terça-feira, 31 de Outubro de 2006

Bruxas na lavandaria




Bruxas à volta do estendal, estendendo roupa e feitiços ao luar. Bruxas daquelas simpáticas, sorridentes, de roupas garridas e saltos agulha, que traficam carreiras e cozinham influências. Bruxas educadas o tempo de uma contrariedade, um devaneio. Bruxas enxutas, dinâmicas e muitíssimo eficientes. Bruxas ruidosas e musicais que ofuscam e submergem as bruxas sombrias e sábias pelos anos de pragas e encantamentos, mistelas e poções presentes nos gestos vagos e no vestuário bizarro, nos risos por vezes demasiado longos, no reflexo que lhes atravessa o olhar manhã cedo ou quando a noite se aproxima.

Noite de todas as mulheres. Das que nesta noite gostariam de ser bruxas, feiticeiras... O tempo de um sortilégio ou de uma maldição.Uma magia que mudasse (est)a vida e este tempo.

Estendal íntimo


Entre um estendal e outro a distância talvez entre a indiferença e o fetiche , entre a lavagem higiénica e a lavagem libidinosa.

segunda-feira, 30 de Outubro de 2006

Lavagem meia estação


Lessive, Pello Azketa

Hoje falava-se na Gulbenkian no lento estertor do interior. Mas há quem ainda queira ficar junto da terra. Quem saiba, melhor do que a academia e as repartições, que é da morte mais mortal que se falava. A morte da memória da terra, do ciclo das estações, da fome, da sede e da fartura. Da embriaguez do vinho e do desejo. Deste antigo e venerável acordo entre os homens e a terra. Das sombras e da luz, da lua e do sol, da água, das copas verdes, dos imensos espaços, dos penhascos e penedias, do cheiro dos animais e do aroma dos frutos, dos gritos no horizonte, dos risos ao cair da tarde, da dança das palavras e dos gestos noite dentro.
Lá fora, para lá das vidraças, ainda era verão. Nos jardins dominavam os verdes sombrios, aqui e ali interrompidos por raios de luz e ribombar de aviões. O outono, que triunfa no interior de que se falou tanto, era submerso pelas cinzas, pelas ruínas. E já não se agradeciam as colheitas nem se invocava o trabalho dos homens. Não era de vida que se falava, mas de morte. E quem falou de vida foi avisado com sábias palavras de luto.

domingo, 29 de Outubro de 2006


Lavagens em descanso


Lavadeiras à beira-rio, Luis Jimenez y Aranda

sábado, 28 de Outubro de 2006

Estendal empolgado



Brindis


Alégrate conmigo, celebremos la suerte

de compartir una ciudad y un siglo,

la bendición del sol dorado de este invierno,

la cerveza y su espuma en nuestros labios.

Brindemos contra el tiempo de oscuras amenazas,

toquémonos osados, riamos complacidos,

conjuremos los monstruos del dolor y la culpa,

callemos nuestra inmensa soledad.

Que el don de la ebriedad nos bañe al mediodía.


Amalia Bautista

sexta-feira, 27 de Outubro de 2006

RTP-Norte lava melhor
Ontem a RTP-Norte transmitiu, em directo, o lançamento do novo livro de António Lobo Antunes - Ontem não te vi em Babilónia. Já me tinha quase esquecido que vale a pena ligar aquele trambolho berrante de vez em quando. No estendal, o relato no Diário Digital.

