sexta-feira, 31 de Março de 2006

Estendal vertical

Verticalmente

Afinal o que importa não é a literatura nem a crítica de arte nem a câmara escura Afinal o que importa não é bem o negócio nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio Afinal o que importa não é ser novo e galante– ele há tanta maneira de compor uma estante Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício e cair verticalmente no vício.

mário cesariny de vasconcelos


quinta-feira, 30 de Março de 2006


Homens na lavandaria

Os homens conversam. As mulheres falam. Às vezes os homens conversam com as mulheres. Às vezes as mulheres ouvem-se. Às vezes os homens falam de laranjas com as mulheres. Estas laranjas do herberto helder são para o antónio e para o joão.

Weather Change, Deryk Houston


Laranja, peso, potência.
Que se finca, se apoia, delicadeza, fria abundância.
A matéria pensa. As madeiras
incham, dão luz. Apuram tão leve açúcar,
tal golpe na língua. Espaço lunado onde a laranja
recebe soberania.
E por anéis de carne artesiana o ouro sobe à cabeça.
A ferida que a gente é: de mundo
e invenção. Laranja
assombrosamente. Doce demência, arrancada à monstruosa
inocência da terra.

herberto helder

quarta-feira, 29 de Março de 2006

Lavandaria simplex


São 333 medidas de simplificação administrativa que o governo propõe! Aqui na lavandaria ficámos entusiasmadas com tamanha lavagem! Será que ainda fica alguma roupa suja depois de tanta limpeza?
Infelizmente o nosso entusiasmo foi de curta duração! Ao aceder ao documento, no Portal do Governo, não foi possível gravá-lo! Parece mentira mas é verdade! Para o lermos no remanso da lavandaria, enquanto a roupa revolve na máquina, só mesmo imprimindo as 89 páginas! Pobres árvores. Pobre simplificação. Achámos que devíamos alertar o governo para esta falha estúpida que comprometia o espírito da coisa. Felizmente o Portal do Governo remete a nossa mensagem, por defeito, para o primeiro-ministro. Será que isto não é sabotagem, mas antes uma oportunidade para o engenheiro José de Sousa receber umas missivas dos cidadãos?
Nota: O documento não é nenhuma parolada! Tem uma imagem catita, com um teclado de computador e um logo práfrentex! É uma simplicidade estilizada e quase, quase austera. Gostámos. Um dia havemos de ter assim uma lavandaria. Simples, depurada, sofisticada! Falta-nos o choque tecnológico, ainda!

terça-feira, 28 de Março de 2006


Estendal mediterrânico.



