quinta-feira, 31 de Agosto de 2006


Estendal efeméride

Washerwoman, Ásmundur Sveinsson, 1937

Um ano hoje, nestas lavagens emprestadas. E foi um bom ano. Trabalho, diversão, prazer, resultados. Os detergentes lavaram bem (roupa clara, roupa escura, roupa de cor), o vento soprou no estendal e a secadora completou o que a natureza não quis oferecer. Lavadeiras e lavadores (na praia, só conheço lavadores na praia dos lavadores!) trabalharam, entre risos e canções, em singela (e inesperada) harmonia.

Talvez não seja o dia para lembrar que o bom é inimigo do óptimo....

quarta-feira, 30 de Agosto de 2006

Lavagem a quente



Alerta amarelo. Calor outra vez. O vento forte a revolver a roupa e a deixá-la quase de papelão na corda. Estendais a arder, como se o fogo explodisse sempre que o vento sopra mais forte e a temperatura do ar sobe.

As férias esconderam esta depressão de país e arrastaram os grandes temas em que travestimos o verão. Os incêndios florestais, os escândalos do defeso futebolístico. E assim, ainda não resolvemos a estação tola e já avançam as hordas do outono, encabeçadas pelo golpismo lamuriento das editoras escolares.

Claro que está calor. O verão ainda não acabou!Mesmo que a rentrée seja em setembro em vez de outubro, o sol não quer saber dos esquemas dos homens.

terça-feira, 29 de Agosto de 2006


Galeria lavandaria


Dejeuner des laveuses, Jean Eugene Buland

Ao almoço.

Um almoço é feito de conversa, comida e bebida. Almoçar com um tabuleiro sobre a mesa, com o prato, o copo e o talher definidos por esquadria não permite grandes conversas. Um individual, por mais fashion ou tradicional que seja também não entusiasma a troca de ideias. Mas enfim, às vezes acontece e, vendo bem as coisas, só depende de nós que aconteça. Almoçar com toalha e guardanapos na mesa, ou é refeição de trabalho ou refeição familiar (ou social). E o tempo, ou o que permitimos que façam dele, conspira contra o almoço-conversa. Conspira contra o bom vinho, que solta a língua e ilumina a cabeça e depois impõe descanso; conspira contra a conversa, que deve escorrer e parar e recomeçar num ritmo marcado pela comida, pela bebida e pelo acaso.

E se tudo isto for verdade, o almoço-conversa sobreviverá. A ameaça verdadeira, a sentença de morte está na maquineta telefónica que já não se desliga e que domina totalmente qualquer espaço de almoço colectivo. Quantos almoços já sofremos entre toques, clips de música, canções inteiras? Quantos almoços já assistimos, sem outra conversa que não a que cada um mantém com o aparelho? Do almoço-conversa à refeição telefónica fica o espaço da nossa vontade e da vontade dos outros. E a vontade dos outros invade-nos. E expulsa-nos.






segunda-feira, 28 de Agosto de 2006


Lavagens tradicionais


Laveuses sous le pont, Hubert Robert

A "tradição" das praxes académicas.

Aquilo a que os responsáveis pelas instituições do ensino superior, as associações de estudantes e as inenarráveis "comissões das praxes" chamam tradição, tem, quando muito e com a excepção de Coimbra, uns vinte anos. Grande tradição, num país com oitocentos anos!

Compreende-se que os institutos politécnicos e os inúmeros pólos de vários institutos e universidades privadas tenham procurado estabelecer, se não (à falta de?) referências científicas, pelo menos um cerimonial "tradicional" que os credibilizasse como instituição académica. Daí a tolerância e indiferença dos responsáveis perante a alarvidade, violência e degradação que as ditas praxes foram rapidamente incorporando.

O que é surpreendente (e casa bem com o deslumbre oportunista e pindérico com que se abraçou o processo de Bolonha) é que face à cada vez maior denúncia pública e social das humilhações e abusos infligidos aos caloiros, nada foi feito pelas instituições. O mais inacreditável foi ter-se criado a figura do "objector de consciência" das praxes. Neste triste universo, era inevitável o recurso aos tribunais (embora infelizmente raro, o que se compreende pelo clima intimidatório e pela celeridade da justiça em Portugal).

