pouco importa o céu vazio pois eu não estou só.



Paul Éluard

sexta-feira, 24 de Novembro de 2006

Retrato de Lavadeira II





370- 415

Hipátia foi matemática, astrónoma e filósofa, filha do último director do Museu/ Biblioteca de Alexandria, repositório do conhecimento e cultura clássicos. A sua projecção intelectual e académica foi acentuada pelo facto de ser mulher e pagã num mundo quase totalmente cristianizado. À época era bispo de Alexandria, Cirilo, em conflito com o prefeito da cidade, Orestes. A hostilidade entre cristãos e Orestes é imputada a Hipátia e à amizade que existia entre ambos. Na primavera de 415, a situação degrada-se tragicamente quando uma multidão de cristãos, entre eles monges, arrasta Hipátia pelas ruas, despedaçando-lhe o corpo e queimando posteriormente os restos mortais.


quinta-feira, 23 de Novembro de 2006

Requerimento para lavar




Camões e a tença


Irás ao paço. Irás pedir que a tença

Seja paga na data combinada.

Este país te mata lentamente

País que tu chamaste e não responde

País que tu nomeias e não nasce.

Em tua perdição se conjuraram

Calúnias desamor inveja ardente

E sempre os inimigos sobejaram

A quem ousou ser mais que a outra gente.

E aqueles que invocaste não te viram

Porque estavam curvados e dobrados

Pela paciência cuja mão de cinza

Tinha apagado os olhos no seu rosto.

Irás ao paço irás pacientemente

Pois não te pedem canto mas paciência.

Este país te mata lentamente.


Sophia de Mello Breyner Andresen, 1970




A minha geração ainda dividia os Lusíadas em orações, sublinhando figuras de estilo. Os tempos eram outros e o regime revia-se na epopeia lusa e nas formalidades estilísticas do belo mas difícil poema de Luís de Camões. Quem teve a sorte de ter como professores de Português pessoas com sensibilidade e coragem, que os anos eram de censura e repressão, apaixonou-se por Camões e por quem o amava.
Agora pede-se nos manuais aos alunos que assassinem o belíssimo poema de Sophia convertendo-o num requerimento, como nos conta Maria do Carmo Vieira hoje, no Público. Eu, se fosse professora de Português, talvez pedisse aos meus alunos que tentassem transformar um requerimento num poema. Mas não sou professora de Português. Porém, de todas as vezes que levei poemas para a sala de aula, saímos todos maiores e melhores pessoas. Não precisamos de mais requerimentos. Precisamos é de mais poesia. Na sala de aula, na rua, nos refeitórios, nos autocarros, nos hospitais, nas repartições públicas, nos gabinetes. Em casa.

quarta-feira, 22 de Novembro de 2006

Estendal multifunções


Hanging out to dry, William de Kay

Assim como quem estende mágoas e pendura alegrias, que a sobrevivência é feita de nódoas e lavagens, saponárias e enxaguadelas e nada como uma boa ventania para nos sacudir e limpar.

terça-feira, 21 de Novembro de 2006

Retrato de Lavadeira


1364 - c. 1430


Poetisa e filósofa de origem italiana. Foi a primeira mulher de letras francesa a viver da actividade literária, que lhe permitiu sustentar a família, após a morte do marido. Afirmou-se como intelectual e mulher num meio essencialmente misógino e lutou pelo reconhecimento da dignidade das mulheres na literatura e na sociedade.


Estendal lembrado


Life goes on -Tripoli, Marlowski

Com triste coração cantar alegremente
e rir 'stando de luto, é coisa bem difícil;
o contrário mostrar de quanto nos aflige
é pior que trair um coração dolente.
assim o tenho feito; e bem continuamente.
Embora sem o querer, tem-me sido preciso
com triste coração cantar alegremente.