Com a sala do Teatro Maria Matos, em Lisboa, cheia, Lobo Antunes disse que escolheu Agualusa e Araújo Pereira para apresentar o seu livro por os admirar e querer prestar-lhes homenagem enquanto autores de textos novos.
«Teria sido fácil pedir a pessoas que conheço como o Eduardo Lourenço, Agustina ou até mesmo fazer voltar cá abaixo José Cardoso Pires para apresentar o livro, mas quis homenagear dois homens que admiro», afirmou o escritor.
Lobo Antunes, 64 anos, elogiou o talento de escritor de Agualusa e o humor dos textos de Araújo Pereira «que foi capaz de pôr Portugal a rir-se de si próprio».
«Deste livro não vou dizer nada. O livro fala por si», disse Lobo Antunes.
«Não tenho que ser caixeiro-viajante de mim mesmo, que é uma coisa que há muito em Portugal», adiantou.
Mesmo assim, viria a confessar que considera que «escrever é muito difícil» e que «há sempre a sensação que é alguém que escreve por nós».
Sobre o fazer do livro, o escritor revelou que «o primeiro terço é sempre muito penoso, mas a partir de metade começa a ganhar aceleração própria».
«O livro está acabado quando está farto de nós», rematou o escritor que falou sempre pausadamente e começou a sua intervenção com um rasgado elogio à editora Tereza Coelho, da Dom Quixote.
Ricardo Araújo Pereira começou por avisar que não tem formação literária apesar de ser «um leitor compulsivo».
«Aceitei o convite, porque se o Eusébio me convidasse para jogar futebol também ia, apesar de não saber dar um pontapé na bola», afirmou.
Sobre «Ontem não te vi em Babilónia», Araújo Pereira disse que é um livro que tem tudo o que a vida tem: as lágrimas, o riso, a perda, a alegria, o desencanto e a esperança.
«Os livros do António não se apresentam, não se pode dizer que o enredo é este ou aquele», referiu, por sua vez, José Eduardo Agualusa.
«Leio os livros do António como quem ouve música», afirmou ainda o jovem escritor, sublinhando que a escrita de Lobo Antunes «não condescende com as modas do mundo ou da literatura».
«Isto não é um livro, é a vida», rematou, recorrendo a um dos personagens ou das vozes - segundo Araújo Pereira - deste livro.
«Ontem não te vi em Babilónia» foi buscar o título a uma frase escrita há 5 mil anos, revelou o autor numa entrevista ao Jornal de Letras.
«Já tinha acabado o livro e ainda não tinha título. E um dia estava a passear por um texto do poeta cubano Eliseu Diego, dei com a frase escrita há 5 mil anos, num fragmento de argila. Tive essa felicidade», contou.
O livro tem quase 500 páginas e passa-se numa única noite, entre a meia-noite e as cinco da manhã, uma noite em claro.
Diário Digital / Lusa
26-10-2006 21:13:00

quinta-feira, 26 de Outubro de 2006


Estendal com Damien Rice



I Remember


I remember it well
The first time that I saw
Your head around the door
'Cause mine stopped working
I remember it well
There was wet in your hair
I was stood in the stairs
And time stopped moving
I want you here tonight
I want you here
'Cause I can't believe what I found
I want you here tonight
I want you here
Nothing is taking me down, down, down...
I remember it well
Taxied out of a storm
To watch you perform
And my ships were sailing
I remember it well
I was stood in your line
And your mouth, your mouth, your mind...
I want you here tonight
I want you here
'Cause I can't believe what I found
I want you here tonight
I want you here
Nothing is taking me down, down, down...
Except you my love.
Except you my love...
Come all ye lost
Dive into moss
I hope that my sanity covers the cost
To remove the stain of my love
Paper maché
Come all ye reborn
Blow off my horn
I'm driving real hard
This is love, this is porn
God will forgive me
But I, I whip myself with scorn, scorn
I wanna hear what you have to say about me
Hear if you're gonna live without me
I wanna hear what you wantI remember december
And I wanna hear what you have to say about me
Hear if you're gonna live without me
I wanna hear what you want
What the hell do you want?


quarta-feira, 25 de Outubro de 2006


Estendal a duas mãos



Nenhum amor cabe num só corpo


Nenhum amor cabe num só corpo

ainda que as veias abarquem o tamanho do mundo;

sempre um desejo fica de fora,

outro soluça e contudo falta.

Sabe-o o mar no seu lamento solitário

e a terra que busca os restos da sua estátua;

não basta um só corpo para albergar as suas noites,

algumas estrelas ficam fora do sangue.

Nenhum amor cabe num só corpo,

ainda que a alma se aparte e ceda espaço

e o tempo nos entregue as horas que retém.

Duas mãos não nos bastam para alcançar a sombra,

dois olhos vêem apenas poucas nuvens

mas não sabem onde vão nem de onde vêm,

que país musical as une e as dispersa.

Nenhum amor, nem o mais fugidio, o mais fugaz,

nasce num corpo que está só,

ninguém cabe no tamanho da sua morte.





