sábado, 30 de Setembro de 2006


Estendal feminino
(VOLVER)


Laundry, Gil Elvgren

Pedro Almodovar volta a filmar mulheres na espanha secreta, entre a cidade, o subúrbio e o mundo rural em extinção. Mulheres sozinhas e sólidas na sua fragilidade vibrante e colorida, de afectos destroçados e violências trágicas, mas sem perderem nunca o dom do riso e da comédia.

Estendal solitário com flor



A FLOR DA SOLIDÃO

Vivemos convivemos resistimos
cruzámo-nos nas ruas sob as árvores
fizemos porventura algum ruído
traçámos pelo ar tímidos gestos
e no entanto por que palavras dizer
que nosso era um coração solitário
silencioso profundamente silencioso
e afinal o nosso olhar olhava
como os olhos que olham nas florestas.
No centro da cidade tumultuosa
no ângulo visível das múltiplas arestas
a flor da solidão crescia dia a dia mais viçosa.
Nós tínhamos um nome para isto
mas o tempo dos homens impiedoso
matou-nos quem morria até aqui.
(...)
Que nome dar agora ao vazio
que mana irresistível como um rio?
Ele nasce engrossa e vai desaguar
e entre tantos gestos é um mar.
Vivemos convivemos resistimos
Sem bem saber que em tudo um pouco nós morremos

Ruy Belo

sexta-feira, 29 de Setembro de 2006

Estendal anarco-constipado


Clínica La Milagrosa, Madrid - Lavandaria

O Piotr Kropotkine foi às cordas. Mas já está em acção. Ainda bem. Lavagens constipadas e estendais anarquistas como os dele nem n' A Batalha! Para fazer a ronda não existe melhor agência de recortes nem comentários mais certeiros ou mordazes. Para encerrar o expediente, nada como os seus espirros ruidosos! O anarca constipado só não é uma instituição porque morde, cospe e amachuca sem respeito nenhum a respeitável ortografia da prosa pátria.

Estendal emprestado daqui


LA ROPA EN LA VENTANA


Como falsos ahorcados en el aire

sus cuerpos vacilantes y vacíos,

desnudos de nosotros, brazos, piernas,

cinturas, pechos, cuellos, suspendidos.

Pasa la luz de enero entre los blancos

fantasmas con su frío.

Deshabitadas formas desvividas,

huecos humanos ateridos.

Esa silueta con que juega el viento,

ese perfil he sido.

Tus manos compañeras lo han salvado

con su dolor de qué tristes residuos.

En el aire tal vez me reconozco,

un poco soy bandera al viento herido.

Jirón que se estremece mudamente,

por un cristal me miro.

y no sé si es la ropa o es la vida

la que pende de un hilo.

Fernando Galán

segunda-feira, 25 de Setembro de 2006


A lavar noutras paragens durante alguns dias


Lavanderas del Manzanares, A. Ciaran Pedrazo



Lavagem deslumbrada




Amo os homens que desperdiçam talento em mundividências menores, renunciam à interpretação do universo - sua conversão ao logos - mas entusiasmados constroem uma cosmogonia pessoalizada. Na descrição do Mundo Sub-Atómico, do Inacessível e do Acaso, são minuciosos. Por vezes reconheço enaltecimento nesses projectos de luxo mas aprecio-lhes a magia, a transgressão e a tragédia herdadas dos mestres clássicos. Os contrapontos das suas figuras de estilo e a polifonia de paradoxos nos espaços imaginários das palavras lembram-me a metamorfose biológica dos sonhos.

Será inútil ferir esses homens, rodar os olhos com o movimento solar do Mundo - para alguns nado-morto, todos os anos; para outros, lugar incriminado com milénios à volta.

(...)

João Pedro Rosado, in Hermes e o Frigorífico

domingo, 24 de Setembro de 2006

Lavagem mansa enfeitiçada


sentir-te antes mesmo de pensar em ti
saber o ângulo dos teus braços quando chegas
rir na risada que calaste
medir-te o sorriso no compasso do que dizes
sentir as mãos que abandonas sobre a mesa
vacilar antes do beijo
perceber na alvorada o dia em que não estás
saber que a verdadeira sabedoria é
de cada vez não saber nada.

sábado, 23 de Setembro de 2006



Lavagens criminosas


Old Glasgow, Thomas Annan


Cinzenta, fria, deserta, intimidatória, é como está a avenida dos Aliados, no Porto.

