sexta-feira, 28 de Abril de 2006

Estendal temporariamente transferido para o litoral



Registo
Mar feliz do Algarve!
Calmo.
Azul.
Transparente.
deitado no areal ao sol ardente
Como qualquer rapaz,
Despido
E adormecido
Sob o toldo do céu...
Que vento inquietador e pertinaz
Se arrependeu
E te deixou em paz?
Que lua te esqueceu?
Miguel Torga, Praia de D. Ana, Lagos, 1972


Lavandaria cheia de cravos



Preferimos mil vezes cravos à roupa, sobretudo quando está suja!

quinta-feira, 27 de Abril de 2006

Lavando com lógica no Departamento de Matemática da Universidade de Aveiro.


Uma dona de casa chegou de férias tendo trazido vários sacos de diferentes tipos de roupas (de corpo e de casa) para lavar.Embora a sua máquina permita seleccionar várias temperaturas e escolher se se quer centrifugar ou não, só tem capacidade para lavar 5kg de roupa de cada vez. Como fez grandes gastos nas férias, pretende minimizar o número de lavagens, para poupar em água, detergente e energia eléctrica. Porém, sente-se atrapalhada pois não sabe a melhor forma de combinar as roupas de modo a não ultrapassar a capacidade da máquina e a garantir que fique bem lavada sem correr o risco de estragar alguma peça (o que acontece se não respeitar as condições de lavagem próprias de cada artigo).

Tarefa
A sua tarefa consiste em desenvolver um programa em Prolog que determine uma solução possível para o problema da dona de casa, ou seja, que proponha um agrupamento das peças de modo a respeitar as restrições (da máquina e da roupa) anteriormente referidas.

Restrições:
O seu programa deve fazer o agrupamento tendo em consideração as seguintes regras:
roupa branca não pode ser misturada com roupa de cor;
cada lote não pode ultrapassar os 5kg;
um tipo de roupa não pode ser lavado a uma temperatura mais alta que a indicada, nem pode ser centrifugado se tal estiver interdito nas suas características;
de preferência e sempre que tal não seja contra-indicado, as peças devem ser centrifugadas;
quando a temperatura recomendada não é classificada como máxima, esse artigo terá de ser lavado exactamente a essa temperatura.

Os Dados
A base de conhecimentos usada pelo programa reside num ficheiro de nome "lavanda.dat", o qual deve ser consultado no início. Esse ficheiro contém uma colecção de factos referentes ao predicado:
roupaSuja/7cujos argumentos são os descritos a seguir
roupaSuja(nomePecas,quantidade,pesoUnit,temperatura,tipo,centrifuga,cor )
em que tipo especifica se a temperatura indicada é a maxima ou a recomendada e
centrifuga diz se pode (sim) ou nao ser centrifugada. O argumento cor,
toma o valor sim ou nao, conforme se trata de roupa de cor que pode tingir ou de roupa branca.
Os Resultados
O seu programa deve ser activado através do predicado de aridade zero
lava/0
Como resultado, deve acrescentar à base de conhecimento uma colecção de novos factos
loteLavagem/3
em que os argumentos terão o seguinte significado
loteLavagem( temperatura,centrifuga,carga ) onde carga é uma lista de pares que descreve o nome das peças e a quantidade que irão constituir o lote em causa.

quarta-feira, 26 de Abril de 2006

Lavagens de Abril

À falta de melhor contributo para o calendário cívico, há para aí uns trambolhos que se dizem do 24. Ou de 26.
Nós, aqui na lavandaria, somos mesmo é de 25. De Abril. De 1974.




terça-feira, 25 de Abril de 2006



Estendal poético em Abril



Lisbon Laundry, Laura Howell


25 DE ABRIL

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo



SALGUEIRO MAIA

Aquele que na hora da vitória
Respeitou o vencido
Aquele que deu tudo e não pediu a paga
Aquele que na hora da ganância
Perdeu o apetite
Aquele que amou os outros e por isso
Não colaborou com a sua ignorância ou vício
Aquele que foi «Fiel à palavra dada à ideia tida»
Como antes dele mas também por ele
Pessoa disse.


