Lavagens quotidianas
Mulher kalash, Paquistão/Afeganistão
Mulher kalash, Paquistão/Afeganistão
Estendal, La Soufriére, Guadalupe
Guadalupe é uma das ilhas do Caribe. Na realidade é constituída por duas ilhas siamesas, quase totalmente separadas por um estreito braço de mar, o Rio Salgado. Habitada pelos índios arawaks, expulsos pelos caraíbas, foi colonizada pelos espanhóis em finais do século XV. Estes fizeram da ilha porto de escala para abastecimento e entre epidemias, álcool e abusos dizimaram a população indígena. No século XVII os franceses instalam-se na ilha e com a produção de açúcar trazem a escravatura. Ainda hoje sob administração francesa, a população vive principalmente da agricultura e do turismo de elite.
A montanha mais alta de Guadalupe - La Soufriére - um vulcão activo desde 1995 depois de séculos de inactividade .
É sobre ela esta lavagem. A Sofredora. Porque a Terra também sofre. Lama, cinzas, lava, a terra purga infecções e males de forma violenta. Porque os antigos e primordiais acordos entre a natureza e os homens foram rompidos.
Clothesline, Jen Gray
Laundry day, Cindi Riccardelli
Nenhum homem é invisível
Nenhum homem é mais esquecido por si mesmo
Nenhuma sombra é transparente
Vejo homens onde apenas existo eu
As minhas preocupações são estilhaçadas por risos ligeiros
Oiço palavras muito doces cruzarem a minha voz séria
Os meus olhos sustentam uma rede de olhares puros
Atravessamos mares e montanhas difíceis
Árvores loucas opõem-se à minha mão jurada
Animais errantes oferecem-me a vida em migalhas
Pouco importa a minha imagem pois multiplicou-se
Pouco importa a natureza e os seus espelhos velados
Pouco importa o céu vazio pois eu não estou só.

Assim como quem estende mágoas e pendura alegrias, que a sobrevivência é feita de nódoas e lavagens, saponárias e enxaguadelas e nada como uma boa ventania para nos sacudir e limpar.
1364 - c. 1430
Poetisa e filósofa de origem italiana. Foi a primeira mulher de letras francesa a viver da actividade literária, que lhe permitiu sustentar a família, após a morte do marido. Afirmou-se como intelectual e mulher num meio essencialmente misógino e lutou pelo reconhecimento da dignidade das mulheres na literatura e na sociedade.


Desde Setembro que é Natal nas lojas. Esta violência, que há muito sequestrou (o que restava do) espírito da quadra, persegue-nos a cada esquina, em cada rua, em todos os espaços comerciais. Mas sem inteligência, sem imaginação, profundamente provinciana e paroquial. Mesmo na lógica mercantil, poderia ao menos tentar envolver outras celebrações e outras tradições, num país de católicos não praticantes para as estatísticas, onde oficiosamente se aceitam - sem grandes ênfases, é certo - lavagens ecuménicas. Há dias, numa loja simpática de quinquilharias étnicas, oferecem-me um lembrete para resolver o "problema" das ofertas natalícias. À frente da coluna para os nomes de amigos e familiares, um verdadeiro lençol excell de colunas para intervalos de euros. Uma vez atribuído o preço a cada familiar e amigo, e entregue o lembrete na loja, devolviam-me um saco com as coisas e resolvia-se o "problema". Não me fez impressão a iniciativa. Afinal eu podia representar uma empresa... Fez-me impressão, sim, o à-vontade com que a coisa era recebida pelos outros clientes.
Laundry in the wind, Franz Marc
Há sempre qualquer coisa de teatral nas fadistas. Na Aldina Duarte não. Quando ontem entrou em cena, era apenas uma mulher vestida para cantar. E à medida que expunha vidas e emoções, podia ser qualquer uma de nós, não fora a voz empolgante, que nos arrebata e gela ao mesmo tempo. Uma voz que vem do ventre, do peito, do chão, e recria aquele mistério insolúvel de sabermos que alguém nos canta mágoas e alegrias sem nos conhecer e melhor, muito melhor e com mais verdade do que alguma vez poderíamos fazer. Pode ser que seja inteligência, sensibilidade, amor ou dor. Mas fado é, de certeza.
Antes de quê?