"Não gosto de catedrais, do peso das pedras, da dimensão excessiva das naves, da mitologia de um Deus em cujo nome foram construídas e que aqui convoca e esmaga os seus crentes. Não gosto da profusão de altares de castiçais de talha dourada, de sacrários e cânticos e painéis. Não gosto da arquitectura que não é à escala humana, nem nos meios utilizados nem nos fins que representa.
Prefiro a extensão plana das mesquitas, o seu jogo de colunas e sombras, o despojamento geométrico dos seus azulejos. Prefiro mil vezes a herança do mundo árabe morto em Granada do que os símbolos da reconquista cristã que o sepultou.
Mil vezes a leveza do mundo mediterrânico do que o sufoco das catedrais e castelos do Sacro-Império Romano-Germânico. Mil vezes os templos gregos, entre resina e mar e a quietude das oliveiras, do que os castelos de Inglaterra e as florestas de bétulas do Norte. Mil vezes as kasbahs de Marrocos do que os castelos feudais da Europa, mil vezes Granada do que Versalhes.
E antes um Olimpo de deuses de cada coisa do que um Deus único, antes o Al-Andaluz do que os Reis Católicos, antes Roma do que o Papado, antes a luz e a democracia gregas do que a escuridão medieval.
Falo da nossa herança, o Mediterrâneo - a mais extraordinária civilização humana, a civilização da luz, da arte, da arquitectura, da democracia, do direito, da navegação e da descoberta, do mar e do deserto, das ilhas e dos golfos, das vinhas, dos olivais, e dos pinhais, das estátuas profanas, das colunas e dos azulejos, dos pátios, dos terraços e das varandas, da cal, do branco e do azul. É a civilização do Egipto, de Creta, de Atenas, de Roma, de Volubilis, de Tânger. Das cidades portuárias, de Alexandria a Lisboa e das Ilhas Gregas, da Sicília, de Malta, de Chipre, da Sardenha. São três mil anos a contemplar as estrelas do céu, a ouvir o som da água nas fontes e a tentar decifrar o mistério da morte.
Antes que a ideia de Deus esmagasse os homens, antes dos autos de fé, das perseguições religiosas da Inquisição e do fundamentalismo islâmico, o Mediterrâneo inventou a arte de viver. Os homens viviam livres dos castigos de Deus e das ameaças dos Profetas: na barca da morte até à outra vida, como acreditavam os egípcios. E os deuses eram, em vida dos homens, apenas a celebração de cada coisa: a caça, a pesca, o vinho, a agricultura, o amor. Os deuses encarnavam a festa e a alegria da vida e não o terror da morte.
Antes da queda de Granada, antes das fogueiras da Inquisição,antes dos massacres das Argélia, o Mediterrâneo ergueu uma civilização fundada na celebração da vida, na beleza de todas as coisas e na tolerância dos que sabem que, seja qual for o Deus que reclame a nossa vida morta, o resto é nosso e pertence-nos - por uma única, breve e intensa passagem. É a isso que chamamos liberdade - a grande herança do mundo do Mediterrâneo."

Miguel Sousa Tavares in Não te deixarei morrer, David Crocket, 2001

segunda-feira, 27 de Março de 2006

Lavando com convicções


Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na deusa com olhos de diamante
Creio em amores lunares com música ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro. Amen.

Natália Correia

domingo, 26 de Março de 2006


Gente na lavandaria

Thomas Joerup, Kosovo, 1998


Esta gente

Esta gente cujo rosto
Às vezs luminoso
E outras vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo



Sophia de Mello Breyner Andresen, 1967


sábado, 25 de Março de 2006


Lavando com van Gogh


Mulheres lavando na ponte de Langlois, em Arles


Rosie e Reinaldo na lavandaria

Pink Lock, Molly Kiely



Eu, Rosie, eu se falasse eu dir-te-ia
Que partout, everywhere, em toda a parte,
A vida égale, idêntica, the same,
É sempre um esforço inútil,
Um voo cego a nada.
Mas dancemos; dancemos
Já que temos
A valsa começada
E o Nada
Deve acabar-se também,
Como todas as coisas.
Tu pensas
Nas vantagens imensas
De um par
Que paga sem falar;
Eu, nauseado e grogue,
Eu penso, vê lá bem,
Em Arles e na orelha de Van Gogh...
E assim entre o que eu penso e o que tu sentes
A ponte que nos une - é estar ausentes.
Reinaldo Ferreira

Lavagens e seduções





A direita portuguesa deu, no passado fim de semana, o mais entusiasmante contributo político dos últimos anos. O conhecido clube popular fez saber, por um dos mais atraentes dirigentes políticos que atravessam o pequeno ecrã, que era necessário ser-se mais sedutor e sexy! Aqui na lavandaria ficámos entusiasmadas a aguardar não só a renovada sensualidade dos restantes dirigentes do clube, como a onda de choque que, inevitavelmente, arrastaria outros políticos portugueses. Reparámos, com algum frisson, nas viris patilhas de um ex-ministro e também membro deste selecto clube. É certo que a comparação avançada pela nossa mais provecta lavadeira referia basicamente a majestosa Carlota Joaquina, cujo ornamento capilar sobre o lábio superior causou furor na Europa novecentista.... mas invejas há-as em todo o lado!
Reconhecemos que transformar um grunho num pedaço de mau caminho ou um beato num casanova levará o seu tempo.... Por outro lado, os exemplos por essa União Europeia fora não entusiasmam nem a rapaziada latina, nem a declinação feminina, ciosos dos seus pergaminhos mais tradicionais. A estrela porno italiana ou a página central da Playboy francesa certamente não animarão a entourage da Dona Zezinha ou da Dona Celeste. Restam, portanto, os homens. Cá os esperamos, lavados, sedutores e sensuais! Não demorem!