Sophia de Mello Breyner Andresen

Lavagens de Abril
Somos filhos d(ess)a madrugada


Laundry line and lamp, Dan Phillips

Canto Jovem

Somos filhos da madrugada
Pelas praias do mar nos vamos.
À procura de quem nos traga
Verde oliva de flor no ramo
Navegámos de vaga em vaga
Não soubemos de dor nem mágoa
Pelas praias da mar nos vamos
À procura da manhã clara
Lá do cimo duma montanha
Acendemos uma fogueira
Para não se apagar a chama
Que dá vida na noite inteira
Mensageira pomba chamada
Companheira da madrugada
Quando a noite vier que venha
Lá do cimo duma montanha
Onde o vento cortou amarras
Largaremos pela noite fora
Onde há sempre uma boa estrela
Noite e dia ao romper da aurora
Vira a proa minha galera
Que a vitória já não espera
Fresca brisa moira encantada
Vira e proa da minha barca
José Afonso

segunda-feira, 24 de Abril de 2006

Estendal salazarento
Queixa das almas jovens mal censuradas
Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola
Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade
Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência
Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro
Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós
Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo
Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro
Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco
Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura
Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante
Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino
Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte.

Natália Correia
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domingo, 23 de Abril de 2006

Lavagens desesperadas

Laundry Day, Josep Vorisek

A professora Maria do Carmo Vieira não desiste. Não desistamos nós também. Outros também não, em França e no Reino Unido, onde a mesma lógica, tal como cá, destrói o ensino público e condena as gerações futuras à iliteracia e à ignorância invocando, com cinismo e má fé, a modernidade e o desenvolvimento.
Eis alguns dos que nos ampararam aqui na lavandaria: Liliane Lurçat, Fanny Capel, Chris Woodhead, Michel Jarrety, Charles Coutel, Alain Soral, Adrien Barrot, Jean-Pierre le Goff, J.C. Michéa, Guy Morel, Daniel Tual-Loizeau, Melanie Phillips, Elizabeth Altschull, Claire Laux, Isabel Weiss, Phillipe Milner.
Estendais primaveris




Rosário, Moita



Sarilhos, Montijo

sábado, 22 de Abril de 2006

Estendal em Beja





Fui-te ver estavas lavando
No rio sem "assabão"
Lavaste em água de rosas
Ficou-te o cheiro na mão

Ficou-te o cheiro na mão
Ficou-te o cheiro no fato
Se eu morrer e tu ficares
Adora-me o meu retrato

Adora-me o meu retrato
Adora-me meu coração
Fui-te ver estavas lavando
No rio sem "assabão”

quinta-feira, 20 de Abril de 2006

Lavagens cristalinas para tempo chuvoso


quarta-feira, 19 de Abril de 2006

Lavandaria marítima



Fundo do mar

No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.
Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.
Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.
Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.

Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, 18 de Abril de 2006

Ciclo (de lavagem) da vida


segunda-feira, 17 de Abril de 2006

Lavagem terminada




I Know It's Over

Oh Mother, I can feel the soil falling over my head And as I climb into an empty bed Oh well, enough said I know it's over, still I cling I don't know where else I can go Oh Mother, I can feel the soil falling over my head See, the sea wants to take me The knife wants to cut me Do you think you can help me? Sad veiled bride, please be happy Handsome groom, give her room Loud, loutish lover, treat her kindly Although she needs you more than she loves you I know it's over, still I cling I don't know where else I can go And I know it's over And it never really began But in my heart it was so real And you even spoke to me and said: "If you're so funny then why are you on your own tonight? And if you are so clever then why are you on your own tonight? If you're so terribly good looking then why do you sleep alone tonight? Because tonight is just like any other night That's why you're on your own tonight With your triumphs and your charms While they are in each other's arms..." It's so easy to laugh It's so easy to hate It takes strength to be gentle and kind It's so easy to laugh It's so easy to hate It takes guts to be gentle and kind Love is Natural and Real But not for you, my love Not tonight my love Love is Natural and Real But not for such as you and I, my love Oh Mother, I can feel the soil falling over my head
Morrissey and Marr - The Smiths

domingo, 16 de Abril de 2006


Páscoa na lavandaria




Antes da Páscoa cristã, mas deixando até aos nossos dias algumas reminiscências como os coelhos e os ovos (símbolos da fertilidade e da vida), os festivais anglo-saxónicos e celtas de Eostre e Ostara celebravam o renascimento da natureza, as árvores que floriam e se cobriam de folhagem, e a época de acasalamento dos animais.