Estendal em português

s/n, Armindo Lopes
Hoje, no Público, o Presidente da Associação Portuguesa de Linguística sai a terreiro em defesa da nova Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário (TLEBS), comentando um texto de Helena Matos que só peca por defeito.
Tive oportunidade de ler o texto divulgativo da TLEBS há quase dois anos. Não sendo professora de Português (ou Língua Portuguesa) a minha primeira reacção foi rir: 'frase subordinada substantiva relativa sem antecedentes'? 'frase subordinada adjectiva relativa com antecedente restritiva'? 'frase não finita infinita' ? 'referência deíctica encarnada nos actos locutórios', designadamente, o 'acto perlocutório' e o 'acto ilocutório assertivo ou directivo' ?. 'Protótipo textual injuntivo-instrucional' ?
Mas os professores de Português (ou Língua Portuguesa) não riam. E eu caí em mim. Com a ajuda, aliás, do presidente da Associação de Professores de Português, sempre disponível para apoiar, subscrever e defender as criminosas e delirantes reformas que as luminárias da 24 de Julho têm produzido nos últimos anos.
Não sei se são Vasconcelos (não tenho bem a certeza quem serão os espanhóis neste caso) ou se são apenas mercenários de prebendas administrativas (requisições, assessorias, avenças) ou ainda se agem por proselitismo. O que sei é que atraiçoam a República e os seus valores educativos. O que sei também é que há muito não trabalham nas escolas (um deles, pelo menos) mas não podem ignorar, antes de produzirem ruído na imprensa, a hecatombe que estas medidas têm provocado ao nível daquele que é o objectivo mais elementar da educação pública: o domínio da expressão na língua materna (saber ler, escrever e expressar ideias).

CONVERSAS NA CORTE
DIZ ELA
O meu coração rebenta quando penso em como o amo,
Não sou capaz de me comportar como outra
pessoa qualquer.
Ele, o coração, está em desordem
Não me deixa escolher um vestido
ou esconder-me atrás de um leque.
Não consigo pôr pintura nos olhos
nem optar por um perfume.
"Não páres, entra dentro da casa."
Foi o que disse o coração uma vez.
E ainda diz sempre que penso no amado.
Não me faças fazer figuras, coração meu.
Por que és tão idiota?
Aquieta-te! Mantém-te calmo
e ele há-de vir ter contigo.
A minha cautela não permitirá que as pessoas digam:
A rapariga está perturbada de amor.
Quando te lembrares dele
sê firme e forte,
não me abandones.
(1567 -1085 a. C.)
Tradução de Hélder Moura Pereira da versão de Ezra Pound a partir da fixação dos textos hieroglíficos em italiano por Boris de Rachewiltz ( Liriche Amorose degli Antichi Egizione, 1957), .