sexta-feira, 24 de Março de 2006


Beat generation na lavandaria



"Percorriam à pressa as ruas, estudando tudo com aquele modo que tinham ao princípio, e que mais tarde se tornou tão triste e mais perceptivo e vazio. Mas nessa altura andavam como fantoches febris, e eu trotava atrás deles como tenho feito toda a minha vida atrás das pessoas que me interessam, porque as únicas autênticas para mim são as loucas, as que estão loucas por viver, loucas por falar, loucas por ser salvas, desejosas de tudo ao mesmo tempo, aquelas que nunca bocejam ou dizem um lugar-comum, mas ardem, ardem, ardem como fabulosas peças de fogo de artifício amarelo a explodir entre as estrelas e no meio vê-se o clarão azul e toda a gente diz: Ah! Como se chamava a este género de jovens na Alemanha de Goethe?"
Jack Kerouac, Pela Estrada Fora, 1960
Estendal de fogo




É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a
entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta
pelo meio
o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras
um pouco loucas
engolfadas, entre as mãos sumptuosas.
A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.
Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos um para o outro
nas trevas.

herberto helder

quinta-feira, 23 de Março de 2006

Lavandarias de grande projecção turística


Aqui na lavandaria não concordamos com o senhor presidente da Câmara de Grândola, que quer transferir a colónia penal de Pinheiro da Cruz para o interior do concelho, para não ensombrar a zona litoral, que pretende "de grande projecção e excelência turística".
Em primeiro lugar, porque os internados estão, e peço desculpa por relembrar a legislação, em pleno processo de reinserção social. Ou não? Tanto melhor à beira mar do que na torreira do interior, de onde toda a gente se pisga assim que pode.
Em segundo lugar, porque quando os nossos notáveis autarcas falam em projectos de grande projecção e excelência costumam estar a referir-se a condomínios fechados, mal amanhados e esconsos, que justificam o excesso de fogos e a mediocridade das áreas comuns com a inestimável vantagem da segurança. Assim sendo, ainda menos se justifica: por um lado a segurança está ali mais garantida e por outro porque ,entre uma prisão e outra, a diferença está basicamente nos acabamentos.
Além disso porque não encarar a coisa numa perspectiva alternativa? De qualidade, pois claro! No Meco parece que vão fazer o mesmo com a flora e fauna local, abençoados pelos dissidentes do World Wildlife Fund. Não haverá uma facção da Amnistia que aceite o frete em Pinheiro da Cruz?

quarta-feira, 22 de Março de 2006


Exercícios com vogais (na lavandaria)


Muito haveria a dizer do confronto da mão com o sol. Da semente com a terra. Há contudo um lugar onde a paixão se esconde para explodir: o olhar.


Eugénio de Andrade

Êxtase mortal na lavandaria




Depois do frenesim imobiliário que o litoral conheceu, dir-se-ia que talvez fosse altura de travar os ímpetos e tentar salvar algum património natural colectivo. Até porque a própria natureza já reclama o que é seu, em vários pontos. Mas não.
No sul, o Algarve, que tal como a Madeira ainda é Portugal, o poder local, pela voz de um dos seus mais lídimos representantes proclama que o Plano de Ordenamento (documento realista e que só peca por tímido) será "a morte do Algarve".
Exagera o prezado edil. Por um lado, porque ao moribundo já só se prevê uma morte há muito anunciada. Por outro, porque omite cautelosamente essa figura jurídica sublime que é o "direito adquirido" e que tanto tem amparado autarcas, construtores e vendedores.
Além disso, também entre Planos Directores suspensos e intervenções casuísticas se tem continuado alegremente a dispôr, de forma suicidária e arrogante, do território nacional.
Para concluir, o presidente da região de turismo do Algarve e autarca de Loulé insinua que o PROT serve claramente os interesses espanhóis pois desanima o investimento em Portugal.
Afinal somos todos Vasconcelos! É no sul que está a nata da portugalidade, afinal. Bem me parecia!