Christine de Pisan

segunda-feira, 20 de Novembro de 2006


Estendais comerciais


Desde Setembro que é Natal nas lojas. Esta violência, que há muito sequestrou (o que restava do) espírito da quadra, persegue-nos a cada esquina, em cada rua, em todos os espaços comerciais. Mas sem inteligência, sem imaginação, profundamente provinciana e paroquial. Mesmo na lógica mercantil, poderia ao menos tentar envolver outras celebrações e outras tradições, num país de católicos não praticantes para as estatísticas, onde oficiosamente se aceitam - sem grandes ênfases, é certo - lavagens ecuménicas. Há dias, numa loja simpática de quinquilharias étnicas, oferecem-me um lembrete para resolver o "problema" das ofertas natalícias. À frente da coluna para os nomes de amigos e familiares, um verdadeiro lençol excell de colunas para intervalos de euros. Uma vez atribuído o preço a cada familiar e amigo, e entregue o lembrete na loja, devolviam-me um saco com as coisas e resolvia-se o "problema". Não me fez impressão a iniciativa. Afinal eu podia representar uma empresa... Fez-me impressão, sim, o à-vontade com que a coisa era recebida pelos outros clientes.

domingo, 19 de Novembro de 2006


Lavagem outonal de fim de semana

Laundry in the wind, Franz Marc

Precisaríamos de ser ainda mais simples,
Tão simples que pudéssemos entrar
Na simplicidade do vento,
Da poalha do sol,
Da roupa estendida a arquejar ao vento
Não há desespero no mundo,
Nem esperança.
Há apenas a simplicidade do vento,
Do sol,
Da roupa,
Da corda;
Há apenas a simplicidade da água,
Os seus vergões de mulher grávida;
Há apenas a água,
O calhau,
A simples necessidade de arder e de morrer.
Seria necessário poder entrar sem estremecer
Nas coisas
Como as coisas
Entram nas coisas.
Porquê este frenesim no nosso coração?
Porquê este eterno enervamento nos nossos nervos?
O pensamento nada constrói. O sentimento esgota-nos.
Apertamos os dentes e sangramos
e nada criamos.
Dedilhamos as coisas
Como uma chuva em que cada gota
tivesse medo de se magoar.
Nós somos os pequenos frenéticos do mundo.
Nós não entramos.



Jean Rousselot, trad. António Ramos Rosa

sábado, 18 de Novembro de 2006


Estendal cantado, ontem



Há sempre qualquer coisa de teatral nas fadistas. Na Aldina Duarte não. Quando ontem entrou em cena, era apenas uma mulher vestida para cantar. E à medida que expunha vidas e emoções, podia ser qualquer uma de nós, não fora a voz empolgante, que nos arrebata e gela ao mesmo tempo. Uma voz que vem do ventre, do peito, do chão, e recria aquele mistério insolúvel de sabermos que alguém nos canta mágoas e alegrias sem nos conhecer e melhor, muito melhor e com mais verdade do que alguma vez poderíamos fazer. Pode ser que seja inteligência, sensibilidade, amor ou dor. Mas fado é, de certeza.

A Aldina parecia ontem, em cena, uma mulher só. Mas tinha, afinal, dois homens em palco e uma plateia de gente suspensa no seu canto. Não sei que melhor metáfora poderá haver para a nossa condição.

sexta-feira, 17 de Novembro de 2006


Estendal cantado logo à noite, na culturgest

Antes de quê?

Antes da chuva no rio
antes de ser primavera
antes do corpo vazio
nunca estive à tua espera
antes da areia quebrar
as ondas da maré alta
senti o cheiro do mar
não senti a tua falta
antes do mal que passei
antes do bem que vivi
nunca de ti me lembrei
nem nunca pensei em ti
antes da estrela cadente
riscar o céu de outras luas
antes do quarto crescente
não tive saudades tuas
não sei como nem porquê
antes não sei de que instantes
meu amor antes de quê
antes fosse como dantes.
manuela de freitas/raul ferrão na voz de aldina duarte

