Estendal de tentações e bençãos
Claro que Portugal é uma república. Laica. Possui tambéma maior densidade per capita de católicos não-praticantes em toda a cristandade. Estes, cumprindo os curiosos postulados da seita, ouriçam-se violentamente quando se relembra que os organismos públicos não são confessionais mesmo quando objectiva e ilegalmente protegem, promovem e viabilizam intervenções que seriam puro proselitismo se tivessem, ao menos, densidade teológica para tal!
Aos crucifixos, que ainda persistem nas paredes de escolas e juntas de freguesia, relembrando que prevalece sobre a civitas os dogmas do vaticano, associam-se estatuetas de patronos santificadas por cordões de ouro e notas de euro, alumiadas pelas lâmpadas fluorescentes que substituíram os círios, com benefício notório para a eternidade da luz (paga pelo contribuinte).
A tudo isto se somou a reformulação do protocolo de Estado, integrando o náufrago das veleidades monárquicas e retirando as eminências clericais, como a lei obrigava há muito. Mas, a natureza dos homens é fraca e nem todos os primeiros ministros têm o carácter e sentido de Estado de Zapatero.
Não acreditando em bruxas mas sabendo que elas existem, à cautela, Sócrates insiste na benção clerical na inauguração de uma nova escola e do ano lectivo. Não fosse o diabo tecê-las, até se persignou.
Consta também que terá anunciado, a propósito, um prémio de mérito para professores. Imagino que, na entrega, estará a sotaina de serviço e serão dadas graças ao altíssimo. Aos professores, nada lhes é poupado: aquela ministra, aqueles secretários de estado, aqueles sindicatos, esta brandura às vezes intolerável de viver em Portugal.
Prémio de mérito merecemos nós todos por suportarmos com estoica e (verdadeira) paciência franciscana o delírio, o oportunismo e o absoluto desinteresse público desta gente.
No estendal das inanidades com que nos brinda em cada intervenção pública, entre o hissope e a serpente, antes fosse ele, Sócrates, como a serpente, insinuante e sedutor! Pelo menos tem uma encadernação decente. Só os pastorinhos da cova da iria acreditavam que o diabo é feio, porco e mau.