Seguindo também a "tradição" mais recente na jurisprudência nacional, o último acordão foi um insulto à inteligência e ao bom senso. Teria o magistrado já sofrido e infligido praxes também?

domingo, 27 de Agosto de 2006



Lavando com António Ramos Rosa II




Aqui mereço-te


O sabor do pão e da terra
e uma luva de orvalho na mão ligeira.
A flor fresca que respiro é branca.
E corto o ar como um pão enquanto caminho entre searas.
Pertenço em cada movimento a esta terra.
O meu suor tem o gosto das ervas e das pedras.
Sorvo o silêncio visível entre as árvores.
É aqui e agora o dilatado abraço das raízes claras do sono.
Sob as pálpebras transparentes deste dia
o ar é o suspiro dos próprios lábios.
Amar aqui é amar no mar,
mas com a resistência das paredes da terra.

(...)

sábado, 26 de Agosto de 2006

Lavagem al tempo
Leo Ferré cantou o tempo e a solidão quando as lavadeiras portuguesas se dividiam entre as leituras da Vogue, da Jours de France, dos Cahiers du Cinéma, do Paris-Match, do Nouvel Obs, do Rock & Folk ou da Salut les Copains. Les Inrockuptibles, a Depeche Mode ou o Politique Hebdo eram lavagens à parte!


AVEC LE TEMPS
Avec le temps...
Avec le temps va tout s'en va
On oublie le visage et l'on oublie la voix
Le coeur quand ça bat plus s'est pas la peine d'aller
Chercher plus loin faut laisser faire et c'est très bien
Avec le temps...
Avec le temps va tout s'en va
L'autre qu'on adorait qu'on cherchait sous la pluie
L'autre qu'on devinait au détour d'un regard
Entre les mots entre les lignes et sous le fard
D'un serment maquillé qui s'en va faire sa nuit
Avec le temps tout s'évanouit
Avec le temps...
Avec le temps va tout s'en va
Même les plus chouettes souvenirs ça t'as une de ces gueules
A la Galerie Farfouille dans les rayons de la mort
Le samedi soir quand la tendresse s'en va toute seule
Avec le temps...
Avec le temps va tout s'en va
L'autre à qui l'on croyait pour un rhume pour un rien
L'autre à qui l'on donnait du vent et des bijoux
Pour qui l'on eût vendu son âme pour quelques sous
Devant quoi l'on se traînait comme traînent les chiens
Avec le temps va tout va bien
Avec le temps...
Avec le temps va tout s'en va
On oublie les passions et l'on oublie les voix
Qui vous disaient tout bas les mots des pauvres gens
Ne rentre pas trop tard surtout ne prends pas froid
Avec le temps...
Avec le temps va tout s'en va
Et l'on se sent blanchi comme un cheval fourbu
Et l'on se sent glacé dans un lit de hasard
Et l'on se sent tout seul peut-être mais peinard
Et l'on se sent floué par les années perdues
Alors vraiment
Avec le temps on n'aime plus...


sexta-feira, 25 de Agosto de 2006

Estendal do Zoltrix, em férias





Nota: Agradece-se legenda e contexto, se existirem...

quinta-feira, 24 de Agosto de 2006


Memórias de estendais norte-americanos nos anos 50




Entre o estendal e a secadora, sem considerações ambientais, nostalgia da roupa lavada, batida pelo vento e pelo sol.

quarta-feira, 23 de Agosto de 2006

U
m estendal assim, ao jeito de Alexandre O'Neill




Passagem por outros estendais

Querida lavadeira - De novo o mistério das meias desaparecidas (ou como dar uma enxaguadelazinha na silly season)


Pronto. Já percebi que a velha Albion, depois de construir um império onde o sol nunca se punha, resolveu, em declinação nocturna, o mistério insuportável das meias desaparecidas. Não sei se o mérito é do senhor Blair ou da real família, ultimamente muito sossegada (apesar dos saudáveis deslizes juvenis da geração menos empalhada) mas aqui na lavandaria agradecemos. Agora é só arranjar uma boleia num charter, daqueles que desaguam em Faro todos os dias, para ir procurar as meias desaparecidas. E já são onze, viúvas de par, que jazem no cesto!

Quanto ao mistério da volatilização em Portugal e materialização no Reino Unido não tenho explicação. Mas eu não percebo nada de têxteis, é um facto!

terça-feira, 22 de Agosto de 2006



Estendal matinal


Washline, Janet Dixon


Só o desejo é matinal.