Eugénio Montejo, trad. António Ramos Rosa


Lavagem Pacheca
Recomendada por Luís Pacheco, em arrumações de fim de semana chuvoso


Jeune lavandière songeuse, Robert Hubert

FUGA


Numa nuvem de esquecimento

Passar a vida,

Sem mágoas, sem um lamento,

Água correndo, impelida

Pelo vento.


Ouvir a música do instante que passa

E recolhê-la no coração,

Olhos fechados à dor e à desgraça

Os ouvidos atentos à canção

Do instante que passa.


Beber a luz doirada que irradia

Dos vastos horizontes,

E ver escoar-se o dia

Entre pinhais e montes...

Doce melancolia.


Esquecer todas as agruras

Que lá vão

E este negro mar de desventuras

Em que voga ao sabor de turvas ondas

Meu coração.


Luís Amaro




terça-feira, 24 de Outubro de 2006

Estendal com música

Anda enguiçada a ida ao teatro ver "o assobio da cobra". Isso não quer dizer que não tenha ouvido compulsivamente o álbum nas últimas semanas, sem perceber ainda porque é que é um segredo tão bem guardado. O joão monge escreveu, o manuel paulo deu-lhe música. E isto já lá vão dois anos. O resultado é, bem... quase brilhante (sendo o quase uma estranheza pelo registo brasileiro, nada mais). Os textos são apaixonados, com aquela ternura meio surrealista, bem humorada e certeira que o joão monge desvenda tão bem, musicados com alguma fanfarronice de botequim pelo manuel paulo, construindo canções, sim, brilhantes.

Quis escolher a(s) preferida(s) e fiz uma lista. Afinal vão-me todas direito ao coração!

Nunca parto inteiramente - Casa inacabada com baloiço na janela - Malhas caídas - Letra de mulher - Pelas nuvens - Ser do vento - Variações de humor - Fruto da imaginação - Samba de acento - O assobio da cobra - Só penso nisso - Como seria

segunda-feira, 23 de Outubro de 2006

Crónica lavada com chuva




Cala-te, a luz arde entre os lábios,

e o amor não contempla, sempre

o amor procura, tacteia no escuro,

esta perna é tua?

é teu este braço?

subo por ti de ramo em ramo,

respiro rente à tua boca,

abre-se a alma à língua, morreria

agora se mo pedisses, dorme,

nunca o amor foi fácil, nunca,

também a terra morre.


Eugénio de Andrade

domingo, 22 de Outubro de 2006

Lavagem tecnológica deslumbrada

Não resisti ao apelo das novas funcionalidades do blogger beta e resolvi mudar. Afinal, nada que tenha visivelmente mudado, a não ser uma melhoria na exportação de imagens... O que se complicou, isso sim, foram os comentários. Agora é preciso dar não sei quantas voltas para entrar no sistema, porque o utilizador tem que recorrer à conta beta. Uma treta. Já desisti de três ou quatro comentários. Se continua, é o fim da tagarelice no mundo blogger.

sábado, 21 de Outubro de 2006

Estendal anacrónico



Gosto da Sophia Coppola. Adorei "As Virgens Suicidas" e o "Lost in Translation". Mas confesso que me tem irritado o trailer de "Maria Antonieta", que apresenta a rainha como uma adolescente perdida no trono da França setecentista. No século XVIII não existia, pura e simplesmente, o conceito moderno de adolescência. Nem mesmo o conceito de infância era reconhecido social e culturalmente. Maria Antonieta era uma jovem mulher, nem sequer demasiado jovem, no palco do poder quando a França era o centro cultural da Europa e a Cidade-Luz, a capital do conhecimento. Nos salões das elites, as mulheres afirmavam-se já não (apenas) como anfitriãs da intriga, já não (apenas) como musas, mas pessoas inteiras num mundo masculino e misógino como eram os círculos racionalistas e iluministas. Seriam elas, mais tarde, quem redigiria a "Declaração dos Direitos da Mulher e Cidadã" que os revolucionários fechariam na gaveta (onde vários princípios ainda hoje permanecem...). Algumas pagariam com a vida a coragem, o desassombro, a inteligência, as ideias. Olympe de Gouges, Manon Roland. Não Maria Antonieta, uma mulher tola, (mal)educada para o poder e que não soube nem geri-lo nem recusá-lo e assumiu o tédio e a frustração como a sua condição, alheia ao seu tempo e ao seu mundo.
A França, essa, segue-lhe as pisadas. Antes da estreia do filme de Sophia Coppola, já Paris estava inundada de cartazes a promover dramatizações no Trianon, visitas guiadas aos espaços históricos relacionados com a rainha. Tal como o Louvre está submerso pelos percursos, referências e contra-referências ao "Código DaVinci". A França vende a alma às "bestas céleres", na expressão desesperada de Alexandre O'Neill.
Balancete na lavandaria




Tudo está bem quando acaba bem. E acaba bem quando feitas as contas, as coisas correram melhor. Mesmo que o melhor seja mau, mesmo que o melhor seja atravessado por um tom mais fúnebre.