Nem o Porto, melancólico, soturno, brumoso, romântico e desolado, como se veste no Inverno (para mim as suas melhores roupagens), nem os portuenses, nem o resto dos portugueses mereciam o que fizeram à sala de visitas da cidade.

As fotos de Carlos Romão, o brilhante retratista da cidade surpreendente, horrorizam-nos. Uma cidade não se renova com ódio e desprezo, mas com amor e ternura. Uma cidade não se lava com lixívia mas com sabão azul. Uma cidade cujos filhos acarinha, triste e luminosa, século após século, entre o rio, o mar, a outra margem, as escarpas agrestes, não merece tal sorte.

Estendal matinal com os Sopranos




WOKE UP THIS MORNING

You woke up this morning
Got yourself a gun,
Mamma always said you’de be
The Chosen One.
She said: You’re one in a million
You’ve got to burn to shine,
But you were born under a bad sign,
with a blue moon in your eyes.

You woke up this morning
All the love was gone,
Your Papa never told you
About right and wrong.
But you’re looking good, baby,
I believe you’re feeling fine, (shame about it),
Born under a bad sign
With a blue moon in your eyes.

You woke up this morning
The world turned upside down,
Thing’s ain’t been the same
Since the Blues walked into town.
But you’re one in a million
You’ve got that shotgun shine.
Born under a bad sign,
With a blue moon in your eyes.

When you woke up this morning everything you had was gone. By half past ten your head was going ding-dong. Ringing like a bell from your head down to your toes, like a voice telling you there was something you should know. Last night you were flying but today you’re so low – ain’t times like these that make you wonder if you’ll ever know the meaning of things as they appear to the others, wives, mothers, fathers,
Sisters and brothers. Don’t you wish you didn’t function, wish you didn’t think beyond the next paycheck and the next little drink? Well you do so make up your mind to go on, ‘cos when you woke up this morning everything you had was gone.

Love, Love, Love & The Doctor – Alabama 3

sexta-feira, 22 de Setembro de 2006


Lavagem de equinócio - estendal de Outono


No lavadouro, Luigi Chialiva

Hoje devia ser feriado. Devíamos regressar à natureza e festejar, como se as colheitas ainda fossem momentos colectivos de celebração e os frutos da terra crescessem ao sol e ao vento, protegidos por nós. Devíamos à noite celebrar o dia da melhor maneira que se festeja a vida - embriagados de luz e amor e palavras.

quinta-feira, 21 de Setembro de 2006

Lavagem fadista em dia de temporal
a distância entre fadista e cantora de fados é o arrepio que trespassa a alma e vara o coração. a aldina duarte, para quem ainda não saiba (mas pode confirmar
aqui) é fadista.


Lírio quebrado

Entreguei ao vento a morte

para ver se me esquecia

nem mais som nem movimento

acalmaram o mau tempo

no deserto em que vivia

corri praças roubei flores

em jardins cheios de gente

cruzei as rosas com lírios

numa teia de martírios

quase leve e transparente

a chorar a tua ausência

adivinho a tempestade

meu amor sem fantasia

entristece dia a dia

porque morre de saudade

aldina duarte, in apenas o amor

quarta-feira, 20 de Setembro de 2006



Lavagem melancólica para Setembro

Autumn wash, Nancy Wharf



Identities

Will you remember me Tatiana
when your map of this country is folded
when you see no more of the low tower and the hills
the humped bridge, the stream through the osier-holt?
We pause at the kissing gate,
the spinney twists into evening;
the wind travels far Tatiana
and you must follow
when "september" and "remember" rhyme
shall I rhyme them for a café translation
The hills wait as always for the caressing eye,
the eager feet of glory on the warning beacon;
over sucessive fields, breakers of hedge
lift to a legacy of skyline:
Will you remeber me Tatiana
as I cling to these landmarks and scars
which fade from your mind?
We stand here in the last of day,
the hills wait
the fields are a green sea
and nearer the light fails
changes and fades and our eyes
clutch line of branch
silhouete of leaf...
When Lazarus lies in his tomb and dead leaves
tremble in their forgetting dance,
will you remember me Tatiana?
Shall I come like a ghost to trouble you?
Tatiana, Tatiana, what will you remember?
Here, with your lips on mine,
who do you say I am?