quinta-feira, 16 de Novembro de 2006

Estendal entre aguaceiros


Waterdrops on clothesline, Allan Neilsen


EL PUENTE

Si me dicen que estás al otro lado
de un puente, por extraño que parezca
que estés al otro lado y que me esperes,
yo cruzaré ese puente.
Dime cuál es el puente que separa
tu vida de la mía,
en qué hora negra, en qué ciudad lluviosa,
en qué mundo sin luz está ese puente,
y yo lo cruzaré.
Amalia Bautista


quarta-feira, 15 de Novembro de 2006

Estendal em português

s/n, Armindo Lopes

Hoje, no Público, o Presidente da Associação Portuguesa de Linguística sai a terreiro em defesa da nova Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário (TLEBS), comentando um texto de Helena Matos que só peca por defeito.

Tive oportunidade de ler o texto divulgativo da TLEBS há quase dois anos. Não sendo professora de Português (ou Língua Portuguesa) a minha primeira reacção foi rir: 'frase subordinada substantiva relativa sem antecedentes'? 'frase subordinada adjectiva relativa com antecedente restritiva'? 'frase não finita infinita' ? 'referência deíctica encarnada nos actos locutórios', designadamente, o 'acto perlocutório' e o 'acto ilocutório assertivo ou directivo' ?. 'Protótipo textual injuntivo-instrucional' ?

Mas os professores de Português (ou Língua Portuguesa) não riam. E eu caí em mim. Com a ajuda, aliás, do presidente da Associação de Professores de Português, sempre disponível para apoiar, subscrever e defender as criminosas e delirantes reformas que as luminárias da 24 de Julho têm produzido nos últimos anos.

Não sei se são Vasconcelos (não tenho bem a certeza quem serão os espanhóis neste caso) ou se são apenas mercenários de prebendas administrativas (requisições, assessorias, avenças) ou ainda se agem por proselitismo. O que sei é que atraiçoam a República e os seus valores educativos. O que sei também é que há muito não trabalham nas escolas (um deles, pelo menos) mas não podem ignorar, antes de produzirem ruído na imprensa, a hecatombe que estas medidas têm provocado ao nível daquele que é o objectivo mais elementar da educação pública: o domínio da expressão na língua materna (saber ler, escrever e expressar ideias).

terça-feira, 14 de Novembro de 2006

Lavagem manual


s/n, Bianca Van der Werf


As mãos

Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema – e são de terra.
Com mãos se faz a guerra – e são a paz.
Com mãos se rasga o mar.
Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas mas
de mãos.
E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.
E cravam-se no
tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.
De mãos é cada flor cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.


Manuel Alegre
E 'brigadas à Aldina pela foto!...

segunda-feira, 13 de Novembro de 2006

Estendal antigo lavado a várias vozes



CONVERSAS NA CORTE

DIZ ELA

O meu coração rebenta quando penso em como o amo,

Não sou capaz de me comportar como outra

pessoa qualquer.

Ele, o coração, está em desordem

Não me deixa escolher um vestido

ou esconder-me atrás de um leque.

Não consigo pôr pintura nos olhos

nem optar por um perfume.

"Não páres, entra dentro da casa."

Foi o que disse o coração uma vez.

E ainda diz sempre que penso no amado.

Não me faças fazer figuras, coração meu.

Por que és tão idiota?

Aquieta-te! Mantém-te calmo

e ele há-de vir ter contigo.

A minha cautela não permitirá que as pessoas digam:

A rapariga está perturbada de amor.

Quando te lembrares dele

sê firme e forte,

não me abandones.

(1567 -1085 a. C.)

Tradução de Hélder Moura Pereira da versão de Ezra Pound a partir da fixação dos textos hieroglíficos em italiano por Boris de Rachewiltz ( Liriche Amorose degli Antichi Egizione, 1957), .


domingo, 12 de Novembro de 2006


Lavando com António Ramos RosaIII






Não posso adiar o coração

Não posso adiar o coração para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurosa indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração.

sábado, 11 de Novembro de 2006

Estendal primaveril em novembro

Clothesline, Lori Vafiades

sexta-feira, 10 de Novembro de 2006

Gaia na lavandaria







Apesar do sol e das temperaturas amenas. Apesar da chuva que sossegou as barragens e adiou o espectro da seca e de maiores preocupações.