terça-feira, 21 de Março de 2006


Super heróis na lavandaria





A tropa fandanga do PSD saíu a terreiro para salvar a lavoura! Hoje é a lavoura escolar! Num momento de inspiração que até arrepia imaginar como terá surgido, propõe na imprensa a contratação de licenciados no desemprego para ajudar as escolas (e os alunos) com mais problemas de insucesso. Atendendo a que foram justamente os últimos governos (PS,PSD,PS) que despacharam para o desemprego a maior parte destes licenciados, poderia ser até bonito se não fosse, em última análise, insultuoso, de tão delirante.

O governo reduziu o número de professores em determinadas "disciplinas" (que os gurus da pedagogia congeminaram numa noite de furor gótico), mantendo-as como pura demagogia; o governo continuou a pagar, ano após ano, enquanto o desemprego docente aumentava, estágios profissionais nas escolas; o governo acabou com os apoios individuais a alunos com dificuldades; o governo reduziu o número de horas curriculares em disciplinas "menores" como a História (abençoado pela respectiva associação profissional, pesarosa mas conformada com desígnios mais elevados); o governo obrigou os professores a dar aulas de substituição sem serem remuneradas; o governo anunciou milhares de vagas com a criação dos quadros de educação especial, omitindo caridosamente que a maior parte dos professores do ensino especial tinham horários negativos e portanto, ao transitarem para o novo quadro não deixavam vaga de quadro.

Enfim, governos sucessivos esbanjaram onde não se admitia e pouparam onde não deviam nem podiam, liquidando a escola pública de caminho, e agravando o desemprego. E agora vêm os super heróis do PSD atirar para o ar meia dúzia de patacoadas sem sentido nem credibilidade, sem que ninguém no partido com dois neurónios a funcionar os tenha travado?! Ou será que o Pedro fez escola com aquela brilhante ideia de pôr professores desempregados às ordens dos magistrados nos tribunais?




segunda-feira, 20 de Março de 2006

Lavandaria primaveril ...





Hoje é o equinócio da primavera!
As nossas sociedades urbanizadas celebram acontecimentos políticos, festas religiosas, mas abandonaram as celebrações da natureza! Os ciclos da natureza, os calendários lunares são hoje um anacronismo ou uma expressão de vida alternativa com reduzida dimensão.
Durante séculos (quase totalmente) assimiladas no Ocidente pelo cristianismo, subsistem, das antiquíssimas festas da fertilidade e do renascimento da vida que marcavam o equinócio da primavera, os ovos, os coelhinhos, os folares, os rituais de moderação prévia e festejos de alegria e redenção.
Indiferentes aos homens e aos seus calendários, equinócios e solstícios sucedem-se quase imutáveis. No dia de hoje, a luz e a escuridão repartem o dia, o sol e a lua partilham o céu...o que, sendo aparentemente tão pouco ou banal, tem o tamanho do mundo!

domingo, 19 de Março de 2006


Leituras mais sérias na lavandaria...