Mathew Mead

terça-feira, 19 de Setembro de 2006


Lavagens desinteressadas


Lavandiére, Paul Guigou


Há dias assim, de costas voltadas para o estendal das coisas. No sábado não lemos a "Sol". O cardápio e os convivas pareciam demasiado deprimentes e nem a curiosidade dos primeiros números levou a melhor. Na primeira página, Isaltino Morais em vez de José Luís Judas. Porque é que, depois de tudo o que fez (e continua a fazer) no concelho de Cascais, os jornalistas gostam tanto dele que o poupam à exposição mediática (que à justiça já se percebeu que está poupado)?

Ontem, àquela inacreditável peixeirada ao vivo que passa à noite na RTP1, preferi as atribulações do dr House mas, reconfortada pelo desfecho, recusei sujeitar-me à revolta, ao desespero e à humilhação de ouvir meia dúzia de maduros destrambelhados a perorar sobre educação. Sobretudo depois de ter acabado de ler o prefácio de Bernard Lecherbonnier ao livro de Jean-Paul Brighelli "La fabrique du crétin - La mort programmée de l'école". Neste prefácio, Lecherbonnier evoca a política educativa colonial francesa na Argélia em finais do século XIX, princípios do século XX (1893/1900) para a população argelina. Como premonição, é aterradora. Como realidade é surrealista. Está tudo lá. O predomínio dos métodos orais em detrimento da escrita, a redução drástica da História, das Ciências, da Geografia, o desaparecimento da Gramática, da Literatura, do Ditado, da Ortografia, a aproximação ao método Berlitz. No que respeita, evidentemente, aos programas de estudo reservados aos indígenas, programa esse que constituíra uma vitória dos sectores mais progressistas defensores do acesso à escolaridade básica para as populações colonizadas.

segunda-feira, 18 de Setembro de 2006

Lavagens automáticas (para o Filipe)



Laundromat, Patricia Chidlaw


A Poem Containing

containing the word: launderette -
the words: finest equipment -
the words: oily overalls, horse tack and muddy
sports gear you must not (repeat underlined
must not) attempt to wash in these machines -
the words: load drum, amount detergent, add
appropriate, desired wash, select cycle, coin
in slot, proper amount, push slide, add before
Rinse Light ON, again after Rinse Light OFF,
not complete until Lid Light OUT (will not open
until Lid Locked Light is also) -
then by pressing the words (it distinctly says
pressing the words) High, Low, Permanent Press
as required, ensure you follow in sequence the
Start and re-pressing if need be -
each word as required, in sequence, expressing,
resetting -
in words and with words: a launderette,
containing a poem.
Gael Turnbull

domingo, 17 de Setembro de 2006


O poeta na lavandaria



Laundry man, Raena, Tasmânia

Exame

Feiticeiro sem deuses, reconheço
O limite dos meus encantamentos.
Só em raros momentos
De inspiração
Eu consigo o milagre de um poema,
Teorema
Indemonstrável pela multidão.

Mas é desse limite que me ufano:
Ser humano
E poeta.
Humildemente,
Com toda a paciência da terra,
Com toda a impaciência do mar,
Aguardo o transe, a hora desmedida;
E é o próprio rosto universal da vida
Que se ilumina,
Quando o primeiro verso me fulmina.


Miguel Torga


sábado, 16 de Setembro de 2006

Lavagens espirituais ou Ratzinger em Cascais

Foi assinada, no início deste mês, a cedência de terrenos em Alcabideche, Cascais, para a construção de uma igreja. Cascais é um dos concelhos mais ricos e dispendiosos do país. Os sucessivos executivos municipais, socialistas e social-democratas, descaracterizaram o concelho, atafulharam-no de betão e automóveis, destruíram património e transformaram cada mestre de obras num milionário. Alegremente e de mãos dadas, em cada executivo, socialistas e social-democratas pilharam recursos e malbarataram bens públicos, frequentemente à margem da lei e em total impunidade, a despeito de inspecções e inquéritos (arquivados ou prescritos).