sábado, 15 de Abril de 2006

Hoje ainda não se lava





Mas a roupa suja acumula-se. Desde a Madeira, onde o festival de 6ª feira foi "deslocalizado", passando pela Assembleia da República, que os parlamentares desertaram para melhor cumprirem os últimos dias de quaresma, continuando com a guerra civil nas estradas e as inúmeras e estafadas homilias proferidas desde o púlpito das igrejas aos orgãos da imprensa falada e escrita.
Em rescaldo, desde a semana passada: um encontro de arquitectura sustentável no mais insustentável dos espaços construídos pelos homens: Fátima. Poderia parecer humor negro. Mas não. Aconteceu mesmo. Lá.

terça-feira, 11 de Abril de 2006

Lavandaria encerrada para férias



Lavagens, arrumações, limpezas de primavera.... na alma e no corpo!

segunda-feira, 10 de Abril de 2006


Da rebeldia na lavandaria

Laundry, Joseph LeBoit

Do sentimento trágico da vida

Não há revolta no homem que se revolta calçado. O que nele se revolta é apenas um bocado que dentro fica agarrado à tábua da teoria. Aquilo que nele mente e parte em filosofia é porventura a semente do fruto que nele nasce e a sede não lhe alivia. Revolta é ter-se nascido sem descobrir o sentido do que nos há-de matar. Rebeldia é o que põe na nossa mão um punhal para vibrar naquela morte que nos mata devagar. E só depois de informado só depois de esclarecido, rebelde nu e deitado, ironia de saber o que só então se sabe e não se pode contar.

Natália Correia

domingo, 9 de Abril de 2006

Não se lava na Madeira


Forget-me-not, série Windies, Pauline Clancy


As autoridades eclesiásticas, alguns populares e um prestimoso canal de televisão proclamaram ao país a consternação e revolta pela realização de uma festa pública na Madeira, na próxima 6ª feira, feriado nacional e dia sagrado no calendário religioso cristão. A reportagem, no noticiário da noite, referia-se, não a um longínquo episódio algures no século XVII, mas hoje, 8 de Abril de 2006. É certo que a miséria, a fome, os abusos, a prepotência, o nepotismo e a ignorância vicejam como antigamente, mas são hoje as traves de um enredo que transforma a telenovela escrita e realizada pelo senhor Alberto Jardim, num verdadeiro filme de terror.
Até quando?

sábado, 8 de Abril de 2006

Musica e conversas noutras lavandarias...





sexta-feira, 7 de Abril de 2006


Muitos, na lavandaria



Não sei quantos seremos, mas qu'importa?!

Um só que fosse e já valia a pena.

Aqui, no mundo, alguém que se condena

A não ser conivente

Na farsa do presente

Posta em cena!

Não podemos mudar a hora da chegada,

Nem talvez a mais certa,

A da partida.

Mas podemos fazer a descoberta

Do que presta

E não presta

Nesta vida.

E o que não presta é isto, esta mentira

Quotidiana.

Esta comédia desumana

E triste,

Que cobre de soturna maldição

A própria indignação

Que lhe resiste.



Miguel Torga

quinta-feira, 6 de Abril de 2006

Aguaceiros no estendal




Hoje não se lava, mas a roupa suja amontoa-se! A Diocese do Porto absolve as Oficinas de S. José de responsabilidades no homicídio do sem-abrigo do Porto (a César o que é de César, mas como César se demite, avançam, prestimosos e em causa própria, os ungidos por Deus); o ministro da Justiça e o ex-director da PJ regateiam em público quem demitiu quem; o governo reduz nomeações de generais mas a tropa troca-lhe as voltas; o primeiro ministro, mais a fina-flor empresarial vão oferecer-se à cleptocracia angolana; lá fora, os estudantes (?) queimam livros na Sorbonne; Villepin e Sarkozy esgatanham-se polidamente e ergarçam o tecido social francês; Berlusconi solta mais alarvidades inconcebíveis numa vertigem desesperada que as sondagens não sossegam.


