sexta-feira, 30 de Junho de 2006

Exames, anonimatos e outras lavagens


No exame de Português (ou Língua Portuguesa) de 9º ano foi pedido como exercício aos nossos infantes que escrevessem uma missiva. Afinal instruídos, para não dizer versados (ao contrário do que aparentemente seria de supôr atendendo à constatação diária, e não nos referimos ao universo escolar....), nas artes da prosa epistolar, os nossos adolescentes lá cumpriram as instruções. Como em qualquer mensagem mais formal (aparentemente alheios aos efeitos devastadores de mails e sms), lá agraciaram a prosa com o inevitável destinatário, local/data e respectivo remetente. Esta fineza, com a qual os doutos autores da prova definitivamente não contavam (?) de imediato pôs em causa o anonimato da prova, exigência governamental e que desde o ano lectivo transacto tem proporcionado momentos de laborioso entretenimento aos aborrecidos e desocupados docentes que infestam as escolas públicas nacionais (vulgo secretariado de exames).

Divididos entre o espanto por mais este momento de desleixo e incompetência (o historial das instruções para correcção de exames, tanto no ensino básico como no secundário está por fazer, mas suponho que em termos literários dificilmente ultrapassará a referência kafkiana, embora temperada por laivos de humor tão negro quanto trágico), e algum orgulho pelo desempenho da "turba ignara", o problema colocava-se com premência, dados os curtíssimos prazos de correcção das provas (este historial também está por fazer, embora o registo realista possa trazer problemas jurídicos de monta aos eventuais autores...).

Mas impõe-se alguma justiça na lavagem. As luminárias da 24 de Julho resolveram a situação, a bem da epistolografia e da legislação em vigor: os membros das centenas de secretariados de exame por esse país foram intimados a vistoriar cada prova, uma a uma, censurando as palavras que ofendessem o anonimato. Os autores da prova - esses bem protegidos pelo sigilo profissional - bem podem limpar as mãos à parede...permitiram que, em final de ano, se esvaziassem esferográficas e recargas de canetas. Bem hajam!

quinta-feira, 29 de Junho de 2006

Lavagens colectivas



Lavagens em condições mais difíceis que nunca, conseguiram levar mais um ano lectivo a bom termo. Na foto, raparigas bascas refugiadas em Inglaterra, durante a Guerra Civil de Espanha.



quarta-feira, 28 de Junho de 2006

À pedrada, no estendal...


O homem é autarca. Preside, também, à associação nacional de municípios portugueses. É adepto da lapidação e, o que não deixa de deprimente tendo em conta as suas responsabilidades, prefere que sejam os outros desempenhar essas funções punitivas ao mais puro estilo caciqueiro. Ou bíblico, mas sem a encadernação cristã!

O protagonismo da abencerragem insular tem sido profundamente injusto. O que não falta por esse país são edições modestas, na notoriedade, mas imensas na condição, que mantenham bem viva esta tradição local de aventesmas eleitas.

O mote poderia ser a prepotência do Terreiro do Paço, as finanças locais, as dívidas autárquicas, o Orçamento, as idiosincrasias administrativas municipais, mas não. É o ambiente. O ordenamento do território. Coisa obscena e pecaminosa a exigir uma cruzada justiceira. Esperamos, aqui na lavandaria, que depois da exortação do autarca e presidente da associação dos municípios, os zelosos cidadãos não se proponham avaliar os professores dos filhos à maneira do senhor fernando ruas!

terça-feira, 27 de Junho de 2006

Estendal (quase) surrealista




La grasse matinée

Il est terrible
le petit bruit de l'oeuf dur cassé sur un comptoir d'étain
il est terrible ce bruit
quand il remue dans la mémoire de l'homme qui a faim
elle est terrible aussi la tête de l'homme
la tête de l'homme qui a faim
quand il se regarde à six heures du matin
dans la glace du grand magasin
une tête couleur de poussière
ce n'est pas sa tête pourtant qu'il regarde
dans la vitrine de chez Potin
il s'en fout de sa tête l'homme
il n'y pense pas
il songe
il imagine une autre tête
une tête de veau par exemple
avec une sauce de vinaigre
ou une tête de n'importe quoi qui se mange
et il remue doucement la mâchoire
doucementet il grince des dents doucement
car le monde se paye sa tête
et il ne peut rien contre ce monde
et il compte sur ses doigts un deux trois
un deux trois cela fait trois jours qu'il n'a pas mangé
et il a beau se répéter depuis trois jours
Ça ne peux pas durer
ça dure
trois jours
trois nuits
sans manger
et derrière ces vitres
ces pâtés ces bouteilles ces conserves
poissons morts protégés par les boîtes
boîtes protégées par les vitres
vitres protégées par les flics
flics protégés par la crainte
que de barricades pour six malheureuses sardines...
Un peu plus loin le bistrot
café-crème et croissants chauds
l'homme titube
et dans l'intérieur de sa tête
un brouillard de mots un brouillard de mots
sardines à manger
oeuf dur café crème
café arrosé rhum
café-crème
café-crème
café-crime arrosé sang !...
Un homme très estimé dans son quartier
a été égorgé en plein jour
l'assassin le vagabond lui a volé
deux francs
soit un café arrosé
zéro franc soixante-dix
deux tartines beurrées
et vingt-cinq centimes pour le pourboire du garçon
Il est terrible
le petit bruit de l'oeuf dur
cassé sur un comptoir d'étain
il est terrible ce bruit
quand il remue dans la mémoire
de l'homme qui a faim.