Cascais hoje, e olhando apenas para o vizinho município de Oeiras , apresenta aos olhos de munícipes e forasteiros um desmazelo evidente nos seus espaços públicos e arruamentos, desde o mau estado dos pavimentos à inexistência ou abandono de bermas e passeios por onde transitam pessoas, veículos pesados e ligeiros. Tais vias, onde a iluminação é praticamente inexistente, são interrompidas por orgulhosas rotundas onde se exibe o mais deprimente e alarve mau gosto. Os equipamentos para crianças e jovens são reduzidos, mal planeados e de funcionamento cronicamente deficiente. Os transportes colectivos são caros, desarticulados uns dos outros e inadequados à realidade do concelho. Serviços públicos (como por exemplo piscinas) com forte investimento público, são cedidos à iniciativa privada, mas é esta que dita acessos e normas, prevertendo a sua natureza e defraudando o erário público. A dignidade das instituições e a indispensável participação dos cidadãos é sabotada com reuniões públicas em átrios esconsos e numa perene lamúria pela falta de recursos.

Neste contexto, poderia surpreender o recente entusiasmo vivido pelo actual executivo camarário com a construção de mais uma igreja no concelho. De acordo com António Capucho, o presidente, "não foi uma tarefa fácil, mas chegámos a bom porto. O terreno satisfaz plenamente a população paroquiana." Porém, são as declarações do Presidente da Junta de Freguesia de Alcabideche que são mais comoventes "nos próximos cinco anos, vai ser feito um grande investimento paroquial para tratar da alma e do espírito num cenário fantástico" e " Alcabideche e o concelho ganham um espaço muito importante para retiros espirituais".

sexta-feira, 15 de Setembro de 2006


Pré-lavagem musical
ante-estreia de "O assobio da cobra", no S. Luís a partir da próxima semana, em estendal roubado às Vozes da Rádio.
Ouvir aqui, com fortíssimo risco de contrair dependência.


La jeune lavandière, Firmin Baes

NUNCA PARTO INTEIRAMENTE
Nunca parto inteiramente,
não me dou à despedida
As águas vão simplesmente
presas à sua nascente
é do seu modo de vida
Fica sempre qualquer coisa
qualquer coisa por fazer
Às vezes quase lamento
mas são coisas que eu invento
com medo de te perder
Deixei um livro marcado
e um vaso de alecrim
Abri o meu cortinado
fiz a cama de lavado
para te lembrares de mim
Nunca parto inteiramente
Vivo de duas vontades:
uma que vai na corrente,
a outra presa à nascente
fica para ter saudades
João Monge

quinta-feira, 14 de Setembro de 2006


Lavagens preventivas


O cancro da mama é a principal causa de morte por cancro nas mulheres e a terceira principal causa de mortalidade em geral

Todos os anos na Europa são diagnosticados cerca de 384.000 novos casos, prevendo-se que 1 em cada 10 mulheres desenvolva cancro da mama na sua vida. Em Portugal estima-se que sejam diagnosticados 3.000 novos casos de cancro da mama anualmente.

O dia nacional de prevenção do cancro da mama é a 29 de outubro. Mas, até lá, cada uma sabe de si.

quarta-feira, 13 de Setembro de 2006

Estendal de tentações e bençãos




Claro que Portugal é uma república. Laica. Possui tambéma maior densidade per capita de católicos não-praticantes em toda a cristandade. Estes, cumprindo os curiosos postulados da seita, ouriçam-se violentamente quando se relembra que os organismos públicos não são confessionais mesmo quando objectiva e ilegalmente protegem, promovem e viabilizam intervenções que seriam puro proselitismo se tivessem, ao menos, densidade teológica para tal!

Aos crucifixos, que ainda persistem nas paredes de escolas e juntas de freguesia, relembrando que prevalece sobre a civitas os dogmas do vaticano, associam-se estatuetas de patronos santificadas por cordões de ouro e notas de euro, alumiadas pelas lâmpadas fluorescentes que substituíram os círios, com benefício notório para a eternidade da luz (paga pelo contribuinte).