O melhor é fazer uma saponária. Com muito sabão.

quarta-feira, 5 de Abril de 2006


Eros de cordel na lavandaria


Ode to the Laundromat Woman

I spotted you under fluorescent lights

You were sorting out your darks and your whites

On top of your machine lay a bottle of Cheer

In your sweatpants and t-shirt, you looked so dear

The dryers were spinning and it was time to be Bold

I felt my opening line was as good as gold

You threw in some sheets so the fabric would soften

I said "Hey baby, do you come here often?"

You rolled your eyes and told me to "Get lost"

And made me think about the line I had crossed

Was it something I said? Was it foolish pride?

Whatever it was, I couldn't turn the Tide

Some say laundromats are a good place to meet

But I beg to differ with that old conceit

If you want to ask, think twice before you try

Forget the suds or you'll be hung out to dry

Patrick Hester

terça-feira, 4 de Abril de 2006

Lavandaria techno




ou futurista?

Escondemos as nossas máquinas de lavar roupa em marquises, cozinhas e lavandarias e exibimos orgulhosamente computadores, televisões e aparelhagens várias. É claro que o barulho do motor é irritante e a malta da engenharia ainda não se incomodou a reduzi-lo verdadeiramente a um ronronar que complete o marulhar da água no tambor! Até lá, proponho um novo olhar, de reconhecimento técnico e contemplação artística. A beleza pode ser pura e metálica.

segunda-feira, 3 de Abril de 2006


Lavadeiras

A lady's maid washing linen, Henry Morland


Retrato de uma princesa desconhecida

Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
Para que a sua espinha fosse tão direita
E ela usasse a cabeça tão erguida
Com uma tão simples claridade sobre a testa
Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
Servindo sucessivas gerações de princípes
Ainda um pouco toscos e grosseiros
Ávidos cruéis e fraudulentos

Foi um imenso desperdiçar de gente
Para que ela fosse aquela perfeição
Solitária exilada sem destino


Sophia de Mello Breyner Andresen

domingo, 2 de Abril de 2006

Disponibilidades de lavagem


Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Para poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes!


Sophia de Mello Breyner Andreson

sábado, 1 de Abril de 2006


Escrita feminina na lavandaria



Aqui há uns anos descobri, graças à Revista do Expresso, uma nova e, ao que parecia, badalada e bem sucedida escritora portuguesa: Margarida Rebelo Pinto. O corpo do texto ilustrava três ou quatro fotografias generosas que expunham, em diferentes ângulos, a esbelteza e elegância da senhora, particularmente o vente liso e o umbigo artístico, o olhar lânguido e o colo irreverente. Decidi, evidentemente, não perder tempo com a prosa de tão diáfana e moderna criatura: escritora que se preze e respeite é generosa nas formas, tem um luxuriante coberto piloso e não faz beicinho nas fotos quando é entrevistada! Mas é claro que lá fui espreitando a obra publicada que encontrava nas livrarias. Tendo crescido à sombra da terrível Condessa de Ségur, na infância, e da inesquecível Odette de Saint-Maurice na adolescência (à sorrelfa do controle paterno), achei que as novas gerações também tinham direito à literatura de cordel. O neo-liberalismo encarregou-se, consta, de tornar a senhora um êxito de vendas. Não me espantou e até achei meritório que se lesse tanto na lavandaria e na casa de banho. O que não percebo - de verdade - é esta providência cautelar dos editores da Rebelo Pinto contra alguém que chamou a si a excêntrica e corajosa tarefa de ler a obra toda, e ainda se denodar a produzir uma reflexão coerente sobre a coisa!

Das explicações veiculadas pela imprensa parece que o autor da profanação falta ao respeito e ofende intelectualmente a senhora. Parece-me difícil que o faça melhor que ela, mas não deixa de me provocar náuseas esta recuperação privada de uma antiga e terrível vocação censória, e tenho uma grande vontade de ajudar a transformar o objecto de tamanha cretinice num êxito de vendas. De qualquer modo, ela aí está, hiperfeminina e enxuta, para quem a quiser ler sem ofender a estante.