
No exame de Português (ou Língua Portuguesa) de 9º ano foi pedido como exercício aos nossos infantes que escrevessem uma missiva. Afinal instruídos, para não dizer versados (ao contrário do que aparentemente seria de supôr atendendo à constatação diária, e não nos referimos ao universo escolar....), nas artes da prosa epistolar, os nossos adolescentes lá cumpriram as instruções. Como em qualquer mensagem mais formal (aparentemente alheios aos efeitos devastadores de mails e sms), lá agraciaram a prosa com o inevitável destinatário, local/data e respectivo remetente. Esta fineza, com a qual os doutos autores da prova definitivamente não contavam (?) de imediato pôs em causa o anonimato da prova, exigência governamental e que desde o ano lectivo transacto tem proporcionado momentos de laborioso entretenimento aos aborrecidos e desocupados docentes que infestam as escolas públicas nacionais (vulgo secretariado de exames).
Divididos entre o espanto por mais este momento de desleixo e incompetência (o historial das instruções para correcção de exames, tanto no ensino básico como no secundário está por fazer, mas suponho que em termos literários dificilmente ultrapassará a referência kafkiana, embora temperada por laivos de humor tão negro quanto trágico), e algum orgulho pelo desempenho da "turba ignara", o problema colocava-se com premência, dados os curtíssimos prazos de correcção das provas (este historial também está por fazer, embora o registo realista possa trazer problemas jurídicos de monta aos eventuais autores...).
Mas impõe-se alguma justiça na lavagem. As luminárias da 24 de Julho resolveram a situação, a bem da epistolografia e da legislação em vigor: os membros das centenas de secretariados de exame por esse país foram intimados a vistoriar cada prova, uma a uma, censurando as palavras que ofendessem o anonimato. Os autores da prova - esses bem protegidos pelo sigilo profissional - bem podem limpar as mãos à parede...permitiram que, em final de ano, se esvaziassem esferográficas e recargas de canetas. Bem hajam!




