A tudo isto se somou a reformulação do protocolo de Estado, integrando o náufrago das veleidades monárquicas e retirando as eminências clericais, como a lei obrigava há muito. Mas, a natureza dos homens é fraca e nem todos os primeiros ministros têm o carácter e sentido de Estado de Zapatero.

Não acreditando em bruxas mas sabendo que elas existem, à cautela, Sócrates insiste na benção clerical na inauguração de uma nova escola e do ano lectivo. Não fosse o diabo tecê-las, até se persignou.

Consta também que terá anunciado, a propósito, um prémio de mérito para professores. Imagino que, na entrega, estará a sotaina de serviço e serão dadas graças ao altíssimo. Aos professores, nada lhes é poupado: aquela ministra, aqueles secretários de estado, aqueles sindicatos, esta brandura às vezes intolerável de viver em Portugal.

Prémio de mérito merecemos nós todos por suportarmos com estoica e (verdadeira) paciência franciscana o delírio, o oportunismo e o absoluto desinteresse público desta gente.

No estendal das inanidades com que nos brinda em cada intervenção pública, entre o hissope e a serpente, antes fosse ele, Sócrates, como a serpente, insinuante e sedutor! Pelo menos tem uma encadernação decente. Só os pastorinhos da cova da iria acreditavam que o diabo é feio, porco e mau.


terça-feira, 12 de Setembro de 2006

Lavando coisas sérias a brincar



Em Faro adultos brincam com coisas sérias como se fossem rapazinhos. Brincam aos hospitais, às ambulâncias, aos helicópteros, aos heliportos, aos aeroportos. Fecham uns, chamam outros, deslizam pelas estradas, volteiam nos ares e quando se aborrecem, arrumam os carrinhos, os helicópteros, as ambulâncias, os heliportos, os aeroportos, os motoristas, os pilotos, os enfermeiros, os paramédicos e vão para casa.
Desta feita a irresponsabilidade matou um doente porque os helicópteros não podem aterrar à noite no heliporto do hospital e porque o areoporto de Faro está fechado de madrugada.

segunda-feira, 11 de Setembro de 2006


Lavagens telefónicas



Chegou-nos à lavandaria a notícia da criação de um número de telefone para apoio a professores vítimas de violência. Tão meritória e solidária ideia impõe concretização de elevada qualidade. Assim, sentámo-nos a conversar sobre o assunto e achámos que o atendimentos poderia muito bem ser feito por personalidades que publicamente têm manifestado interesse na escola e educação. Aqui vai:
a senhora ministra da educação e os senhores secretários de estado em exercício (aceitam-se reformados, nomeadamente a dona manuela leite e o senhor couto), o senhor paulo sucena, a senhora ana benavente, o senhor miguel sousa tavares, a senhora inês pedrosa, o senhor paulo feytor pinto, sem esquecer, evidentemente, o senhor roberto carneiro. As vítimas emudeciam com a surpresa, os voluntários sublimavam responsabilidades e azedumes e a santa madre agradecia o piedoso exercício.


Estendal protegido

Sofia Loren, Una Giornata Particolare, de Ettore Scola




Rodeio-me de música e poesia
como um casulo.
Pela mesa espalho livros, ligo as colunas,
e a luz que desce das janelas sublinha a melodia.
O silêncio que ergo, bloco a bloco, empurra
as frases sem sentido
os gestos pontuais dos dedos sobre as teclas.
O dia sulca a sala
por entre obstáculos
e vozes
e desliza ,
entre palavras e espantos ,
pelas minhas mãos inertes,
pousadas nos joelhos.

domingo, 10 de Setembro de 2006



Lavagem marxista


Washerwoman in Venice, Franck Duveneck


Um Homem no estendal, lavado no xatoo. José Mário Branco com a paixão e o carácter que faltam a Gore Vidal - O Império, o jornalismo, a civitas.