As inundações distraíram as cabeças da crise, dos aumentos dos preços, dos congelamentos das remunerações, dos despedimentos, do agravamento dos cuidados de saúde. As pessoas perdoam ao governo o mais cerrado ataque que lhes foi feito nos últimos anos, fazendo greve. Greves imensas e indesperadas.Mas ao mesmo tempo suportando a violência porque lhes parece que algo está a ser feito.


E muito tem que ser feito. O clima e a natureza, que os homens têm ignorado e saqueado, relembram-nos que somos pequenos e breves. Cada vez choverá mais, e fará mais calor, mais vezes e mais fortemente. A acção humana sobre os sistemas de vida é hoje avassaladora e incontrolável. Os erros dos homens e a força dos elementos são hoje visíveis quase todos os dias, a cores e com som, a milhões de pessoas. É impossível ignorar. Mais tarde ou mais cedo não agir será politicamente impossível. É uma questão de tempo, de mais arrogância face ao território, de mais temporais ou de mais incêndios.


Não são só os homens que protestam. A natureza também diz não.

quinta-feira, 9 de Novembro de 2006

Estendal maior


Janelas gémeas, Armindo Lopes



UTOPIA

Cidade
Sem muros nem ameias
Gente igual por dentro
Gente igual por fora
Onde a folha da palma
afaga a cantaria
Cidade do homem
Não do lobo, mas irmão
Capital da alegria
Braço que dormes
nos braços do rio
Toma o fruto da terra
É teu a ti o deves
lança o teu desafio
Homem que olhas nos olhos
que não negas
o sorriso, a palavra forte e justa
Homem para quem
o nada disto custa
Será que existe
lá para os lados do oriente
Este rio, este rumo, esta gaivota
Que outro fumo deverei seguir
na minha rota?
José Afonso


quarta-feira, 8 de Novembro de 2006

Estendal sequestrado


Acompanhei com surpresa o sequestro do capelão de Pinheiro da Cruz. Pensei que já tivessem acabado com esse pelotão de guardas do espírito.
Mais a mais nesta altura de crise e contenção da despesa pública à custa de briosos funcionários como eu. Eu, que não cometi crime nenhum e que lá vou levando, como dizem os brasileiros, a minha vida, entre o trabalho e a casa e que se quiser amparo espiritual, pago-o do meu bolso.
A minha questão é: como pode a República, constitucionalmente laica, continuar a financiar o amparo espiritual dos missionários católicos nas prisões, nos quartéis e nas escolas e não me financiar o amparo espiritual que me proporcionam as massagens reiki, por exemplo, a mim, cidadã cumpridora e financiadora desta generosidade beata e salazarenta?
A menos que estejamos à beira de uma nova vaga de mártires, seguida, talvez, por novas cruzadas? Tudo indica que a coisa promete, quer para os lados do Islão, quer para os lados do Vaticano.
Mesmo assim, parece-me indecente que a República preverta o ânimo e a fé desta gente, pagado-lhes os préstimos. Não seria, talvez, mais respeitoso, deixar os crentes por sua conta e risco, em vez de se abusar da sua existência confinada?
Seria, além disso uma bela poupança, mesmo que fosse para reencaminhar para as misericórdias, instituições de ensino e associações variadas de assistência, devidamente abençoadas por caciques locais e dignatários católicos. Enfim, a tradição, suponho...

terça-feira, 7 de Novembro de 2006

Lavagem retro




segunda-feira, 6 de Novembro de 2006



Estendal de pedra

s/n(?), Auguste Rodin

DESNUDO DE MUJER

Para ti nunca fui más que un pedazo

de mármol. Esculpiste en él mi cuerpo,

un cuerpo de mujer blanco y hermoso,

en él que nunca viste más que piedra

y el orgullo, eso sí, de tu trabajo.