" Este livro é sobre o domínio público, o território da cidadania, equidade e serviço, cuja integridade é essencial à governação democrática e ao bem estar social. Inicio-o com três proposições, relacionadas entre si.
A primeira é que o domínio público tem a sua cultura distinta e regras de decisão próprias, nelas prevalecendo os direitos de cidadania sobre o mercado e os laços de parentesco ou de grupo. O orgulho profissional na tarefa bem executada, o sentido de dever cívico, ou ambos, substituem a espectativa pelo lucro ou o medo de o perder (e, nessa perspectiva, o vínculo à família, amigos ou dependentes) e constituem o incentivo para a acção pessoal.
A segunda proposição é a de que o domínio público sendo, simultaneamente, precário e inestimável, constitui uma conquista da História estando, portanto, constantemente em risco. Apenas pode desenvolver-se numa sociedade onde a noção de interesse público, distinta do interesse privado, criou raízes, sendo que, historicamente falando, tais sociedades são raras. Os seus valores e práticas não surgem naturalmente, antes são aprendidos; enquanto os domínios privados do amor, amizade e relações pessoais, ou do mercado, são produtos da natureza, o domínio público precisa de ser alimentado, cuidadosa e continuadamente.
A terceira proposição é que (...) nos últimos vinte anos, se tem assistido a um Estado agressivamente intervencionista, que tem enfraquecido, de forma sistemática, as instituições e práticas que o haviam sustentado e conhece agora uma profunda crise."

David Marquand, Decline of the Public - The Hollowing-out of Citizenship, Polity, Cambridge, 2004




sábado, 18 de Março de 2006



Quase um poema de amor....no estendal!

Há muito tempo já que não escrevo um poema
de amor.
E é o que eu sei fazer com mais delicadeza!
A nossa natureza
lusitana
tem essa humana
graça
feiticeira
de tornar de cristal
a mais sentimental
e baça
bebedeira.
Mas ou seja que vou envelhecendo
e ninguém me deseje apaixonado,
ou que a antiga paixão
me mantenha calado
o coração
num íntimo pudor.
Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor.

Miguel Torga


Soldados da paz...na lavandaria!







Ontem, dirigentes da Liga de Bombeiroso acusavam o INEM de uma campanha tenebrosa para esvaziar e destruir o papel dos bombeiros no socorro e emergência. Hoje, por um lado protestam por não terem sido ouvidos pelo ministro da Saúde a propósito do encerramento de maternidades (sim, parece incrível mas vem na 1ª página do Público), por outro reclamam a extinção do Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil e a recuperação de um Serviço Nacional de Bombeiros. A argumentação não envergonharia uma abadessa de clarissas! E não fora o elenco dos dirigentes da Liga incluir o inconcebível Rui Rama da Silva, a quem os munícipes de Cascais tanto devem em branqueamentos e outras lavagens, e o leitor desatento, sintonizado nos canais televisivos dos incêndios, até poderia acreditar na boa fé dos testemunhos. E são muitos. Diariamente, em variados meios de comunicação, os dirigentes da Liga desdobram-se (em nome do público, do povo, da população indefesa) em ameaças, avisos, denúncias, exigências, reclamações e sentenças, com a autoridade que um exemplar domínio do marketing e propaganda lhes permite. Ah. E do timing também! Aqui na lavandaria é no inverno que se reparam estendais e no verão que se trata da manutenção das máquinas!

sexta-feira, 17 de Março de 2006



Chove no estendal.... e resvalamos para a melancolia!


Washing line, Lee



THERE IS A LIGHT AND IT NEVER GOES OUT

Take me out tonight Where there’s music and there’s people And they’re young and alive Driving in your car I never never want to go home Because I haven’t got one Anymore Take me out tonight Because I want to see people and I Want to see life Driving in your car Oh, please don’t drop me home Because it’s not my home, it’s their Home, and I’m welcome no more And if a double-decker bus Crashes into us To die by your side Is such a heavenly way to die And if a ten-ton truck Kills the both of us To die by your side Well, the pleasure - the privilege is mine Take me out tonight Take me anywhere, I don’t care I don’t care, I don’t care And in the darkened underpass I thought oh god, my chance has come at last (but then a strange fear gripped me and I Just couldn’t ask) Take me out tonight Oh, take me anywhere, I don’t care I don’t care, I don’t care Driving in your car I never never want to go home Because I haven’t got one. Oh, I haven’t got one And if a double-decker bus Crashes into us To die by your side Is such a heavenly way to die And if a ten-ton truck Kills the both of us To die by your side Well, the pleasure - the privilege is mine Oh, there is a light and it never goes out.
Morrissey & Marr