Para o ano haverá mais. Mais incêndios, mais aviões, mais helicópteros, mais equipamentos, mais tecnologia avançada, mais ruído no éter e entulho nos pasquins.

Os homens, esses são os mesmos. Os novos que chegam são acolhidos com desconfiança, os veteranos persistem nos mesmos erros.

Muda-se muito pouco e muito devagar. Mas o tempo que resta já não é muito. A floresta (ou o que passa por ela) portuguesa esfuma-se violentamente cada ano que passa.

sexta-feira, 20 de Outubro de 2006


Lavagem existencial com chuva

Chove. Que fiz eu da vida?
Fiz o que ela fez de mim...
De pensada, mal vivida...
Triste de quem é assim!
Numa angústia sem remédio
Tenho febre na alma, e, ao ser,
Tenho saudade, entre o tédio,
Só do que nunca quis ter...
Quem eu pudera ter sido,
Que é dele? Entre ódios pequenos
De mim, estou de mim partido.
Se ao menos chovesse menos!
Fernando Pessoa

quinta-feira, 19 de Outubro de 2006

Rol para lavar






Discriminação, obscurantismo e poder em Vila da Feira.

O aumento da electricidade.

Prestidigitação fiscal no orçamento de 2007.

E esta ministra, que ignora a mais básica civilidade e insulta a república?

quarta-feira, 18 de Outubro de 2006

Lavandaria em greve 2





Os incompetentes, os medíocres, os prepotentes, os nulos, continuarão a ser incompetentes, medíocres, prepotentes, nulos. Os competentes, os bons, os dedicados, os apaixonados, os excelentes, continuarão a ser competentes, bons, dedicados, apaixonados, excelentes. Mas mais desanimados.
Entretanto, poupam-se uns euros. Quanto aos putos... bom, quanto aos putos anunciam-se planos de combate ao insucesso, como na matemática, com grande alarido, para ficarem letra morta nos jornais porque, evidentemente, feitas as contas, não se podem gastar euros.

terça-feira, 17 de Outubro de 2006


Lavandaria em greve




Antes, muito antes, de abrir a lavandaria, já era professora. Temporariamente fora da escola, quando voltar vou encontrá-la pior do que a deixei. Por isso, embora o corpo esteja aqui, o coração está lá.


segunda-feira, 16 de Outubro de 2006

Estendal amish



Li algures que a comunidade amish decidiu desmantelar a escola onde ocorreu o recente massacre de crianças .
Estou de acordo.
Há determinados locais cujas memórias são demasiado violentas, dolorosas e indesculpáveis para a vida consiga prosseguir normalmente.
Nunca percebi porque é que discotecas reabrem depois de tragédias. Como é possível continuar-se a dançar e divertir num espaço onde gente inocente, que o fazia também, pagou esse divertimento com a vida devido a incúria ou violência?
Tal como não percebo como é possível transformar um local de tortura e repressão num luxuoso complexo residencial. Muito menos percebo a extraordinária agilidade judicial que tem perseguido os cidadãos que se opõem a tal ignomínia.
As cidades sempre aceitaram as suas cicatrizes, tal como os povos as derrotas e vitórias.
Agora não. As cidades são retalhadas, esventradas, enxertadas, maquilhadas à força por quem as ignora e despreza. O poder local, na mais pura tradição caciquista, elege como paradigma da civilização urbana o condomínio fechado. O centro cívico dilui-se na fuga para o subúrbio e na renovação turística, sem ruídos, sem sons, sem cheiros e sem aromas. A memória é usurpada pela tradição e esta confeccionada por uma marca de vestuário ou instituição bancária. A alma da cidade é alugada à semana a uma cadeia de televisão e exposta minuciosamente por escribas avençados, em publicações pagas por empresas alimentares, que inundam as ruas e entopem as sarjetas.
Os centros de veraneio, de elites ou de massas, as orgulhosas vilas, as pacatas aldeias são transformadas em cidades sem eira nem beira, numa contabilidade estéril de sufrágios e finanças locais. Os contribuintes e clientes são entronizados em detrimento dos cidadão. O corpo cívico é um cadavre exquis elaborado por auditores e assessores que canibalizam a república.
Maus tempos estes. Tempos em que já não é possível virar a cara ou andar para trás.

