Quinta-feira, 6 de Dezembro de 2007


Lavandaria fechada



não tenho outra maneira de o dizer, senão que não me apetece mais esta lavandaria, estas lavagens, estes estendais. por isso, organizadas as existências, e arrumada a maquinaria, é tempo de fechar a porta. mesmo se para abrir outra, aqui ao lado, a cores. mil obrigadas pela tolerância, pelo calor, pelas palavras, por estarem aí.

Lavagem nocturna





saber-te
e não saber nada

ver-te
e de cada vez seres um outro

desenhar-te
e a imagem explodir em mil reflexos
breves

e não saber
e não ver
e não tocar


e não escrever
mais nada

Lavagens no tempo

Quarta-feira, 5 de Dezembro de 2007


Estendal de lavagens antigas
aqui, à beira mar, onde o sol e o mar ignoram nevoeiros





Neste canto, sentada frente à porta, escrevo. O volume do rádio, sobre a mesa, está no máximo, para abafar o bater do coração.

Escrevo. Mas escrevo sem pensar, para que o desejo não se apodere das palavras, para que não fuja do peito atrás de uma frase perfeita. A caneta desliza no papel, lentamente, para que a alma não tropece na mão. Para que não arredonde as arestas destes dias sem brilho nem decência. Escrevo, mas escrevo como respiro quando está frio. Devagarinho. Cuidadosamente. Para que o frio que ainda me agarra as mãos não me devore o corpo.





Estendal melancólico, com nevoeiro


Clothesline, Sarah Huntington


e alguma cor. nevoeiro é quando a natureza desiste do dia, da noite, do sol, do vento, da escuridão. de nós. só não desiste do mar, a cujos braços se acolhe e se dissolve. talvez porque sejam da mesma líquida e melancólica condição.




Estendal de olhares

Terça-feira, 4 de Dezembro de 2007


Mensagem na lavandaria




Schleudergang, Carl-Sebastian Lepper


mensagem curta escrevinhada nas costas de um recibo:
' não me esperes. não me esperes nunca'.
onde antes
um gesto que vacila
uma mão paralisada
um sorriso distraído

uma frase subitamente curta
uma resposta inesperada
um olhar surpreendido
um corpo que se afasta
hoje é
uma palavra:

nunca.


Estendal de espaços

Segunda-feira, 3 de Dezembro de 2007

Estendal matinal





quando rompe a manhã, gosto daquela altura em que o sol me olha de frente e me beija inteira, enquanto derrama sobre o rio uma bruma dourada e mágica. começar o dia devia ser sempre este beijo quente e luminoso que nos acolhe na eternidade.

Domingo, 2 de Dezembro de 2007

Estendal de amigos
(e todos os que fotografaram e lavam por aqui)

Sábado, 1 de Dezembro de 2007

Estendal restaurado
na lavagem patrioteira deste descanso, hoje engolido pelo fim de semana, outro 1640 a pensar nos estupores que decidem das nossas vidas







Catalunha, triunfante,
tornará a ser rica e cheia!
Por detrás desta gente
tão ufana e tão soberba!
Bom golpe de foice!
Bom golpe de foice, defensores da terra!
Bom golpe de foice!
Agora é hora, segadores!
Agora é hora de estar alerta!
Para quando chegar o outro junho
amolem bem as ferramentas!
Bom golpe de foice!
Bom golpe de foice, defensores da terra!
Bom golpe de foice!
Que trema o inimigo
mostraremos a nossa bandeira:
como fazemos cair as espigas de ouro,
quando convém ceifamos correntes!
Bom golpe de foice!
Bom golpe de foice, defensores da terra!



Sexta-feira, 30 de Novembro de 2007

Estendal vazio


de pesadelos, de sombrias vontades pressentidas nas esquinas, de sufocos antiquíssimos a marcar as encruzilhadas que os homens urbanizaram e corromperam,

de gritos sepultados na garganta e que devoram os olhos, quando o corpo se entrega ao calor embaraçado de outros corpos,

de sobressaltos que estremecem janelas e batem portas que esquecemos de fechar, quando toda a casa desistiu de procurar o sol,

de misteriosas,
perdidas canções trazidas na ventania em dias de temporal, e que ecoam como lamentos encantados nas ruas desertas,

de vozes acossadas pelo frio e pelo pavor de atravessar a cidade sem sons, sem risos, sem palavras, sem afagos.