Estendal sentido




The seeking

The seeking of man for woman and of
woman for man
throws both upon a fire that they

mistake for love
as if such care for each other were
any more than an incidental spark
cast from the flaring timbers of
their splintered souls
to fuel the generations of mankind
and thaw the chill, not of their lives
but of some unimagined fortress
hall of loneliness
besieged on the farthest tongue of history

Gael Turnbull

sábado, 9 de Setembro de 2006


Estendal marítimo



Sugestão


O mar é grande por não ter sentido.
Por ser um verso azul feito de espuma,
E de fúria e de bruma,
E nunca se cansar dentro do ouvido.

Miguel Torga

sexta-feira, 8 de Setembro de 2006


Lavando com Alexandre O'Neill III


Wash day, Liz Walker

Da mulher que lavava, só vislumbro, agora, o alguidar de plástico verde balouçando no alto da colina. Trinta ou quarenta tanques, a meus pés, esperam novas rainhas. E novos companheiros.


Lavando com Alexandre O'Neill II

Laundry Room, Pam Coulter

Quando aluguei a minha casa, que é uma casa velha renovada, vi que não tinha lugar para uma lavadeira eléctrica e para o lavarroupa de cimento. Inamovível, nas suas esquinas que não seria possível bolear, o lavarroupa bem podia servir-me, espaço houvesse, para guardar garrafas vazias, jornais velhos, baratas. Um tampo de madeira cobriria o todo. Mas não. Ou o tanque ou a lavadeira. O tanque, quadrado, pertencia ao senhorio. Que fazer?
O homem que me ia vender a máquina automática de lavagem programada inspeccionou o cenário onde trambolhava a minha hesitação. Tirou medidas, localizou saídas e entradas de água, perguntou-me se eu não queria pôr o frigorífico na sala de jantar (Com uma renda por cima fica bem!)
Disse-lhe que não.
- Só vejo uma solução: desfazer-se do tanque.
- Mas como? Não posso deixá-lo à porta. Ainda por cima é propriedade do senhorio…
- Isso não tem importância. Se for embora põe lá outro. São baratos.
- Muito bem. Então que devo fazer?
- Chame uns homenzinhos…
- Que homenzinhos?
- Não sei… Talvez desses que fazem mudanças.
- E para onde mando mudar o tanque?
- Eles levam-no e arreiam-no em qualquer lado…
O homem dos electrodomésticos ria. Estaria ele a ver o tanque largado numa praça tão central como o Rossio e a ganhar as proporções de um monumento? Mas o riso feneceu-lhe quando eu, de improviso, lhe cantei a canção-do-cliente-que-só-compra-se-o-vendedor-levar-o-tanque.
Levou.
Facturou mais cem escudos de “gorjetas aos homenzinhos”.

...



Lavagens com nuvens

A Rhenish river landscape with fisherman in a boat, Johannes Hilverdink

Chegou-nos finalmente às mãos "The Cloudspotter's Guide", de Gavin Pretor-Pinney. Para quem gosta de andar com a cabeça nas nuvens existe também a página oficial da Cloud Appreciation Society . Tipologias de nuvens, poesias, textos avulsos e maravilhosas fotos levam-nos para o alto, bem longe do pacto da justiça, das escutas do apito dourado, do caso mateus, do encerramento de escolas, dos incêndios, dos engenheiros em trânsito para o iraque, do novo semanário, do túnel do rossio....

Lavando com Alexandre O'Neill


O CEMITÉRIO DOS TANQUES LAVARROUPAS


Agrupados no terreno baldio, os tanques lavarroupas, sobras de uma cidade que, em poucas décadas, passou das lavadeiras de Caneças às lavadeiras eléctricas, do vaivém dos braços à rotação dos tambores, impõem-me a fácil analogia com animais no pasto. Deixo-a para os fotógrafos caçadores de pitoresco. Num dos tanques, que são trinta ou quarenta cinzentos cubos providos de uma rampa canelada, fixa a uma das arestas superiores como tampa de caixa a meio caminho entre o aberto e o fechado, uma mulher lava roupa. “É pobrezita, está alegre e cantarola”, como diria um Cesário sem talento. Nem é bem roupa o que ela lava, mas panos indefinidos, superfícies de geometria variável que bruscamente tomam as formas familiares de as cuecas, a toalha, o sutiã, a combinação…
(À distância a que, na rememoração, me encontro, não vejo senão o pardo como cor possível para aqueles panos que entram e saem da água, mas talvez por lá tenha ficado algum cor-de-rosa.)
A mulher reina sobre aqueles tanques e não me surpreenderia vê-la mudar de uns para os outros como quem tem muito por onde escolher.