domingo, 15 de Outubro de 2006


Lavagem outonal


Laveuses au bord de la Marne, Léon Augustin l'Hermite


As cores ainda não são as cores da terra - os ocres, os tijolos, os castanhos, os laranjas, os vermelhos, os dourados - mas o outono chega devagarinho, vindo do Atlântico e declinado em tons cinzas e azuis, carregados de água.


sábado, 14 de Outubro de 2006


Estendal virado
Há dias assim. O sol até brilha, a temperatura é amena, é fim de semana mas vemos tudo a preto e branco, de pernas para o ar. Nada parece estar certo.
Uma lavagem poética ajuda, de preferência um tudo nada mais forte do que o devido.


NEGRA BILIS

Hace meses que vivo rodeada

de una sustancia negra y pegajosa

que ha invadido mi casa. Las paredes,

el suelo, las ventanas e los muebles,

la comida, los libros y la ropa,

las teclas del ordenador, las plantas,

el teléfono... Todo está impregnado

de esta brea, la misma que respiro,

la que me está matando poco a poco.

Dicen que los dichosos y los necios

llaman melancolía a esta basura

que pudre el corazón y asfixia la alma.

Amalia Bautista

sexta-feira, 13 de Outubro de 2006


Eugénio de Andrade no estendal


Laundry day in Venice, Anne Silber

Morre

de ter ousado

na água amar o fogo.

.............................................................

quinta-feira, 12 de Outubro de 2006

Lavagem rodoviária


Desde 2ª feira que levo mais de uma hora todas as manhãs para fazer um percurso de vinte e cinco minutos. É indiferente sair mais cedo ou mais tarde. Os carros entopem a Marginal, em especial a recta de Carcavelos que se faz em dois minutos e agora leva pelo menos vinte. A alternativa de três transportes públicos diferentes para o mesmo percurso não é alternativa nenhuma. Mas o pior são os homicidas que estas concentrações permitem agir com desenvoltura. E homicidas porquê? Porque a despeito das regras, que não ignoram, agem deliberadamente e com plena consciência dos efeitos, pondo em risca a própria vida e a dos outros. Desde 2ª feira que já enfrentei três. Dois homens e uma mulher. Trinta anos de condução, cabeça fria e reflexos rápidos permitiram-me sobreviver. Até quando vou desafiar a estatística e a sorte?

quarta-feira, 11 de Outubro de 2006

Estendal efeméride


Dia Internacional para a Redução das Catástrofes Naturais

Os países mais vulneráveis às catástrofes naturais são também os que mais dificuldades têm em promover a prevenção, garantir o socorro e assegurar a recuperação. A ONU, através da Unesco, lançou uma campanha mundial sobre a educação para a prevenção de catástrofes integrada na Década da Educação para o Desenvolvimento Sustentável.

O que podemos fazer? A prevenção de catástrofes começa na escola. Comecemos, pois! É que os mais vulneráveis entre os vulneráveis continuam a ser as crianças.