Eugénio de Andrade

segunda-feira, 21 de Agosto de 2006


Estendal de género


Tennyson Street Laundry Centre, Clapham

Ontem à tarde, numa esplanada, estive a ouvir discorrer dois professores, entre o divertido e o preocupado, sobre a quase total e irreversível feminização da escola.

Como, nos conselhos de turma, eram os únicos homens presentes, para não falar de outros conselhos de turma exclusivamente constituídos por mulheres. Calculei que se deviam sentir como a única mulher de um conselho de admistração de uma grande empresa! Mas não me parece que isso os animasse. De qualquer modo, estou com eles. Afinal, se pode ser desagradável ser o único homem entre 14 ou 15 mulheres, também é desagradável ser-se mulher num conselho de turma de 14 ou 15 mulheres. Pelo menos para mim.

Os encarregados de educação são, aliás, encarregadas de educação, de modo que também nos conselhos de turma os representantes dos pais/encarregados de educação são mulheres.

Finalmente, como um deles, à hora do almoço, encontrava apenas mulheres na escola, entre a sala de professores, o bar e o refeitório. De como descobrira, por acaso, que os restantes professores homens se refugiavam, literalmente, no único snack bar das redondezas, invadidas , ainda por cima, por pastelarias e casas de quiches.

Numa coisa estou de acordo com os professores da esplanada. Para os alunos também é terrível.


domingo, 20 de Agosto de 2006

Lavando com Ruy Cinatti



O que se passa em mim é um prodígio.
Um sim que se dilata
até perder o sentido
longe, como o balão
fugido da criança.
Um sim, transgredido,
arremetido
à estupidez do ouvido,
da razão.
Um sim que quando explode me diz não
com delicadeza.

sábado, 19 de Agosto de 2006

Lavagens escolhidas, em fim de semana




"Des deux, lune. L'autre c'est le soleil"

Jacques Prévert


sexta-feira, 18 de Agosto de 2006

Estendal de roupa suja

Airing the Dirty Laundry, Anna Boudreau

Primeiro foi a lista dos devedores ao fisco. Agora é a lista dos devedores à segurança social. Num país em que a delação foi profissão, part-time e biscate até há bem pouco tempo, não deixa de ser sinistra esta exposição pública, sancionada pelo Estado.

Para quê? Quem defrauda a segurança social não deve ter propriamente pruridos em estar identificados algures on-line. No que respeita a negócios com o Estado, sabe-se que é possível contornar o impedimento. Quanto ao público em geral, receio bem que o sentimento seja de admiração face ao expedito prevaricador a quem o Estado, aparentemente, se limita a divulgar a falta.

Ou será apenas parte do calendário de introdução da Lei de Lynch, versão brandos costumes? Mobiliza-se a comunicação social nos casos dos nomes mais sonantes e enxovalha-se a família, os vizinhos, a localidade/bairro?

É um governo bonito para um país bonito, onde a roupa suja se areja no estendal (com o selo branco da República) em vez de se lavar.

quinta-feira, 17 de Agosto de 2006


Lavagens branqueadas



Clothes Drying, Pál Szinyei Merse


O Parque Nacional da Peneda-Gerês ardeu durante sete dias. O governo não considera que estejam reunidas as condições para que seja declarada calamidade pública. Afinal "não houve destruição de bens materiais, como habitações".

Infelizmente, não espanta. Primeiro aliena-se a população local. Depois suprimem-se os fundos, incluindo os mínimos indispensáveis à manutenção e sobrevivência. A seguir nomeia-se para a direcção da tutela o seu próprio coveiro. É mais do que uma morte anunciada, é uma morte planeada.


quarta-feira, 16 de Agosto de 2006


Estendal camoniano

Laundromat, L'amour en noir et blanc

Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como, e dói não sei porquê.