(Ou então não reina coisa nenhuma e terá de lavar em cada e em todos para se libertar, meter a roupa no alguidar e seguir para casa.)
O sítio é subúrbio. Baldio, mas já com uma guarda avançada de prédios novos a assomar por detrás da colina sobranceira.
A mulher torce uma coisa que talvez seja o último pano.
Era.
De alguidar de plástico (verde) à cabeça, a rainha dos tanques toma o caminho da colina, em direcção aos prédios novos.

...


quinta-feira, 7 de Setembro de 2006



Lavando com António Ramos Rosa II



Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco íris de de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.


quarta-feira, 6 de Setembro de 2006


Lavagens- variações

Wash-house, William Orpen

Washer woman, Martin Driscoll
A lavadeira de Orpen soergue-se, em esforço, à aproximação de uma figura (alada?) que desce as escadas na sua direcção e das sombras que a rodeiam.
A lavadeira de Driscoll está no exterior, contra uma parede branca. Imobilizada, olha fixamente para além da cena.
Mudou o cenário, mudou a luz, mudaram as emoções. Ao esforço substituíu-se o nada, a espectativa. À luz difusa, a luz directa. Prefiro a primeira mas percebo que atravesso agora a segunda.
Lavagem medieval




Ler o Diário Ateísta é enfrentar que nunca realmente saímos da Idade Média. Ou que esta renasce, travestida, mais uma vez, de milenarismo libertador.

Hoje, no Público JMF tenta glosar o tema à porta da sacristia, pedindo moderação onde ela não cabe. O santo ofício virá depois.

terça-feira, 5 de Setembro de 2006

Estendal de fogo

Laveuses, Camille Pissarro

Arde o Parque Nacional da Peneda-Gerês. Arde o Parque Natural da Serra da Estrela. Mas há muito que ardeu a relação entre os responsáveis/funcionários dos Parques e a população. Há muito que ardeu entre o ICN e os sucessivos governos. E já há algum tempo que está a arder no próprio ICN.
A negligência, o calor, o vento, apenas facilitam o desinteresse de muitos e a cupidez e ganância de alguns. Assim perdemos as nossas raízes vivas, assim abandonamos a terra mãe à sorte dos homens.


segunda-feira, 4 de Setembro de 2006

Lavagens impróprias



Ainda sobre o afastamento das duas técnicas das Oficinas de S. José, as nódoas que persistem são:

- a morte de um sem abrigo, depois de tortura continuada às mãos de um grupo de internos dessa instituição;

- a existência, denunciada por estas duas técnicas, de maus tratos sobre internos e graves deficiências de condições de higiente na instituição;

- inexistência de um projecto educativo, como a lei obriga, que sustente a sua existência como instituição de acolhimento juvenil a jovens em risco;

- a ausência de responsabilização e controlo por parte dos organismos públicos responsáveis por este tipo de organismos, face às denúncias e às inacreditáveis declarações públicas dos dirigentes da instituição e da federação a que esta pertence;

Como é que se consegue lavar coisas destas?

domingo, 3 de Setembro de 2006


Pré-lavagem em vésperas de retorno



Poupar o coração

É permitir à morte

coroar-se de alegria.

Eugénio d Andrade


sábado, 2 de Setembro de 2006


Lavagem amorosa


Lovers doing laundry, Francesca Zeal Harris

"Lujuria"

No puede haber pecado en esta entrega,
en este deshilarse impidiendo la nada,
en este acto de fe.
Que a nadie se le ocurra venirnos con un cuento
lleno de represión y negaciones.
Quien no percibe la generosidad
de mi piel y tus manos
no debe hablar.

Amalia Bautista

sexta-feira, 1 de Setembro de 2006


Estendal com galináceas


Chicken laundry, Amy Huntington

Lavadeiras, lavadeiras lavando roupa, estendendo roupa, dobrando roupa. Comentando, maldizendo, intrigando. Em suma, esgravatando, cacarejando e bicando. Torpes gerúndios!