quinta-feira, 16 de Março de 2006


Transe na lavandaria



Transe
Nem tudo é lei da vida ou lei da morte.
Há limbos onde o homem desconhece
Esse dilema hostil.
É quando ama, ou sonha, ou faz poemas,
E a própria natureza o não domina.
Então, livre e perfeito,
Paira no tempo como o pó suspenso.
Nem do céu, nem da terra, nem sujeito
Ao pesadelo de nenhum consenso.
Miguel Torga
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quarta-feira, 15 de Março de 2006



Porque não dar à luz na lavandaria ?...




Hoje, o inefável director do Público perora em torno do egoísmo do cidadão que insiste em manter maternidades, por puro conforto, ao virar da esquina. No Portugal de JMF, a rede de estradas é óptima e os partos são programados, de modo que insistir em dar à luz perto de casa, é um conforto que sai caro aos contribuintes. E recomendando bom senso ao cidadão, sugere que antes de se entrar em trabalho de parto se assegure da existência de um helicóptero por perto, para o caso de algo correr mal. Quanto às mulheres, no fundo, "só terão é de ir dar à luz um pouco mais longe de casa". Para a lavadeira este longe tem o tamanho de meio país e de séculos! Mas talvez o parto do JMF tenha sido semelhante ao do herói de Perfume , de Peter Süskind..... compreende-se assim a insanidade da prosa!

terça-feira, 14 de Março de 2006

Lavagens na Quinta da Rocha


Roupa a secar, Gustave Caillebotte

A associação ambientalista A Rocha, que tem vindo a efectuar investigação naquela que é uma das mais importantes zonas húmidas do sul do país - a ria de Alvor - integrada na Rede Natura 2000, denunciou movimentações de terras e destruição de espécies vegetais protegidas na Quinta da Rocha, e solicitou a intervenção do SEPNA (a brigada do ambiente da GNR). A Rocha foi proibida pelo proprietário, o Grupo Imoholding - liderado por Aprígio Santos, presidente do Clube Naval 1.º de Maio, da Figueira da Foz, não só de se deslocar ao local mas de prosseguir os estudos em curso. Em contrapartida convidou responsáveis da autarquia de Portimão para visitarem a Quinta. Estes confirmaram as explicações da Imoholding, que afirma que os trabalhos são apenas limpeza e manutenção!....
Esta convergência entre futebol, imobiliário, poder local constitui um poderosíssimo detergente! Limpa, branqueia e, convenhamos, arruína irremediavelmente tudo o que atinge.
Há anos que paira sobre a ria de Alvor este mortal destino. Face aos ambientalistas, encarados como um perigoso anacronismo inimigo do progresso e do desenvolvimento, surgem os devotados e abnegados edis, com determinação e coragem, em conjunto com esses arautos da modernidade que são os empresários da construção civil e do futebol!

Que a terra os trague e esmague!


segunda-feira, 13 de Março de 2006


Introdução à primavera no estendal





Nos dias em que o vento anima a roupa
suspensa desta ou daquela janela
o meu olhar perdido não a poupa
e vai seguindo os movimentos dela.