Jacques Prévert

segunda-feira, 26 de Junho de 2006


No estendal, só equipamentos, esta semana...


Estendal, Alfama


domingo, 25 de Junho de 2006


Avaria na Lavandaria



How Can You Mend A Broken Heart?

I can think of younger days when living for my life

Was everything a man could want to do.

I could never see tomorrow,

but I was never told about the sorrow.

And how can you mend a broken heart?

How can you stop the rain from falling down?

How can you stop the sun from shining?

What makes the world go round?

How can you mend a this broken man?

How can a loser ever win?

Please help me mend my broken heart and let me live again.

I can still feel the breeze that rustles through the trees

And misty memories of days gone by

We could never see tomorrow,

noone said a word about the sorrow.

And how can you mend a broken heart?

How can you stop the rain from falling down?

How can you stop the sun from shining?

What makes the world go round?

How can you mend this broken man?

How can a loser ever win?

Please help me mend my broken heart and let me live again.

Al Green

Estendal nublado



Hoje o dia amanheceu de chumbo. Sem sol, anestesiadas pela jornada futebolística, as pessoas vagueiam, sombrias, num deslizar de tarefas desnecessárias que lhes dê um ritmo, uma razão para estarem na rua.

Nos carros, nas varandas, mais umas bandeiras, bandeirolas, grinaldas de bandeirinhas. Patriotas a contra gosto, preferem esperar em silêncio, em vez de festejarem a esperança, ou o desejo, ou a vida feita uma bola.

E nesta ansiedade morna é como se o dia e o país estivessem suspensos. Adiados. À espera, como tantas vezes, que lá longe se decida da alegria ou da tristeza.

Que treta.

sábado, 24 de Junho de 2006

Lavagem ao calendário


Propomos já hoje, apesar de ser fim de semana, que se reforme o calendário e que se substituam os feriados católicos pelas efemérides das estações. Saiem quatro santos ou milagres e entram dois solstícios e dois equinócios. Quanto à Natividade transita directamente para as festividades económicas, a par do Dia da Mãe e do Dia do Pai, dessacralizando de uma vez o reles lucro.

No que respeita aos feriados municipais, devolvamo-los ao caciquismo local , à falta de outro património. Removidos santos e mártires, o que não faltam são autarcas e beneméritos abnegados a quem o bom povo e a República tanto devem! E sempre são gente, em vez de paródias de gente.

Que se mantenham datas ou se arranjem outras. Que se recuperem festas antigas ou se inventem novas. A ver se tem fim este destino de aniversariar no dia em a Igreja decidiu que a virgem ascendeu aos céus e a República encerra o expediente!

Aceita-se roupa de fora



Própria ou de quem se conhece e se gosta....

sexta-feira, 23 de Junho de 2006

Estendal ao lusco fusco




Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços.
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...
(Quando me lembra:esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte...os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...
Se tu viesses quando, linda e louca,
Traço as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri
E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...)
Florbela Espanca

quinta-feira, 22 de Junho de 2006

Lavandaria francesa



Cresci também em francês. A palavra liberdade na carteira da escola, o barulho terrível da casca de um ovo cozido a partir-se aos ouvidos de um homem com fome, a grandeza da pequena Fadette, o romance da rosa, a cortesia, os mosqueteiros do rei, a neurastenia das raparigas em flor, os furores das trintonas, as vozes do brassens, da greco, do brel, da piaff, da hardy, do reggiani, a tontice da gall, do fugain, a crueza do preto e branco do godard, a ternura do truffaut, os esquemas do rivette, as moralidades do rohmer, o grande resnais, as emoções do montand, da signoret, da adjani, da schneider, do belmondo, do dewaere, da ardant.