Jamás imaginaste que te amaba

y que me estremecía cuando, dulce,

moldeabas mis senos y mis hombros,

o alisabas mis muslos y mi vientre.

Hoy estoy en un parque donde sufro

los rigores del frío en el invierno,

y en verano me abraso de tal modo

que ni siquiera los gorriones vienen

a posarse en mis manos porque queman.

Pero, de todo, lo que más mi duele

es bajar la cabeza y ver la placa:

"Desnudo de mujer", como otras muchas.

Ni de ponerme un nombre te acordaste.

Amalia Bautista

Y muchas gracias a Aldina por su foto!


domingo, 5 de Novembro de 2006


Estendal cantado

Prayer flags at Tso Moriri, Lakshman Lawat

Vi muitos destes estendais por todo o Nepal, de Katmandu a Pokhara e desde logo achei fascinante esta ideia de escrever invocações e preces num pano colorido e entregá-lo aos elementos até estes se encarregarem de os assimilar, fibra a fibra, pigmento a pigmento, palavra a palavra, desejo a desejo.

Não acho que seja por caso que foi uma fadista a enviar-me esta foto e esta lembrança (obrigada, Aldina). Eu acredito que o fado é uma invocação à vida, mesmo sendo sombria, mesmo sendo melancólica, mesmo sendo triste. E o fado é mais que a canção da nossa portugalidade, é a canção desta terra, batida pelos temporais atlânticos e pelos calores do mediterrâneo e de áfrica. É o canto destes homens e destas mulheres, demasiado pequenos para estas arribas e estes areais, demasiado grandes para o tempo que habitam.

sábado, 4 de Novembro de 2006

Estendal lunar




Amanhã


Amanhã vou lançar-me à lua cheia,

Sem pensar que adormeço na alcateia

Mais esfaimada de astros movediço.

E depois vou queixar-me entre os meus deuses,

E escrever, sem palavras, o destino

De poemas, de feras e de adeuses

Inventados para homens pequeninos.


Amanhã vou mandar lançar pregões

Para que tragam, frios e reais,

A pedra do sepulcro, os punhais

Do silêncio que em terra me consomem.


Amanhã vou cerrar a primavera

E os doces verões do amor.

Riscar do tempo essa quimera-homem,

Que torna o tempo esta quimera-flor.


Amanhã era bom que fosse a morte,

Os sinos de uma escada nos ouvidos,

O bicho revelado, irmão e chama,

E muito mais que o espaço permitido

Ao meu espaço de pântano e de lama.


Amanhã poderia recolher-me

À pele de áureos anéis que me desgasta,

E ser esmagada de agonia e verme.


Amanhã poderia ser de pasta

E, por troça, um leão apetecer-me

- Que fascinar um pássaro me basta.


Natércia Freire

sexta-feira, 3 de Novembro de 2006


Estendal sujo



A encenadora do teatro da roupa suja, que acumula funções de ministra da educação, entrou-nos mais uma vez pela casa dentro para explicar o seguinte:

1 - Não existem, no actual sistema de avaliação, professores maus, medíocres ou muito bons. Todos são sofríveis. Alguns, mais imodestos e em contextos que patrocinam a coisa, requerem a classificação de bom e, de acordo com a titular do ministério, obtiveram-na (infelizmente a única que conheci que o fez tinha tantas dificuldades com os alunos nas aulas que várias vezes requereu a minha presença na sala, eu, simples professora e directora de turma sofrível).

2- O novo sistema de avaliação, supostamente, vai desenterrar todos esses medíocres, nulos e incompetentes. Não se percebe como, nem de que maneira (que não existisse já, NUNCA tendo sido utilizada). Mas, claro, sendo 'novo', é seguramente melhor!