Ruy Belo

domingo, 12 de Março de 2006

Eventos na lavandaria



Marcello Mastroianni e Sophia Loren em "Una giornata particolare", de Ettore Scola (1977)


Estreou na semana passada, com pompa e circunstância, um filme de horror, "A Queda da Casa de Belém". A mediocridade do elenco e a confrangedora banalidade do argumento impunham uma cerimónia na melhor tradição da propaganda de massas. Sobretudo tendo em conta as inúmeras declarações do protagonista principal a respeito das dificuldades orçamentais.
Em torno do evento, as habituais especulações das revistas da especialidade e da imprensa cor de rosa reforçavam o patético provincianismo do acontecimento. O cenário e os exteriores não prometiam grandes espectativas artísticas e a produção limitou-se a assegurar o roteiro.
É claro que nem A. C. Silva é Marcello Mastroianni, nem M.C. Silva, Sophia Loren - cuja honestidade, humanidade e emoção marcaram tanto as respectivas vidas profissionais como privadas e públicas - mas um pouco de cultura e memória cinematográfica teria certamente ajudado a elevar o momento!
Dos ecos que persistem até hoje, aqui na lavandaria retivemos o episódio do aperto de mão. Por necessidade profissional, a lavadeira tem as mãos limpas. Essa inevitabilidade poderia, evidentemente, levá-la a deixar que se sujassem fora da lavandaria. Quem lho levaria a mal, nestes tempos permissivos e politicamente correctos? Mas quem tem as mãos sujas terá que aceitar que os conterrâneos lhas não queiram apertar. Mesmo que também as tenham pouco limpas....
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terça-feira, 7 de Março de 2006

A lavadeira vai lavar para outras paragens





Vai perder a investidura do homenzinho que, sendo primeiro-ministro entre 1985 e 1987, teve a oportunidade histórica de reparar a memória de Aristides de Sousa Mendes, que desobedecendo a Salazar e por ele perseguido com ódio, salvou milhares de vidas inocentes. Quando outros colaboraram na barbárie nazi, ele recusou. Quando outros calaram e viraram a cara, ele persistiu. Para lá do medo, das ameaças, do risco.
Homens como Aristides de Sousa Mendes conferem dignidade a tempos tão negros e opacos como os que a Europa viveu nos anos de chumbo do nazismo e do salazarismo. Reconciliam-nos com a nossa memória e fazem-nos sentir grandes quando nos vemos menores.
O homenzinho que será investido como Presidente da República Portuguesa, não só recusou reintegrar Aristides de Sousa Mendes na carreira, a título póstumo, como justificou tal vileza afirmando que agiria da mesma maneira que Salazar, pois não poderia aceitar insubordinação semelhante.

Este homenzinho foi eleito pela maioria dos meus compatriotas que compareceram nas urnas e representa boa parte daquilo que abomino: a falta de humanidade, a covardia, a ignorância arrogante, o provincianismo mesquinho, o egoísmo cínico,o desprezo pela memória, a negação da poesia.

Este homenzinho chama-se Aníbal Cavaco Silva.

Ah. Aurea mediocritas!
Avizinham-se dias de chumbo...




há que ter fé na esperança, como diria a Rita Pirex !

segunda-feira, 6 de Março de 2006


Vertigem na lavandaria


Laundry, Luarca, Espanha - Michael Seewald


O poema ensina a cair
sobre os vários solos
desde perder o chão repentino sob os pés
como se perde os sentidos numa
queda de amor, ao encontro
do cabo onde a terra abate e
a fecunda ausência excede
até à queda vinda
da lenta volúpia de cair,
quando a face atinge o solo
numa curva delgada e subtil
uma vénia a ninguém de especial
ou especialmente a nós uma homenagem
póstuma.


Luiza Neto Jorge
Lavagem em profundidade




Hoje o VPV está venenoso! Foi Sampaio, foi Teixeira Gomes, foi Clara Ferreira Alves. Nada como recuperar a 2ª feira de lavandaria! Espero que continue. A maledicência às horas pardas da melancolia, no fundo do copo ou nas tardes de ressaca não tem graça nenhuma! As boas almas que não perdoem... a hipocrisia continua a ser a pior das nódoas.

domingo, 5 de Março de 2006

Das lavandarias automáticas...




La solitude...