Há muito tempo que não lavava em francês. Fiquei chocada. Perdeu-se a finesse, o esprit, a cultura, o prazer da conversa. Ganhou-se na pose, reforçou-se um chauvinismo antes latente e consolida-se um autoritarismo que nunca tinha encontrado antes. A francofonia paternalista substituiu o cosmopolitismo e as culturas do mundo. Mas a cidade luz continua linda e luminosa, com os mesmos recantos secretos, a mesma alegria de viver nos faubourgs, a mesma sobranceria dos boulevards, os mesmos amores nas esplanadas e à beira-rio...

quarta-feira, 21 de Junho de 2006



Hoje o sol vai demorar-se na lavandaria



Celebrar o verão e o sol. Voltar às antiquíssimas festas da Terra e da Vida, que aliás o cristianismo apropriou e preverteu. Pensar que ao dia mais longo se segue a noite mais curta e possivelmente mais mágica. Faz mais sentido que o sofrimento de homens redimindo o delírio de outros.

terça-feira, 20 de Junho de 2006

Lavagens a sul







Nesse outro país onde continuada e diligentemente se ofende a natureza e os homens, existem, apesar de tudo, espaços onde, por distracção de uns e amor de outros, este destino insano ainda não se cumpriu. Aí, é possível trabalhar e olhar à volta sem vergonha nem desespero. São estendais em fundo azulíssimo, batidos pelo vento e pelo sol, onde a roupa seca depressa e o tempo passa sem grandes sobressaltos, cumprindo o ciclo das estações e da vida.

sábado, 17 de Junho de 2006

Linge, lessive, lavanderie mas em Bragança e em português




Bateau-lavoir, Paris, finais séc. XIX
Afinal não se lavou nada, nem em Bragança nem em tribunal. Como é que se poderia ter lavado, quando se tratou, afinal, de uma epidemia fulminante, um problema de saúde pública, aliás confirmado pelas doutas autoridades da Ordem. Sinal destes tempos perigosos de iminentes epidemias apocalípticas, de estatísticas alucinantes de depressões generalizados (ou do consumo dos respectivos químicos terapêuticos)?
Entre o drama clínico e a credulidade (crendice ?) dos magistados, os cidadãos que acompanharam o lento desenrolar dos acontecimentos extraordinários de Bragança duvidam, certamente, das suas próprias faculdades mentais.
As notícias que referiram a absolvição dos (poucos) acusados, com (compreensível) discrição, foram veiculadas na mesma imprensa escrita que tem divulgado, com escândalo e alarido, a eficiente campanha levada a cabo pelo Ministério da Educação contra os professores.
Querer lavar a roupa delicada suja, mas depois utilizar detergentes inadequados, até pode deixar a roupa lavada, mas desbotada ou destruída para que serve? Para cobrir "as vergonhas"?
Isto de voltar da cidade luz e deparar com mais esta idiossincrasia lusa, é demasiado queiroziano para vésperas do solstício!
Lavagens à francesa



A lavadeira tem lavado noutras paragens...


Bateaux-lavoirs



segunda-feira, 12 de Junho de 2006

Estendal no relvado


Claro que o bom povo esperava, desejava, queria uma vitória retumbante. Por motivos mais e menos nobres....

O que se exigia do capitão, mais a mais tão celebrado no evento, era um pouco mais de gentileza, modéstia e, porque não, simpatia! Incapaz? Bom, o importante, afinal de contas, é que seja capaz no relvado. Mas, entre todos aqueles príncipes da bola, alguém há-de conseguir ser mais simpático que o capitão!Não será muito difícil...

domingo, 11 de Junho de 2006


Lavandaria Galeria


Clothesline, Beverley Meyers

Hoje não há roupa no estendal, nem na lavandaria, e as lavadeiras desesperam. Hoje, toda a roupa está lavada. O dia arrastou-se, penosamente, para o momento em que, mais uma vez, vamos ser todos melhores e imensos e imortais durante os noventa e cinco minutos em que uma bola vai rolar e rodopiar entre quarenta e seis pernas num relvado provavelmente artificial mas tão, tão verde!

sábado, 10 de Junho de 2006

Lavando efemérides com Luis Vaz




Jovem rapariga lavando, Shin Sui

"Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como, e dói não sei porquê."


Mas eu sei porquê. Porque faz hoje onze anos que Alcino Monteiro foi assassinado por causa da cor da pele. Porque o seu assassino se passeia pelas televisões, exibindo o seu ódio, o seu repelente discurso, as suas armas, a sua miséria moral. A sua existência e a dos que com ele partilham a sua terrível amputação humana, tolerada na rua, é uma das mais dolorosas exigências da democracia. Que nos invada a casa, trazido por jornalistas a quem certamente outras notícias e outros temas deveriam prevalecer sobre esta baixeza de uns quantos, é um não sei quê que dói. E que dói muito.