Janelas gémeas, Armindo Lopes
Acompanhei com surpresa o sequestro do capelão de Pinheiro da Cruz. Pensei que já tivessem acabado com esse pelotão de guardas do espírito.
s/n(?), Auguste Rodin
DESNUDO DE MUJER
Para ti nunca fui más que un pedazo
de mármol. Esculpiste en él mi cuerpo,
un cuerpo de mujer blanco y hermoso,
en él que nunca viste más que piedra
y el orgullo, eso sí, de tu trabajo.
Jamás imaginaste que te amaba
y que me estremecía cuando, dulce,
moldeabas mis senos y mis hombros,
o alisabas mis muslos y mi vientre.
Hoy estoy en un parque donde sufro
los rigores del frío en el invierno,
y en verano me abraso de tal modo
que ni siquiera los gorriones vienen
a posarse en mis manos porque queman.
Pero, de todo, lo que más mi duele
es bajar la cabeza y ver la placa:
"Desnudo de mujer", como otras muchas.
Ni de ponerme un nombre te acordaste.
Amalia Bautista
Y muchas gracias a Aldina por su foto!
Prayer flags at Tso Moriri, Lakshman Lawat
Vi muitos destes estendais por todo o Nepal, de Katmandu a Pokhara e desde logo achei fascinante esta ideia de escrever invocações e preces num pano colorido e entregá-lo aos elementos até estes se encarregarem de os assimilar, fibra a fibra, pigmento a pigmento, palavra a palavra, desejo a desejo.
Não acho que seja por caso que foi uma fadista a enviar-me esta foto e esta lembrança (obrigada, Aldina). Eu acredito que o fado é uma invocação à vida, mesmo sendo sombria, mesmo sendo melancólica, mesmo sendo triste. E o fado é mais que a canção da nossa portugalidade, é a canção desta terra, batida pelos temporais atlânticos e pelos calores do mediterrâneo e de áfrica. É o canto destes homens e destas mulheres, demasiado pequenos para estas arribas e estes areais, demasiado grandes para o tempo que habitam.


A encenadora do teatro da roupa suja, que acumula funções de ministra da educação, entrou-nos mais uma vez pela casa dentro para explicar o seguinte:
1 - Não existem, no actual sistema de avaliação, professores maus, medíocres ou muito bons. Todos são sofríveis. Alguns, mais imodestos e em contextos que patrocinam a coisa, requerem a classificação de bom e, de acordo com a titular do ministério, obtiveram-na (infelizmente a única que conheci que o fez tinha tantas dificuldades com os alunos nas aulas que várias vezes requereu a minha presença na sala, eu, simples professora e directora de turma sofrível).
2- O novo sistema de avaliação, supostamente, vai desenterrar todos esses medíocres, nulos e incompetentes. Não se percebe como, nem de que maneira (que não existisse já, NUNCA tendo sido utilizada). Mas, claro, sendo 'novo', é seguramente melhor!
3 - Uma coisa, porém é certa, e essa é a grande novidade que a ministra da roupa suja trouxe ao país: esses presumíveis medíocres - nada de confusões, eles existem, não se vêem, não se contabilizam, não se inspeccionam, não se responsabilizam, não se punem, mas existem - agora, com o novo sistema de avaliação não chegam ao topo da carreira. Ora aqui está! Continurão a denegrir, a defraudar, a preverter o sistema, mas já não vão ganhar aqueles balúrdios que auferem os professores em fim de carreira! É moralmente edificante, é sobretudo mais barato e alimenta os mais baixos instintos!
4 - Como se está a assumir, desde já, esta falácia e para que estes incompetentes possam continuar a ensinar e a inquinar o trabalho dos restantes, não se lhes exigindo (à mesma) o rigor que se exige na dimensão das turmas ou na postura física dos vigilantes de exames, criam-se quotas de excelência. De caminho, poupam-se também preciosos euros nos bons e muito bons professores que nunca chegarão ao topo da carreira. Poupa-se também na inspecção, como já se poupou na redução de professores em determinadas áreas inventadas pelas luminárias da 24 de julho.
5 - Estender roupa suja no estendal é promover a excelência, proclamar excelência aos quatro ventos, incluindo o éter e a fibra de vidro, e depois reduzi-la a um vocativo protocolar. A ministra da educação que afirma que o país não pode permitir o desperdício a experiência e o saber dos excelentes, impondo-lhes cargos de gestão e coordenação doravante inerentes ao topo da carreira. Sabe, porém, como toda a gente (incluindo alunos e pais) que o excelente professor não é necessariamente sequer um bom coordenador ou dirigente. Que não é evidente que um excelente dirigente ou coordenador seja um bom professor.
6 - Estender roupa suja no estendal é ser-se pequena e triste. É mentir e orgulhar-se da criatividade na mentira. É saber-se preversa e infame e recrear-se nessa sujidade. É saber-se incompetente e medíocre e regozijar-se no topo.

Le lavoir, Camille Pissarro
congeminações enquanto o tambor roda e o vento sopra no estendal...