Luís de Camões

terça-feira, 15 de Agosto de 2006


Estendal 15 de agosto





A jeun perdue glacée
Toute seule sans un sou
Une fille de seize ans
Immobile debout
Place de la Concorde
A midi le Quinze Août
Jacques Prévert, Paroles

segunda-feira, 14 de Agosto de 2006

Lavagens moderadas, em Agosto


Lavanderia, Nicole Kennedy



domingo, 13 de Agosto de 2006

Galeria lavandaria


Laundry study, Fred Doloresco
Verão. Calor. Arrumações. Limpezas. Vai-e-vem ecoponto. Cansaço. Banhos prolongados. Rede. Uma bebida para saudar a brisa atlântica. Uma cigarrada para sintonizar no efémero. Chuva des estrelas. Lua de Agosto. Lavagens simples da existência.

sábado, 12 de Agosto de 2006



Galeria lavandaria


Washing by the river at dawn, Samuel Rothbort

sexta-feira, 11 de Agosto de 2006

Lavando com António Ramos Rosa




Eis os instrumentos
no vagar da terra

A ordem é do mar
com seu repouso manso
Os objectos e os dias
têm as suas pontes
onde a leveza é densa
Há pratos onde o silêncio
salvou o tempo
e faixas de luz
que a mão bebe.

quinta-feira, 10 de Agosto de 2006

Estendal incendiado




Estendais por esse país, a arder. Viseu, Valpaços, Mafra, Marco de Canaveses, Palmela, Penafiel, Porto de Mós, Vieira do Minho, Vagos, Pombal, Montemor-o-Velho, Caldas da Rainha, Braga, Melgaço, Chaves, S. Pedro do Sul.
Ao que parece, a maioria por negligência, segundo afirmou o senhor ministro da administração interna, a autoridade política responsável. Negligência? Negligência? E se é, como é que se mantém, ano após ano?

quarta-feira, 9 de Agosto de 2006


Outros estendais


Lamúria post férias:

Aquelas lulinhas, deviam ter sido grelhadas ou fritas? E o polvo assado da feira, com aquele cheirinho fatal, que desdenhei? E o arroz de lingueirão, que não voltei a repetir? E as ostras que prometi trazer para casa e me esqueci? E as bruxinhas, que deixei para outro dia e depois não voltaram a aparecer? E os sargos, de Sagres, acabadinhos de chegar, que troquei por mais umas irresistíveis sardinhas que me apareceram no prato a exigir que as honrasse? E os percebes, ainda enredados em limos, a trazerem as falésias vicentinas para a mesa?

terça-feira, 8 de Agosto de 2006

Galeria lavandaria


Waschtag, Christian Sommer

segunda-feira, 7 de Agosto de 2006

Lavagens a bordo (adeus férias)


É urgente o amor.

É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,

ódio, solidão e crueldade,

alguns lamentos,

muitas espadas.

É urgente inventar alegria,

multiplicar os beijos, as searas,

é urgente descobrir rosas e rios

e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz

impura, até doer.

É urgente o amor, é urgente

permanecer.

Eugénio de Andrade

domingo, 6 de Agosto de 2006


Lavagem de férias II

Jour de lessive, René Genis

Nem Miguel Torga, nem Aquilino Ribeiro, nem António Gedeão - para citar os mais evidentes e pacíficos- constam da lista de autores aconselhados no confrangedor Plano Nacional de Leitura . Alguma coisa de Sophia de Mello B. Andersen e Alves Redol constituem a cedência envergonhada à literatura portuguesa. Quanto ao resto, basta consultar as listas para compreender que para os sucessos editoriais de Margarida Rebelo Pinto não é preciso um Plano Nacional de Leitura.

Desde há muitos anos, sempre que navego nas águas da Expansão (8º ano de escolaridade, que o secundário já não permite estas frescuras) que leio com os meus alunos Camões, Pessoa, Sophia, Gedeão, Pessanha, Moraes. E sempre, ano após ano, em escolas muito diferentes, os vi tímidos ao princípio, depois empolgados e maravilhados na sua leitura. E o que sentia, comovida e revoltada, é a sua fome e sede de poesia, da magia das palavras feitas música e reconstrução da vida. Hoje reduziram-nos as horas semanais e o tempo de que dispomos é terrivelmente pouco, criminosamente pouco. Não foi, porém, uma imposição europeia, nem uma fatalidade demográfica. Foi uma atitude deliberada e racional de quem fez da educação um assunto de linha de montagem e contabilidade.