Ainda Luís Vaz na última lavagem deste dia em que talvez tenha morrido

s/n, Aline Mota


Camões e a tença
Irás ao paço.
Irás pedir que a tença
Seja paga na data combinada.
Este país te mata lentamente
País que tu chamaste e não responde
País que tu nomeias e não nasce.
Em tua perdição se conjuraram
Calúnias desamor inveja ardente
E sempre os inimigos sobejaram
A quem ousou ser mais que a outra gente.
E aqueles que invocaste não te viram
Porque estavam curvados e dobrados
Pela paciência cuja mão de cinza
Tinha apagado os olhos no seu rosto.
Irás ao paço irás pacientemente
Pois não te pedem canto mas paciência.
Este país te mata lentamente.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Continuando a lavar com Eugénio de Andrade



Canção Breve

Tudo me prende à terra onde me dei:

o rio subitamente adolescente,

a luz tropeçando nas esquinas,

as areias onde ardi impaciente.

Tudo me prende do mesmo triste amor

que há em saber que a vida pouco dura,

e nela ponho a esperança e o calor

de uns dedos com restos de ternura.

Dizem que há outros céus e outras luas

e outros olhos densos de alegria,

mas eu sou destas casas, destas ruas,

deste amor a escorrer melancolia.

Eugénio de Andrade


Lavando no Dia de Portugal com Eugénio de Andrade





Pátria
Soube a definição na minha infância.
Mas o tempo apagou
As linhas que no mapa da memória
A mestra palmatória
Desenhou.
Hoje
Sei apenas gostar
Duma nesga de terra
Debruada de mar.

sexta-feira, 9 de Junho de 2006


Lavagens condicionadas




Não lavamos equipamentos desportivos, cachecóis, gorros ou chapéus. Também não dispomos de écrans de plasma nem outros canais de televisão que não de música, séries ou filmes.

Posto isto, não gostamos propriamente de futebol (preferimos outras modalidades) e muito menos nos revemos neste mundo de perfídias e venalidades, associado ao caciquismo mais trauliteiro e à construção civil mais alarve e corruptora. Nem tão pouco nos revemos nas divindades da bola, mimadas e aduladas por um país que não consegue fazer construir um pavilhão gimnodesportivo numa escola com trinta anos, que já deu ao mundo campeões internacionais, cuja maior fatalidade foi não terem nascido para a todo-poderosa modalidade.
Um país cujo parlamento altera sessão plenária para que os deputados possam assitir a um jogo de futebol, é um país que se adia irremediavelmente. É o mesmo país que altera o horário de funcionamento do mesmo parlamento para receber um conhecido empresário à hora que ele determinou. É um país condicionado e triste, precoce e estupidamente eufórico, delirante e milagreiro, que emerge em todo o seu esplendor durante o tempo de um campeonato.

quinta-feira, 8 de Junho de 2006


Estendal marítimo
roupa lavada a um rapaz que gosta de ser sovado pelo mar

Abyssus Abyssum

Gosto do mar desesperado,
A bramir e a lutar;
E gosto de um barco ainda mais ousado
Sobre esta rebeldia a navegar.
Miguel Torga

quarta-feira, 7 de Junho de 2006

Lavagens por quotas




A legislação sobre a representação paritária na Assembleia da República não passou. Foi pena. Perdeu-se, de imediato, a animação que seria a constituição de listas de candidatura. Talvez as lavadeiras, que trabalham que se desunham mas nunca chegam a lugar elegível, entrassem finalmente. Depois, claro, as militantes por afinidade, ou seja, as esposas, as filhas as irmãs, as sobrinhas, (as mães?), as namoradas, as amigas, etc. E que intensas seriam as reuniões familiares alargadas para definir perfis, disponibilidades, áreas, compromissos! E as reuniões partidárias, abrilhantadas pelo mulherio em polvorosa, cada vez mais regulares e mobilizadoras, amenizadas por saborosas vitualhas, para além de alargada variedade líquida?
E na Assembleia, que delírio, que cor, que fru fru de sedas e chitas! Talvez mesmo um spa, para cuidar o nervoso e as maleitas in loco!