3 - Uma coisa, porém é certa, e essa é a grande novidade que a ministra da roupa suja trouxe ao país: esses presumíveis medíocres - nada de confusões, eles existem, não se vêem, não se contabilizam, não se inspeccionam, não se responsabilizam, não se punem, mas existem - agora, com o novo sistema de avaliação não chegam ao topo da carreira. Ora aqui está! Continurão a denegrir, a defraudar, a preverter o sistema, mas já não vão ganhar aqueles balúrdios que auferem os professores em fim de carreira! É moralmente edificante, é sobretudo mais barato e alimenta os mais baixos instintos!

4 - Como se está a assumir, desde já, esta falácia e para que estes incompetentes possam continuar a ensinar e a inquinar o trabalho dos restantes, não se lhes exigindo (à mesma) o rigor que se exige na dimensão das turmas ou na postura física dos vigilantes de exames, criam-se quotas de excelência. De caminho, poupam-se também preciosos euros nos bons e muito bons professores que nunca chegarão ao topo da carreira. Poupa-se também na inspecção, como já se poupou na redução de professores em determinadas áreas inventadas pelas luminárias da 24 de julho.

5 - Estender roupa suja no estendal é promover a excelência, proclamar excelência aos quatro ventos, incluindo o éter e a fibra de vidro, e depois reduzi-la a um vocativo protocolar. A ministra da educação que afirma que o país não pode permitir o desperdício a experiência e o saber dos excelentes, impondo-lhes cargos de gestão e coordenação doravante inerentes ao topo da carreira. Sabe, porém, como toda a gente (incluindo alunos e pais) que o excelente professor não é necessariamente sequer um bom coordenador ou dirigente. Que não é evidente que um excelente dirigente ou coordenador seja um bom professor.

6 - Estender roupa suja no estendal é ser-se pequena e triste. É mentir e orgulhar-se da criatividade na mentira. É saber-se preversa e infame e recrear-se nessa sujidade. É saber-se incompetente e medíocre e regozijar-se no topo.

quinta-feira, 2 de Novembro de 2006


Lavagem escolar






Ontem, em directo na RTP- N, Ministério da Educação em conferência de imprensa. Não será talvez justo tecer considerações estéticas sobre a prestação visual da ministra e dos seus secretários. Mas, mais uma vez e tão chocante como anteriormente, a senhora ministra não esteve à altura. Nem da função em que foi investida, nem da área que tutela, nem dos servidores que representa. Falta-lhe, de forma atroz, a postura de Estado, a civilidade e correcção de maneiras, o verbo coerente e mobilizador que se exige a um ministro da República. Ouvi-la e vê-la é desesperante. É que lhe assenta tão bem o perfil de coveira da educação muito mais que reformadora. Sobretudo porque são necessárias mudanças . Mas as mudanças desta ministra estão inquinadas pelos cifrões e por um inacreditável desprezo e aversão pelos professores. E pelos alunos.

quarta-feira, 1 de Novembro de 2006

Estendal maior

Le lavoir, Camille Pissarro



Nevoeiro
O que possuo e não possuo
É uma ilusão.
O que suponho e não suponho
É sempre um sonho,
Um arrastar, um quase andar
Na cerração.
E tudo sonho, a vida sonho
E o sonho sonho.
Se estendo o braço para tocar
A multidão
E o braço aponta uma ilusão
Que nem suponho,
Fito para lá do nevoeiro
O seu clarão,
E é tudo sonho, a vida sonho
E o sonho sonho.
Abraço o peito para abraçar
O coração,
E tenho medo ao monte, à noite,
Ao céu tristonho.
O coração, ponho-o no côncavo
Da mão,
E tudo sonho, a vida sonho
E o sonho sonho.
Não tenho forças para fundir-me
No clarão,
E é nevoeiro esse país
De que disponho.
Acha-me a vida a caminhar
Na cerração,
E tudo sonho, a vida sonho
E o sonho sonho.
Natércia Freire