Por isso sei que os tecnocratas das ciências da educação não estão de boa fé. E o que vejo é que são os coveiros da literatura e da memória, e promovem uma escrita em que o adoçante substituiu o mel, o vinagre o sangue, a patetice a alegria e a indiferença a emoção. Que bibliotecas vão erguer com tais ingredientes é que nem quero imaginar!

sábado, 5 de Agosto de 2006

Estendal de férias IV



Clothesline, Donna Burgess
Através do teu coração passou um barco
Que não pára de seguir sem ti o seu caminho
Sophia de Mello Breyner
Lavagem de férias




Trabalho com adolescentes há cerca de 25 anos com a intensidade e interesse que o ensino supõe e exige. Conheci milhares, muitos no espaço de um ano lectivo, outros ao longo de um ciclo de escolaridade. Nenhum deles encararia a tortura continuada que culminou na morte de um sem abrigo, doente e vulnerável, como "brincadeira de mau-gosto" e "leviandade", como esclarece o acordão do colectivo de juízes que julgou o caso. Nenhum deles, nem tão-pouco os que protagonizaram este crime hediondo.

Quase mais insuportável que o crime - que me perdoe a vítima - é a sentença. Quem é esta gente que julga da vida e da morte como se elas não existissem?

sexta-feira, 4 de Agosto de 2006

Estendal de férias II




Há alguns anos, ainda, quando nos estendíamos na areia depois longos banhos no mar, o mesmo sol que nos aquecia iluminava o casario branco que recortava o céu, azulíssimo. No sotavento, o calor parecia nascer da brancura das dunas e, subterraneamente inflamar o mar. A barlavento, as falésias disputavam ao vento a frescura das águas e os gritos das gaivotas.

Hoje não. O sol reflecte, desesperado, as torres de betão que, em litígio com as gruas, invadem a imensidão azul. À faina diária dos mesteres, ao marulhar da água nos mercados, à frescura inesperada das sombras, irrompeu o ar climatizado dos supermercados, os botes dos circuitos turísticos, as vendas de quinquilharias em cubículos berrantes. Mas o areal persiste, acolhendo os trabalhadores da melanina, que apenas mergulham no mar o tempo de mais uma volta na marca do fato de banho. Às vezes a nortada reclama os seus direitos e a multidão abala, defraudada e áspera. É nessas alturas que na praia ficam aqueles que a amam. E que entre o areal revolto e as águas límpidas reencontram o velho equilíbrio da natureza e do espaço que esta nos dispõe, naturalmente.



Estendal de férias I



Em Beirute não há férias. Há sofrimento, sangue e destruição. Por entre as ruínas e a devastação dos bombardeamentos israelitas, alguém persiste em manter as rotinas diárias. Para não enlouquecer? Para resistir à morte? Para não sossobrar no horror e no desespero?
Enquanto isso, voluntários corajosos e abnegados ajudam a minimizar as terríveis consequências da brutalidade continuada de Israel. Quantas mais crianças morrerão ainda? Quantos mais serão mutiladas? Quanto mais tempo assim?

quinta-feira, 3 de Agosto de 2006

Estendal cinquentenário





Há cinquenta anos que o Jorge, com energia, muito humor e imensa verve, lava, esfrega e areja a vida de familiares, amigos, conhecidos, vizinhos, colegas, o país e o mundo em geral.
Ora isto parecendo banal mas talvez, vá lá, um pouco trabalhoso, é na realidade uma tarefa hercúlea e assombrosa. Quer pela sua própria natureza, quer pela vida profissional, o Jorge calcorreou Portugal inteiro e, em cada canto, deixou improváveis amigos, surpreendentes devotos, previsíveis admiradores.
Para além disso fez escola. Literalmente. Não se tem impunemente como professor de História alguém com o saber e o carisma do Jorge. O Jorge é o professor que todo o aluno e toda a escola merece, pelo menos uma vez na vida. É o director de turma ou delegado com quem qualquer professor que ama a profissão aspira trabalhar. Claro que, por tudo isso, pode ser um espinho cravado no flanco de um conselho executivo, um osso duro de roer para os tecnocratas das ciências da educação.

O Jorge é também, evidentemente, o amigo que nós merecemos e que esperamos da vida. É o estratega competentíssimo de uma campanha salvadora, o observador perspicaz e irónico de esquemas movediços, o ombro imenso e sabedor de mágoas variadas e o parceiro ideal de surtidas sociais.

Posto isto, eu, que detesto efemérides (apesar de fazerem parte da minha profissão), suspendi estendais de férias mansas para participar nesta grande e especial lavagem. Não sei quem está de parabéns, realmente. Se o Jorge, por completar todos estes anos de alegria e força de viver, se nós, amigos, admiradores, devotos, incondicionais, por o adorarmos e seguirmos há tanto tempo!

Muitas mais lavagens, pois, ao Jorge, e sempre connosco por perto!