Espanta, porém, que a coisa tenha morrido em Belém.... afinal se foi lá que o Velho do Restelo se lamuriou e perorou contra o futuro, foi também lá que a presente Inquilina declarou publicamente não estar atrás do Titular mas à frente.... o que indiciaria alguma sensibilidade do Legítimo para o assunto. A verdade é que também não temos a certeza qual era o contexto em que foram proferidas estas declarações.....
Mas lá que estava na altura de avançarmos, em força e número para S. Bento, estava!

terça-feira, 6 de Junho de 2006


Estendal psicadélico


Entre o Minho e Trás-os-Montes, numa pequena povoação esquecida, é apreendida pela GNR plantação de cannabis a velhota de 70 anos, na sequência de denúncia anónima.

Entre o negócio perdido, a idosa enrolada (por familiares?) e a tristeza do abandono e da miséria, uma notícia em declinação neorealista no Correio da Manhã. Esperemos que a diligente Guarda tenha esquecido um pézinho num canto... assim talvez a velhota, quem sabe, possa vir a perceber, em primeira mão, o porquê de tanta atenção e drama...

segunda-feira, 5 de Junho de 2006

Estendal mediterrânico2


Vista geral de Cádiz

Estendais de Cádiz

Hoje, na RTP2, às 23:30, passa o primeiro de quatro episódios sobre o Mediterrâneo e as suas culturas e civilizações - "Périplo - Histórias do Mediterrâneo". A série conta com a inspiração e o saber de Cláudio Torres, cujas memoráveis aulas de História de Arte evocavam (na solene e moribunda faculdade de letras), com inusitado colorido e entusiasmo, as profundas e indeléveis influências desse Mar que provavelmente nos empurrou para os Oceanos. Nestes tempos difíceis em que as margens setentrionais do Mediterrâneo se fortificam e os homens se barricam, é importante relembrar que as grandes matrizes da cultura europeia emergiram das margens deste Mar e dos homens que livremente o cruzaram durante milénios.

domingo, 4 de Junho de 2006

Lavar a cantar



Lavadeiras, Alfredo Roque Gameiro

Estávamos em Agosto de 1974 e duas miúdas, uma portuguesa e outra francesa, regressavam do Algarve no Correio. Atravessavam o Alentejo, enquanto anoitecia. Algures, num dos apeadeiros, entra um grupo de ceifeiras regressando a casa depois de um dia de trabalho. Vinham a conversar, barulhentas, avançando pela carruagem até se sentarem perto das duas amigas. Já noite caída, algum tempo depois, falha a iluminação no comboio e as carruagens ficam às escuras. Primeiro uma ou duas, e depois o grupo inteiro, as mulheres começaram a cantar. E cantaram, a plenos pulmões, para espantar a noite, ou o cansaço ou talvez para reunir as últimas forças. Nós, as duas miúdas, ficámos enfeitiçadas naquela viagem cortando a noite, levadas pela música e pela magia da fraternidade que só um coro consegue criar. A francesa, enfeitiçada pelo meu país, e eu, pela minha gente. As ceifeiras saíram na estação seguinte; eu é que nunca mais deixei aquela carruagem.

Obrigada eu, Aldina, pela sua voz e pelas suas canções.

sexta-feira, 2 de Junho de 2006


Lavandaria a peso


Outros fardos I

Outros fardos II


O Ministério da Educação quer reduzir o tamanho e o peso dos manuais escolares.

Reduzindo os conteúdos? Reduzindo o tamanho das letras? Reduzindo a espessura das folhas? Vai ser uma animação para a malta das editoras e das gráficas! Será para promover a criatividade e imaginação dos designers e gráficos ou simplesmente para preparar a população para o choque tecnológico, ou seja, para os manuais virtuais e um portátil a cada aluno?

Aqui na lavandaria, embora decentemente infoincluídas, deixamos algumas sugestões, provavelmente pindéricas ou quiçá mesmo reaccionárias:

Que tal cacifos para todos os alunos? A malta da indústria de mobiliário não iria levar a mal, certamente...

Que tal um modelito abençoado pelos Ministérios (Saúde e Educação) de mochila com rodas? São jeitosas, e desenvolvem muitas outras competências!... A malta da indústria (e os intermediários) também não iriam protestar...

Que tal um pouco de bom senso, bem ultimamente escasso entre as luminárias pedagógicas da 24 de Julho?

Já agora: qual será a agência de comunicação que está a trabalhar para a 5 de Outubro? O cérebro da campanha estará finalmente a ajustar contas com a mestra que o tiranizou ou com o professor por quem teve uma paixão funesta!!

quinta-feira, 1 de Junho de 2006

Crianças no estendal




Diz homem, diz criança, diz estrela.

Repete as sílabas

onde a luz é feliz e se demora.

Volta a dizer: homem, mulher, criança.

Onde a beleza é mais nova.

Eugénio de Andrade