Lavagem editorial




Esperteza saloia, arrogância e abuso

Ontem fui à papelaria do bairro buscar os dois manuais escolares de 12º ano que encomendara para a minha filha mais nova. O processo já fora recheado de "imprevistos", como o esgotamento temporário e a renitência da editora em distribuir apenas um exemplar, ainda por cima não aprovado nas escolas locais. Esta última dificuldade fora resolvida com a deslocação dos proprietários à editora. São-me entregues dois pacotões embrulhados em película plástica num total de 48 euros. Em relação a um dos pacotes, constatei, mais uma vez, a esperteza saloia da editora, recorrente ano após ano. Eu tinha encomendado o manual, mas a editora impingia-me também o caderno de exercícios, tudo muito bem empacotado junto com um anexo, como se fosse apenas um conjunto, apesar de não constar preço em nenhuma das brochuras. Recusei levar o caderno de exercícios, o que provocou de imediato um frisson na fila atrás de mim (sim, nestas alturas há enormes filas nas livrarias). A proprietária, conformada, lá abriu o pacote, não sem antes esclarecer que a editora provavelmente não aceitaria a devolução (mas qual devolução, se não tinha sido encomendado?). A mãe que aguardava vez atrás de mim mantinha um ar de reprovação "mas porque é que esta não paga de uma vez e não se despacha?".
Não me espantou, pois em ocasiões anteriores e mesmo em reuniões de pais, o assunto não havia merecido interesse, apesar da atitude abusiva e dos encargos desnecessários que implica.
Depois de intensa pesquisa, confirmou-se que o caderno custava 6 euros, pelo que a minha conta emagrecera para 42 euros (20 já lá tinham ficado de sinal, não fora eu desistir da encomenda).
Nem faço comentários. Mas fico dividida entre a reclamação ao Instituto do Consumidor e a indiferença de pais e encarregados de educação, os principais alvos deste abuso das editoras.

terça-feira, 10 de Outubro de 2006



Lavagem institucional




Hoje o estendal é na Conferência Internacional para as Alterações Climáticas. Vamos lá a ver se há roupa suja ou não....

segunda-feira, 9 de Outubro de 2006


Estendal renitente

Ora Molas, Aldina Duarte e António Manuel Pinto da Silva

Pois é mesmo assim que me sinto! Não sei se foi o excesso de mar, ou de sol, ou de areia, ou de horizonte, mas é pouco convencida que retomo o meu lugar na ordem das coisas. É certo que o Outono perdeu direitos nesta rentrée subitamente combativa, que encheu as ruas de cor e luz e entusiasmo e força. Ora molas, pois! Que melhor bandeira para desfraldar na rotina cinzenta em que resvalávamos mansamente? Que molas mais vibrantes?

segunda-feira, 2 de Outubro de 2006

Estendal a sul



Uns dias só com lavagens de leituras e música e os banhos que o mar permita e o sol consinta.

domingo, 1 de Outubro de 2006

Estendal exemplar



Lavagem escolar


Washing day, Thomas Liddall Armitage

Sinto a falta da escola.

Dos miúdos, meio incrédulos com o regresso à rotina das aulas, às matérias, aos trabalhos, aos testes. Regressam de dois meses frente ao computador, ao televisor, às playstations, alguma praia, algumas voltas pela terra ou pela terra dos bisavós, muitas idas aos centros comerciais. O prazer de falarmos de sumérios, egípcios e gregos, ou servos, corveias e pestes mortíferas, ou do triunfo da razão e do conhecimento nas bandeiras dos direitos e dos deveres dos homens. E sempre com a sensação que falamos pela primeira vez e sempre diferente, como um filme em construção em que o argumento sofre variações e as personagens evoluem numa dança que as aproxima e separa, mudando de roupas e de maquilhagem. E nesta conversa na sala, uns falam, outros ouvem interessados, outros assistem, alguns pairam, entorpecidos ou absortos noutras conversas que só eles ouvem. Mas todos têm os olhos cheios de luzes brilhantes, de melodias electrónicas, o corpo preso às braçadas na praia ou aos passeios no shopping. Todos se agitam docemente nas cadeiras, endireitam a mochila caída no chão, afagam os livros novos que persistem em fechar-se a cada toque, esticam os dedos obrigados à esferográfica. Nestes primeiros dias desviam-se pouco do tema. Mais tarde quererão falar da telenovela, da funcionária implicante ou do professor sem paciência, dos pais que exigem ou proibem (nunca dos pais que desleixam ou ignoram, e quando o fazem, em tom de bravata dolorida). Brigarão e implicarão uns com os outros persistentemente; magoarão e defenderão uns e outros com paixão. Irritar-se-ão. Tentarão desistir, recusar, hostilizar. Trarão a família, os seus dramas e comédias, para a sala. Ocasionalmente, criarão disputas, reconciliações; a indiferença instalar-se-á. Muitas vezes, porém, sentir-se-á intensamente o calor de uma aula completa.

Mas estes primeiros dias são perfeitos. Tudo é possível, tudo pode acontecer. E mesmo as coisas sem remédio parecem apenas sombras longínquas num círculo de luz.