Il est de toute première instance que les laveries automatiques, au coin des rues, soient aussi imperturbables que les feux d'arrêt ou de voie libre. Les flics du détersif vous indiqueront la case où il vous sera loisible de laver ce que vous croyez être votre conscience et qui n'est qu'une dépendance de l'ordinateur neurophile qui vous sert de cerveau. Et pourtant...

La solitude...

Léo Ferré

sábado, 4 de Março de 2006




Temporal


Dias de lentidão, dias de chuva,

Dias de espelhos quebrados e de agulhas perdidas,

Dias de pálpebras cerradas ao horizonte dos mares

De horas sempre iguais, dias de cativeiro.

Paul Éluard, trad. António Ramos Rosa

sexta-feira, 3 de Março de 2006

Temporal para o fim de semana






Que azar! E o que não falta é roupa suja e perspectivas de muita mais se sujar entretanto!

Resta a lembrança dos dias claros, do sol tímido e do corpo descoberto à espreita da primavera, que os pensamentos estão como o dia: cinzentos!



Ainda é Inverno....


Lessive. Saint Trévier de Courses


quinta-feira, 2 de Março de 2006

Branqueamento da Memória





Aqui na lavandaria, mesmo tendo-nos debruçado um pouco sobre o fenómeno dos condomínios fechados, custa-nos compreender o que leva um promotor imobiliário a querer transformar em condomínio de luxo a antiga sede da PIDE na António Maria Cardoso. Mesmo tendo em conta os usos anteriores do edifício, o facto de ali terem sido torturados tantos homens e mulheres, tiraria a vontade a qualquer um de fazer daquele espaço um lar!
Limitar a história do edifício até à Restauração, branqueando o horror da utilização posterior, é desonestidade moral e ultraje à memória de quantos lá sofreram. Mas o processo, embora discreto, não foi clandestino. Que fizeram o bom do Duque, que emprestou o nome à Coisa (será alheia a tal indiferença a utilização do título, autorizada por Salazar a quem a PIDE assim serviu?!), o presidente do Município e o presidente da República?
E, já agora, que tipo de gente consentirá em viver aqui?

Blasfémias na lavandaria

Fica a lavadeira avisada!


Do alto do púlpito da Sé de Lisboa, inflamado pelos cinquenta mil peregrinos da Volta a Portugal em Caixão, advertiu os ateus que com o sagrado não se brinca. Nada de misturar liberdade com blasfémia ("chegou-se mesmo a defender, em nome da liberdade, o direito à blasfémia", acusou) até porque a dificuldade que os ateus têm em acreditar em Deus (lamentável insuficiência que a Inquisição procurou suprir com denodo) não ponha em causa a (e cito, empolgada) a sua insofismável realidade.

E avisou: "respeitai a nossa fé e Deus, em quem acreditamos".
Só é pena que se tenha contentado com o limitado público que acorreu à Sé.
Pedagogia com esta elevação, a fazer o contraponto à propaganda fundamentalista islâmica, exigiria, no mínimo, acções de rua. Ou de estrada. Com ou sem caixões.
Ah. E uns milagres também davam jeito! Ou uns fenómenos. Um mistério, pelo menos. Sempre animava as hostes e intimidava os incréus!

quarta-feira, 1 de Março de 2006

Querida lavadeira





O mistério das meias desaparecidas

É verdade. Durante anos vivi com este mistério. À medida que se acumulavam meias desemparelhadas no cesto da roupa e revolvia a casa de alto a baixo, fui matutando no assunto e cheguei a duas hipóteses: ou era a gaveta que as devorava ou a máquina da roupa que as pulverizava. Agora já sei. E é só a coberto do anonimato mais cobarde que ouso partilhar este drama ridículo.E a certeza de não estar só. Bem sei que a profissão de cartoonista é particularmente vulnerável nos dias que correm. Mas merecer um cartoon é sinal que o mistério existe e está muito mais generalizado do que eu imaginaria. Vítimas da devoradora de meias, uni-vos! E talvez não seja por acaso que o tema surge, em pleno Fantasporto...